Eu sempre gostei de ditados e de expressões populares. Essas que dizem uma coisa, mas trazem embutido um significado bem diferente do literal. Muitas vezes ficava pensando, quando mais jovem, como teriam surgido e o que realmente estavam querendo dizer, uma vez que nem sempre isso eu sabia. Por outro lado, desde cedo encontrei algumas contradições, como o “quem tem boca vai a Roma” de um lado, com o “todos os caminhos levam a Roma” de outro. Se qualquer estrada conduz ao mesmo lugar, por que seria necessário perguntar? Isso perdurou até eu descobrir origens e adulterações que o tempo pode causar nesses ditos.

Esse exemplo mesmo, se referindo à atual capital italiana, surgiu durante o Império Romano, em suas colônias. Cansados da dominação, esses povos propunham “vaiar Roma”. Uma espécie de “Fora Bolsonaro”, para o imperador da ocasião. Só que para nós o “vaia” chegou como “vai a”, mudando todo o sentido original. Também me intrigavam personagens. Quem seria a Mãe Joana, da casa? E o tal Abrantes, do quartel? E o famoso João Sem Braço, era mesmo um deficiente físico? O Amigo da Onça tinha um felino desses como bicho de estimação?

No Século XIV, Nápoles tinha uma rainha chamada Joana I, que participara de conspiração que terminou com o assassinato do seu marido, Otto. O irmão do morto, Luís I, rei da Hungria, ficou furioso e invadiu Nápoles tornando a rainha uma fugitiva. Em Avignon, na França, onde ela se refugiou, conseguiu ter certa influência e um dos trabalhos que fez foi organizar os bordéis que existiam em local que passou a ser conhecido como Paço da Mãe Joana. Aqui no Brasil, a palavra paço foi substituída por casa, algo mais compreensível e popular. Assim, quando se diz que algum lugar parece “a casa da mãe Joana”, estamos nos referindo a estabelecimento onde qualquer um entra e manda, desde que tenha recursos e poder para tanto. Uma verdadeira zona.

No início do Século XIX Portugal foi invadido pelo exército de Napoleão Bonaparte, o que fez com que a família real viesse para o Brasil. O general Jean Andoche Junot, comandando parte das tropas, ocupou a cidade de Abrantes – um lugar e não uma pessoa, portanto – sem qualquer resistência e se instalou no quartel existente na cidade. Por isso se passou a dizer “está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”, uma vez que a impressão da população portuguesa é que nada havia mudado. Para ela não fazia diferença se os que estavam armados impondo ordem eram soldados do seu próprio país, ou se eram os franceses.

O João poderia ser chamado de José, Pedro ou por qualquer outro nome. Apenas o acaso o associou ao “sem braço”. Mas a origem de tudo foi mesmo a existência de mutilados em guerras na Europa. Em Portugal, por exemplo, estes eram por razões óbvias afastados de outros combates e, na vida civil, dispensados de trabalhar. Só que homens sadios passaram a esconder um ou ambos os braços nas roupas, para sensibilizar as pessoas como pedintes nas ruas. Deste modo, a expressão “dar uma de joão-sem-braço” passou a designar preguiçosos ou dissimulados que fogem das suas responsabilidades. Modernamente, uma metáfora que identifica quem ludibria alguma determinação ou lei de trânsito, por exemplo.

Ter um “amigo da onça” não é nada bom. Ele é um sujeito que finge gostar de você, mas que só quer levar vantagem desta suposta relação de amizade. E essa é uma expressão originada aqui mesmo no Brasil, devido ao enorme sucesso de um personagem que tinha esse nome e essa conduta. Ele ocupava as páginas finais e coloridas das edições da revista O Cruzeiro, entre 1943 e 1961. O ilustrador que a criou foi o chargista Péricles Andrade Maranhão. O cidadão retratado não tinha bicho algum, não. Mas a sua conduta era insidiosa como o ataque desse animal, quando caçando.

Dito isso, não vou mais “entregar de bandeja” nenhuma explicação extra, no dia de hoje. Até porque os meus não são leitores “de meia tigela”. Portanto, já devem estar mais do que satisfeitos, uma vez que “para bom entendedor, meia palavra basta”. Então, voltaremos a esse assunto em outra oportunidade, pois “quando a esmola é demais o santo desconfia”. Fiquem todos bem e em casa, se puderem. Quanto a mim, irei agora jantar, pois “saco vazio não para em pé”.

03.08.2020

O Amigo da Onça foi personagem criado pelo chargista e ilustrador Péricles.

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