Eduardo Bueno, o popular Peninha, jornalista, escritor e tradutor gaúcho, não poderia ter sido mais feliz com a observação feita em vídeo no seu canal Buenas Ideias, no YouTube: “Ao adotar um filho, que depois virou genro, que depois virou marido, que depois virou vítima, a tal Flordelis deixou Nelson Rodrigues no chinelo”. Sem dúvida, até mesmo para ele seria difícil imaginar realidade tão complexa e perversa. Se a história dela fosse literatura, continuou Peninha, seria de fazer Édipo Rei ter medo de perder a realeza. “Ela é puro Flordelírio”, simplifica ele no mesmo vídeo, com trocadilho “mui bueno”. Mas, aqui entre nós, delirante é o fanatismo religioso que cega as pessoas a ponto de verem em figuras como essa uma referência digna de ser seguida.

Nelson Rodrigues nasceu em Recife, mas passou toda a sua vida no Rio de Janeiro. Jornalista e dramaturgo, se notabilizou por histórias nas quais a marca principal era um lirismo trágico, criando inúmeros personagens memoráveis. Produziu um total de 17 peças de teatro, alguns romances e incontáveis contos e crônicas. Essas últimas, publicadas ao longo de vários anos nas páginas dos jornais, davam vida a uma coluna muito lida chamada A Vida Como Ela É. Depois reunidas em livros, renderam mais de 1.200 páginas e algumas delas viraram um seriado televisivo que levou o mesmo nome, na Rede Globo. Era adaptação da literatura como entretenimento, em outra linguagem. A descoberta do submundo real onde vivia e reinava Flordelis nos mostra a vida como se tornou. Porque estamos deixando se tornar. E essa, a dela, é uma realidade tão absurda que seria folhetinesca, transcrita para o papel. Os textos de Nelson eram publicados desde os anos 1950. Se tratavam de histórias repletas de dilemas morais, obsessões, crimes, desejos insanos e morte. Como tudo o que foi vivido por ela.

A Flordelis pentecostal é o João de Deus espírita ou o padre Robson católico. São a distorção da verdadeira religiosidade. São a manipulação, o uso pessoal da boa-fé dos incautos. São fonte de renda, via dízimo, via doações. E espaço para exercício de poder e dominação. Inclusive a sexual, pelo menos em se tratando dos dois primeiros. Todos cercados de auxiliares, assessores, apoiadores, os peixinhos que se alimentam das sobras, limpando os dentes dos tubarões. Todos de braços dados com algum nível da política aquela da troca de favores, da obtenção ou do direcionamento de votos. A formação da linha de defesa, invisível e eficiente: a justiça que faz jus à imagem de ser cega; a investigação policial que se alonga sem resultados; o silenciamento de vozes que poderiam denunciar. E em comum, finalmente, a certeza da impunidade. Afinal, sendo todos ungidos por Deus, a quem deveriam temer?

Flordelis é a materialização da mentira. É a fake news de carne e osso. Ela é inteira um engodo. A evangélica que acolhe dezenas de filhos como adotivos, mas mantêm hierarquia entre eles, alguns não tendo sequer acesso à alimentação adequada. A mãe amorosa que faz sexo em “rituais de purificação” com esses mesmos filhos e oferece favores íntimos de filhas para pastores que visitam sua igreja. A iluminada cantora gospel, de alma sem luz alguma. A pregadora que tem a Bíblia como guia de vida e planeja a morte do marido – o mesmo que já fora seu filho e seu genro, antes. A deputada tão engajada com a política das arminhas que forja assalto para que esse seu companheiro fosse afinal eliminado, com o uso de uma delas.

Sinceramente, para que ver novela depois do noticiário da TV, se nele já se tem o dramalhão em doses suficientes? Não só por essa história, mas também por ela. Primeiro com a narrativa policial dessa situação toda, já devidamente provada. Depois, com a discussão sobre poder ser ela julgada ou não pelo crime cometido, devido à imunidade parlamentar. Se padrão estético não fosse algo ultrapassado e subjetivo agora, em 2020, talvez Flordelis encarnasse outro texto de Nelson Rodrigues: “Bonitinha, Mas Ordinária”.

14.09.2020

Esclarecimento para quem ler o texto fora do Rio Grande do Sul: por aqui a expressão “flor de sem vergonha” ou ainda “flor de bagaceira” é usada para identificar alguém de pouca valia. Seria o contrário da positiva “flor de especial”, que no gauchês e no castelhano platino significa que a pessoa ou coisa em questão é o que de melhor poderia haver.

Voto inconsequente dá nisso

Bônus: música Você Não Vale Nada, um forró de Dorgival Dantas, aqui em versão surpreendente, com Tiê.

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