Página 8 de 8

ALGUNS DITADOS E EXPRESSÕES POPULARES

Eu sempre gostei de ditados e de expressões populares. Essas que dizem uma coisa, mas trazem embutido um significado bem diferente do literal. Muitas vezes ficava pensando, quando mais jovem, como teriam surgido e o que realmente estavam querendo dizer, uma vez que nem sempre isso eu sabia. Por outro lado, desde cedo encontrei algumas contradições, como o “quem tem boca vai a Roma” de um lado, com o “todos os caminhos levam a Roma” de outro. Se qualquer estrada conduz ao mesmo lugar, por que seria necessário perguntar? Isso perdurou até eu descobrir origens e adulterações que o tempo pode causar nesses ditos.

Esse exemplo mesmo, se referindo à atual capital italiana, surgiu durante o Império Romano, em suas colônias. Cansados da dominação, esses povos propunham “vaiar Roma”. Uma espécie de “Fora Bolsonaro”, para o imperador da ocasião. Só que para nós o “vaia” chegou como “vai a”, mudando todo o sentido original. Também me intrigavam personagens. Quem seria a Mãe Joana, da casa? E o tal Abrantes, do quartel? E o famoso João Sem Braço, era mesmo um deficiente físico? O Amigo da Onça tinha um felino desses como bicho de estimação?

No Século XIV, Nápoles tinha uma rainha chamada Joana I, que participara de conspiração que terminou com o assassinato do seu marido, Otto. O irmão do morto, Luís I, rei da Hungria, ficou furioso e invadiu Nápoles tornando a rainha uma fugitiva. Em Avignon, na França, onde ela se refugiou, conseguiu ter certa influência e um dos trabalhos que fez foi organizar os bordéis que existiam em local que passou a ser conhecido como Paço da Mãe Joana. Aqui no Brasil, a palavra paço foi substituída por casa, algo mais compreensível e popular. Assim, quando se diz que algum lugar parece “a casa da mãe Joana”, estamos nos referindo a estabelecimento onde qualquer um entra e manda, desde que tenha recursos e poder para tanto. Uma verdadeira zona.

No início do Século XIX Portugal foi invadido pelo exército de Napoleão Bonaparte, o que fez com que a família real viesse para o Brasil. O general Jean Andoche Junot, comandando parte das tropas, ocupou a cidade de Abrantes – um lugar e não uma pessoa, portanto – sem qualquer resistência e se instalou no quartel existente na cidade. Por isso se passou a dizer “está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”, uma vez que a impressão da população portuguesa é que nada havia mudado. Para ela não fazia diferença se os que estavam armados impondo ordem eram soldados do seu próprio país, ou se eram os franceses.

O João poderia ser chamado de José, Pedro ou por qualquer outro nome. Apenas o acaso o associou ao “sem braço”. Mas a origem de tudo foi mesmo a existência de mutilados em guerras na Europa. Em Portugal, por exemplo, estes eram por razões óbvias afastados de outros combates e, na vida civil, dispensados de trabalhar. Só que homens sadios passaram a esconder um ou ambos os braços nas roupas, para sensibilizar as pessoas como pedintes nas ruas. Deste modo, a expressão “dar uma de joão-sem-braço” passou a designar preguiçosos ou dissimulados que fogem das suas responsabilidades. Modernamente, uma metáfora que identifica quem ludibria alguma determinação ou lei de trânsito, por exemplo.

Ter um “amigo da onça” não é nada bom. Ele é um sujeito que finge gostar de você, mas que só quer levar vantagem desta suposta relação de amizade. E essa é uma expressão originada aqui mesmo no Brasil, devido ao enorme sucesso de um personagem que tinha esse nome e essa conduta. Ele ocupava as páginas finais e coloridas das edições da revista O Cruzeiro, entre 1943 e 1961. O ilustrador que a criou foi o chargista Péricles Andrade Maranhão. O cidadão retratado não tinha bicho algum, não. Mas a sua conduta era insidiosa como o ataque desse animal, quando caçando.

Dito isso, não vou mais “entregar de bandeja” nenhuma explicação extra, no dia de hoje. Até porque os meus não são leitores “de meia tigela”. Portanto, já devem estar mais do que satisfeitos, uma vez que “para bom entendedor, meia palavra basta”. Então, voltaremos a esse assunto em outra oportunidade, pois “quando a esmola é demais o santo desconfia”. Fiquem todos bem e em casa, se puderem. Quanto a mim, irei agora jantar, pois “saco vazio não para em pé”.

03.08.2020

O Amigo da Onça foi personagem criado pelo chargista e ilustrador Péricles.

LEILA DINIZ E A BARRIGA TRANSGRESSORA

Houve um tempo em que mesmo o supostamente liberal Rio de Janeiro se escandalizava com a simples possibilidade de uma mulher grávida frequentar suas praias. De biquini, então, seria uma verdadeira afronta aos bons costumes, à família tradicional brasileira. E acontecia desta forma no final dos anos 1960. Foi quando uma mulher corajosa rompeu com isso, tomou banho de sol e mar, se deixou fotografar e com a atitude marcou seu nome na história da cidade e do país. Não que precisasse dessa ousadia a mais: tudo o que fizera até então já a colocava como alguém muito à frente do seu tempo. Alguém que não cogitava que normas e regras não explicadas, justas e necessárias fossem empecilho a viver sua vida com liberdade e plenitude. Vida que foi tão breve quanto intensa: faleceu aos 27 anos, em acidente aéreo. Falo de Leila Roque Diniz, a verdadeira musa de Ipanema.

Formada no curso de magistério, começou a vida profissional sendo professora em jardim da infância na Zona Sul. Aos 17 anos conheceu aquele que viria a ser seu marido, o cineasta Domingos de Oliveira. O relacionamento, que durou apenas três anos, foi importante para lhe oportunizar o começo de uma carreira como atriz. Primeiro foi o teatro e depois a TV Globo. Seu segundo casamento também foi com um diretor, o moçambicano Ruy Guerra, pai da sua única filha, Janaína. Talentosa, ela participou de incontáveis peças de teatro,14 filmes e 12 telenovelas. Mas seu destaque maior vinha da coragem de sempre dizer o que de fato pensava, sem fazer gênero ou procurar agradar quem quer que fosse. Falava abertamente sobre política, sobre sexo, assuntos que a sociedade conservadora considerava impróprios para mulheres. Assim, foi se especializando em quebrar tabus.

A mais famosa dessas atitudes contestatórias acabou sendo justo a de ir à praia de biquini, com gravidez avançada. Outro dos momentos relevantes na sua trajetória foi a entrevista exclusiva concedida a O Pasquim, em 1969. Cada palavrão dito acabou sendo substituído por um asterisco, transformando o texto publicado numa verdadeira constelação. Esta edição acabou sendo a de maior vendagem da história do jornal, mas resultou no aceleramento da instauração da censura prévia para toda a imprensa, o que já estava nos planos dos generais. A determinação ficou conhecida jocosamente como Decreto Leila Diniz.

Perseguida pela polícia política, ela teve que se esconder. Para isso, contou com a ajuda do então apresentador Flávio Cavalcanti, que emprestou a ela seu sítio. Quando as coisas se acalmaram, voltou à ativa justo como jurada em programa dele. Mas voltou a ser acusada, agora de supostamente ter ajudado militantes da esquerda. Com isso a TV Globo não renovou seu contrato e ela começou a trabalhar em teatro de revista. Muito criativa, improvisava a partir de textos de Oduvaldo Viana Filho, Millôr Fernandes e José Wilker, entre outros. E no carnaval de 1971 foi eleita Rainha da Banda de Ipanema, voltando a ilustrar páginas de jornais e revistas.

Ela estava a bordo do voo 471 da Japan Airlines, em 14 de junho de 1972, voltando de viagem a trabalho que fizera à Austrália, para participar de um festival de cinema. O avião caiu próximo do aeroporto de Nova Délhi, na Índia. Morreram dez dos 11 tripulantes e 72 dos 76 passageiros que o Douglas DC-8 transportava. Foi encontrado nos destroços um diário de Leila, que continha diversas anotações e incluía uma última frase inacabada, provavelmente escrita momentos antes do impacto: “Está acontecendo alguma coisa muito es…”. Sua filha acabou sendo criada pela atriz Marieta Severo, a Dona Nenê do seriado televisivo A Grande Família, e seu marido, o compositor e cantor Chico Buarque de Hollanda. Em janeiro deste ano ela publicou um texto se referindo à mãe biológica e ao fato de estar ela própria na barriga “transgressora” que chocara tanta gente. Nele fala com carinho da mulher que sempre será lembrada como símbolo da revolução feminina no Brasil.

01.08.2020

O bônus de hoje é Todas as Mulheres do Mundo, de Rita Lee, música-título do álbum lançado pela artista em 1993. A letra fala sobre a busca universal por felicidade e liberdade que faz com que, no fundo, toda mulher tenha em si (ou seja obrigada a ter) um pouco da coragem de Leila Diniz.

Também recomendo o livro Toda Mulher é Meio Leila Diniz, da escritora santista Mirian Goldenberg. Escrito em 1995, ele é uma versão de sua tese de doutorado em antropologia social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Museu Nacional.