Se tem algo que convém não se duvidar nunca é da capacidade que uma pessoa vingativa tem para criar problemas para seus desafetos. Ainda mais se ela tiver muito dinheiro, tempo disponível e um motivo que entenda ser relevante. Uma dessas situações levou mulher a construir não apenas um plano de vingança, mas também o então maior edifício de toda a América Latina, erguido em Buenos Aires, no ano de 1936.

Corina Kavanagh era filha de dois imigrantes irlandeses que vieram para a Argentina, onde se tornaram prósperos proprietários de terras. Muito jovem, ela teve um casamento arranjado com outro imigrante vindo da Irlanda, ainda mais rico do que ela e bem mais velho. Não tiveram filhos e com a morte dele terminou o matrimônio, que a deixou não apenas viúva, mas agora milionária. Ela então casou com o médico que atendera seu esposo, mas essa escolha foi considerada escandalosa e suspeita, com a igreja anulando o seu segundo casamento. Depois disso ela conheceu o filho mais moço de uma família tradicional portenha, com quem noivou sem que os pais dele tivessem conhecimento.

A mãe do jovem, uma mulher também milionária e muito orgulhosa, não aprovou de modo algum que o rapaz se casasse com uma emergente, sem estirpe e de descendência estrangeira, sem origem aristocrática como a sua. Assim, Mercedes Castellanos de Anchorena determinou o rompimento do noivado que seu filho havia acertado sem a sua autorização. A família Anchorena morava em um verdadeiro palácio, o San Martin Plaza. Sua construção fora encomendada ao renomado arquiteto Alejandro Christophersen, sendo hoje em dia a sede do cerimonial da chancelaria da República Argentina. Muito católicos, anos antes adquiriram ainda uma área frontal, distante cerca de um quarteirão da residência, onde construíram uma igreja inicialmente privativa, a Basílica do Santíssimo Sacramento. As duas construções ficavam estrategicamente uma de frente para a outra. Mas houve uma falha grave no projeto: deixar que uma área relativamente grande e vazia continuasse entre ambas.

Mercedes era tão rica – consta que entre outras posses tinha 340 mil hectares nos arredores da capital – que adquiriu para dar de presente de casamento para sua filha Josefina um outro palácio, que havia sido construído em 1886 pelo arquiteto Ernesto Bunge. Essa estrutura mais tarde abrigou o Museu de Arte Espanhola Enrique Larreta. Corina, por sua vez, poderia ter menos dinheiro, mas com certeza não era pouco. Assim, vendeu três de suas fazendas de gado, comprou a área livre em questão e determinou a construção do prédio de 33 andares, apenas para bloquear a vista do templo por parte dos Anchorena. O que foi facilitado pelos seus mais de 120 metros de altura.

O Edifício Kavanagh é uma torre de apartamentos localizada no número 1065 da Rua Florida. Foi considerado a mais emblemática obra da arquitetura moderna de Buenos Aires, na sua época. Ele é uma síntese de dois estilos: art déco e racionalista. A imensa estrutura de concreto armado foi a primeira a ter ar condicionado central, projetado especialmente pela empresa Carrier. Corina reservou para si um andar inteiro, mas consta que jamais residiu no local. Há quem jure não ser por acaso que o prédio, visto de frente, lembra uma mão com o dedo médio em riste. E sempre restará dúvida se tudo isso é verdadeiro, ou mais uma de tantas lendas urbanas convenientes.

15.10.2020

Fachada do Edifício Kavanagh, em Buenos Aires

Bônus: clip com o tango Por Una Cabeza, um dos mais populares do compositor Carlos Gardel, esse em parceria com Alfredo Le Pera, tendo sido composto em 1935.

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