Quando eu era bem pequeno e ouvi pela primeira vez essa expressão, que para mim soava tão estranha, acreditei que fosse uma pessoa, esse tal de pitibiribas. Alguém que não tinha nada, porque necas já sabia que significava coisa alguma. Então, poderia ser um mendigo, um pobre coitado, rico apenas em “is” no seu nome. Mas não lembro de gente morando na rua, na minha pequena Bom Jesus. Pobreza claro que existia, em locais mais afastados do centro, em casas que não tinham o conforto da minha. Mas morador de rua, só vim a conhecer bem depois, em centros maiores e épocas mais difíceis.

Voltando ao tal pitibiribas, tempos depois me dei conta de que se tratava apenas de uma expressão. Mais ou menos na mesma época imagino ter sido apresentado ao bulhufas. Então, para permanecer fiel ao meu engano anterior, passei a imaginar que esse era um primo irmão daquele. Ou seja, necas de pitibiribas e bulhufas seriam dois coitados e parentes. Mas, feliz de quem cresce com a oportunidade de aumentar seu repertório, seu vocabulário. Não sei quantas palavras eu conhecia na infância, nem quantas sei agora. Desconheço se esqueci de algumas delas e ainda me esforço por aprender outras. É um bom exercício, deve fazer bem ao cérebro.

Neologismos também são momentos legais. Você inventa coisas e amigos imaginários, por que não poderia também criar palavras? Tem gente adulta que faz isso, se bem que alguns por criatividade necessária em função do trabalho, como na publicidade por exemplo. Outros por limitações sérias, como se observa em tantos discursos políticos, reais ou da ficção. Quem não lembra de Odorico Paraguaçu?. Mas esse já seria outro assunto e por enquanto melhor mesmo é voltar para o primeiro. Assim, sigo falando de algumas curiosidades etimológicas. Na mesma linha do pouco ou quase nada, estilo salário mínimo em nosso país, tem também o xongas. Esse é mais perigoso, por carregar uma sonoridade que pode remeter a algo diverso, uma quase conotação sexual. Se eu aplicar aqui a ideia anterior, de associação e parentesco, seria da família do picas. Mas, vai que incluam essas duas palavras no “kit gay” ou asseguram ser nomes de embalagens da “mamadeira de piroca”?

Na verdade, os dicionários caracterizam essas expressões populares apenas como “formações expressivas”. O que, convenhamos, também não explica nada. Até porque as verdadeiras são em geral ligadas ao que é cômico, o que não ocorre com muitas destas. Mas a apresentação serve para confessar que a palavra em questão, o verbete que se está lendo, não tem raízes que permitam pesquisa apurada. A questão é que as tais palavras, quando nascem, são filhas do improviso. O povo as cria, em arrombos poéticos, na total informalidade do oral, sem haver data e local que determinem o exato nascimento. E elas ficam lá, iluminando nosso linguajar e também o imaginário de crianças como eu fui, que tinham que passar a maior parte do tempo brincando sozinhas.

Andei procurando palavras e expressões que pudessem fazer companhia para necas de pitibiribas, bulhufas, xongas e picas, com significados semelhantes. Encontrei bagatela, mixaria, titica, ninharia e nadica de nada – essa última é bem mais legal, porque tem nome e sobrenome –, todas na memória. E também outras pesquisando e aprendendo: acrescento então quetilquê, niquice, palha, babugem e nuga. Existiam outras mais, só que continuar ampliando o leque não adiantaria nada, se não houvesse oportunidade de uso. E nem sei onde cada uma delas tem ressonância, nesse Brasil tão grande e rico em regionalismos. Mas não deixa de ser uma variedade impressionante para referir-se à miséria, pouca coisa, o inexistente, insignificância, aquilo que faz falta. Se bem que a maioria dos brasileiros é especialista nisso.

05.10.2020

Bônus: música Pedro Nadie (Pedro Ninguém), do compositor e cantor ítalo-argentino Piero, em parceria com José Tcherkaski. Foi vencedora do V Festival Internacional da Canção, acontecido no Maracanãzinho, Rio de Janeiro, em 1970.

2 Comentários

  1. Solon, querido amigo,

    terias mesmo de abrir dobras infindáveis do leque dessas expressões a que te referes.

    Para lembrar que na linhagem do “neca de pitibiribas”, irmã-gêmea de “ninharia”, inscrevem-se as duas mais famosas palavras mineiras: Nonada e Tutameia. Dois sinônimos de “ninharia” que ironicamente traduzem a grandeza e continuam de pé, graças ao conjunto da obra singular e universal de Guimarães Rosa, cujo romance exponencial “Grande Sertão: veredas” tem seu início com a palavra Nonada.

    De fato, embora Tutameia terceiras estórias, último livro publicado em vida pelo autor, já tenha passado até por reformas que lhe roubaram o acento gráfico, seu nome continua no Glossário como: ninharia, quiri-quiri, nonada, ossos de borboletas, mexinflório…

    Prazer enorme sempre em ler tuas crônicas.
    Grande abraço!

    📝🔖 P.S. Já a nossa revista Nonada, do curso de Letras, parece não ter tido a sorte de subverter até hoje o significado da palavra que a nomeou.
    Para nosso consolo, contudo, senão para nossa honra, a revista manteve-se, por exatos vinte anos – de 1997 a 2017 , capaz de homenagear o autor mineiro dos 30 (1997, ano de sua fundação) aos 50 anos (2017) de seu falecimento.
    📚🗞📚🗞📚🗞📚🗞📚🗞📚

    1. Regina, minha querida! Eterna professora e orientadora de tantos. Teu comentário é mais uma aula. Sigo feliz com a tua leitura constante e compartilho hoje contigo a tristeza pela “morte” na revista Nonada, que também acompanhei na época. Abraço!

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