O pai esperou 24 horas. Não quis morrer na data do aniversário da sua filha pródiga, transformando a data festiva em dia de lamentação. Foi no dia 29 de setembro de 1964 que o hebdomadário – nome estranho dado a jornais que circulam uma vez por semana – Primera Plana publicou a primeira tirinha da Mafalda, na Argentina. E ontem, 30 de setembro de 2020, perdemos Quino e a sua genialidade.

Quino nasceu Joaquín Salvador Lavado Tejón, em 17 de julho de 1932, na cidade argentina de Mendoza. Era filho de um casal de imigrantes vindos da Andaluzia e o apelido ganhou ainda na infância, para ser diferenciado de um tio que tinha o mesmo nome. Foi esse familiar que terminou por despertar nele o gosto pelo desenho, manifestado já aos três anos de idade. Quando tinha 13 anos perdeu seu pai e aos 16 se tornou também órfão de mãe. Após o serviço militar se estabeleceu em Buenos Aires, em condições precárias e tentou viver da sua arte, com pouco sucesso. Em 1954 finalmente conseguiu espaço para publicação regular no Tia Vicenta e no Rico Tipo, mesma época em que começou a trabalhar com publicidade. Foi por encomenda de um dos clientes que criou a personagem Mafalda, mas a campanha nunca foi lançada. A ideia terminou guardada por uma década, até que por sugestão do editor, que era seu amigo, ela ganhou as páginas do semanário. E dele, galgou a merecida fama mundial.

Nas primeiras histórias Mafalda, uma menina de seis anos de idade, tinha a companhia apenas dos seus pais Pelicarpo e Raquel. Na típica família da classe média portenha, o pai trabalhava numa companhia de seguros e vivia naquele momento a crise da chegada à meia-idade. A mãe era dona de casa, que não completou seus estudos e enfrentava conflitos existenciais sérios ao se deparar com a precocidade e as tiradas da filha. A pequena, por sua vez, era fã incondicional dos Beatles e do desenho animado do Pica-Pau, odiava sopa e era profundamente humanista. Logo após aparece o amigo Filipe, que odiava a escola. Ambos eram colegas de Manolito, filho de um comerciante local que seguia os caminhos do pai e se preocupava apenas com dinheiro e lucros. Seguiram-se os aparecimentos de Guillermo, irmão caçula de Mafalda; sua amiga minúscula chamada Libertad; e a tartaruguinha de estimação da menina, que recebeu o muito apropriado nome de Burocracia, devido à natural lentidão.

As histórias foram publicadas até 25 de junho de 1973. Depois disso, ele apenas produziu alguns desenhos e tirinhas pontuais, em geral para promover campanhas ligadas aos Direitos Humanos, que Quino sempre defendeu. Bom exemplo disso é um poster feito para a UNICEF no ano de 1976, ilustrando a Declaração Universal dos Direitos da Criança. Mas a produção toda continuou sendo reeditada, inclusive em português. Isso porque os argumentos eram de tal forma bem feitos que jamais ficavam velhos.

É importante salientar que Quino não se resumia à Mafalda. Há trabalhos excelentes antes e depois dela. Um dos exemplos é o livro Quinoterapia, de 1985, repleto de cartuns maravilhosos com os quais critica o sistema de saúde e a postura de determinados profissionais da área – tenho um exemplar autografado por ele, que não tem preço. Ele é “invendável e imprestável”, como disse certa vez um ex-presidente do Corinthians, Vicente Matheus, a respeito do interesse de outra equipe no craque corintiano Sócrates. Não empresto mesmo, de jeito nenhum. Quanto ao ilustrador argentino, ele era também um craque de valor inestimável. Não apenas pelo talento, mas pela qualidade como ser humano. Sempre preocupado com os problemas sociais, com a luta pela sobrevivência dos menos favorecidos, pela igualdade, respeito e liberdade.

Durante a ditadura militar argentina, generais exigiram que Mafalda fosse usada para defender as ideias golpistas. Mas Quino se recusou, terminantemente. Em função disso, sua casa foi invadida por um grupo armado, sendo tudo depredado. Por segurança, ele e a esposa Alicia, fiel companheira desde os anos 1960 até sua morte em 2017, tiveram que buscar asilo em Milão e depois em Madri. Voltaram para a Argentina apenas em 2009. Foi informado que o cartunista sofreu acidente vascular cerebral, tendo nos deixado aos 88 anos. Não só a Mafalda ficou órfã.

01.10.2020

Bônus: dez das melhores frase da Mafalda. Mas não acreditem piamente nessa seleção, porque existem muitas mais, tão boas quanto essas.

7 Comentários

  1. Eu tive um Quinoterapia. Simplesmente genial. Tinha um cartoon que era uma fábrica enorme de armamento bélico pesado ( e tbm leves) . E num cantinho, na sala do chefão um quadrinho pequeno na parede dizia”TRABALHO É SAÚDE”. GENIAL, SÚTIL E AO MESMO TEMPO ÁCIDO!

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