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A MÚSICA E A BASE MILITAR

No sul da ilha de Cuba, próximo de Santiago e na outra extremidade do país, considerada a localização de Havana, fica Guantánamo. Mais perto de Porto Príncipe, no Haiti, ou de Kingston, na Jamaica, do que da sua própria capital, esta localidade tem pelo menos duas razões para ser mundialmente conhecida. Uma é a música folclórica de um gênero muito popular nos campos daquele país caribenho: a guajira ou punto cubano. Ele vem da mistura de ritmos africanos com aqueles dos filhos de espanhóis, já nascidos na América, os criollos. Esta fusão se deu pela presença dos negros escravizados, trazidos para trabalhar nos engenhos de açúcar, muito próximos daqueles que optavam por viver no interior e trabalhar na terra, os campesinos. O outro motivo é a presença de uma base naval dos EUA, mantida no local desde 1898, durante a Guerra Hispano-Americana. Oficialmente aceita por acordo assinado em 1903, ela se tornou mais famosa a partir de 2002, quando prisioneiros feitos no Afeganistão, supostamente membros da Al-Qaeda e do Taleban, foram trazidos para suas dependências.

A permanência da base se dá por uma espécie de birra bilateral. O poderio militar norte-americano não precisa mais dela para se impor na região, mas a mantêm como uma afronta ao regime comunista que resiste e permanece na ilha. Ou seja, a manutenção é por razões políticas e não militares. Os cubanos, por seu turno, mesmo odiando a incômoda presença em seu território, não têm força para retirar a base de lá. Comprar briga, seria suicídio; negociar é uma espécie de desonra. Um acordo assinado em 1934 permitiu o arrendamento por tempo indefinido. E, para a área de 116 quilômetros quadrados voltar ao controle cubano, seria necessário haver concordância mútua. Segue então valendo o aluguel de irrisórios 4.085 dólares anuais, que são depositados regularmente, mas não sacados desde 1959, por decisão de Fidel Castro.

A música Guantanamera, que significa “mulher natural de Guantánamo”, tem mais de uma versão e divergências sobre sua origem. Boa parte dos estudiosos asseguram que Joseíto Fernández foi o primeiro a gravar os versos, escritos no ano de 1891 e de autoria de José Martí. Mas a melodia não seria de autoria de nenhum dos dois. Em algumas manifestações registradas nos anos 1940 temas escolhidos nos jornais eram dramatizados, alternando-se com trechos cantados. As gravações contemporâneas mais conhecidas começaram com o grupo Sandpipers, em 1963. Pete Seeger a difundiu nos EUA e, no Brasil, o Raíces de América e o Tarancón também registraram em discos a canção.

A prisão mantida em Guantánamo é tida como a mais cara do planeta. O local, que chegou a abrigar mais de 700 detentos, tinha apenas 40 no final de 2019, todos com cerca de 15 anos de permanência nas celas. Os gastos no ano passado somaram US$ 540 milhões, segundo estimativas do jornal The New York Times. Desde o início de seu uso para esse fim, a base teria custado mais de US$ 6 bilhões. Mesmo com esse investimento astronômico, Trump assinou ordem em 2018 para que ela seja mantida indefinidamente. Segundo a organização Human Rights First, a razão não é a alegada pelo Congresso, que oficialmente se opôs, em 2008, a “trazer terroristas para seu território”, quando Obama pretendeu fechá-la. Na verdade, fora dos EUA as suas leis não se aplicariam aos detidos, de tal forma que pode continuar sendo feito com eles o que bem entendem, sem o enfrentamento de contestações judiciais quanto ao desrespeito de direitos.

Em 2015 uma interpretação planetária da música Guantanamera, patrocinada pelo projeto musical e filantropo Playing for Change (link ao final deste texto), deu uma visibilidade especial à canção, quando 75 cubanos espalhados pelo mundo participaram da produção primorosamente editada. /Pelos pobres da terra / Quero meus versos deixar /Porque o arroio da serra /Me satisfaz mais do que o mar. É fácil afirmar que a canção lhes dá mais satisfação que a base naval. /Eu sou um homem sincero /De onde as palmeiras crescem /E antes de morrer eu quero /Lançar meus versos da alma. Os guajiro – nome dado aos campesinos – lançam suas vozes buscando a permanência, a eternidade. E seguem cantando a doce bravura de um povo que sabe como poucos o que é identidade e resistência.

27.05.2020

KARDEC EM QUADRINHOS

Uma parte da história de Alan Kardec e do próprio Espiritismo, do qual ele é o codificador, foi contada de uma maneira pouco usual por dois gaúchos. O roteirista e diretor de TV Carlos Ferreira e o ilustrador Rodrigo Rosa entregaram ao público uma edição primorosa deste relato, feita em quadrinhos. A publicação foi de uma editora do grupo paulista Leya, com a coordenação editorial da Barba Negra, lançada em outubro de 2011. Não sei se ainda existem exemplares disponíveis nas livrarias, mas quem não tem a sorte de possuir um perdeu a oportunidade de ter uma obra de arte.

Tudo é feito em preto e branco, mostrando ambientes quase sempre sombrios. Muitos dos quadrinhos sequer têm balões de diálogos, mas a reconstrução da época e das situações é perfeita. Nas 128 páginas de Kardec há o histórico dos primeiros contatos que ele manteve com o fenômeno das “mesas girantes”, sobre o qual lhe contara seu amigo Fortier, em 1854. Mas apenas um ano depois ele deu a devida atenção ao caso, quando conheceu também a psicografia, instrumento que lhe permitiu fazer perguntas e receber respostas dos espíritos, a partir das quais deu forma à doutrina, formatando cada um dos livros basilares.

É importante ressaltar que o trabalho feito por Carlos e Rodrigo não tem a pretensão de ser uma biografia completa e detalhada. Não teria como competir, por exemplo, com os três volumes escritos por Francisco Thiesen e Zêus Wantuil. Mas ele destaca justo o período embrionário, quando Rivail – nome real de Kardec – tem acesso ao conhecimento da realidade do mundo espiritual. O livro tem ainda um glossário e extras, esses formados por esboços dos desenhos e por trechos do roteiro de sua criação. O projeto gráfico é muito bom, com papel e impressão acompanhando toda essa qualidade.

Publicado em abril de 1857, o Livro dos Espíritos marca com sua chegada o nascimento da Doutrina Espírita. Foi o primeiro de cinco publicações distintas que formaram a base dos ensinamentos trazidos à luz pelo trabalho paciente de Kardec. Depois dele vieram O Livro dos Médiuns (1861), O Evangelho Segundo o Espiritismo (1864), O Céu e o Inferno (1865) e A Gênese (1868). Um sexto volume saiu após a sua morte e foi publicado pela Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, em 1890. Este está dividido em duas partes, contendo artigos que ele não tivera tempo ou oportunidade de publicar, além de transcrições de comunicações mediúnicas ocorridas em reuniões das quais ele tomou parte. E segue com a temática de ordem filosófica e moral, abordando também música, fotografia e telegrafia do pensamento, entre outros assuntos pertinentes.

Antes de adotar o pseudônimo que o consagrou, Hippolyte Léon Denizard Rivail, educador renomado e discípulo do mestre Pestalozzi, trabalhou muitos anos na instrução das classes mais populares. Lutou pelo direto da mulher à educação – o que não era algo assegurado na época – e por necessárias transformações na estrutura social vigente. Manteve, por exemplo, sociedade com o editor anarquista Maurice Lachâtre, para fundação de um pequeno banco que buscava disponibilizar linhas de crédito para pessoas de baixa renda. E trabalhou na ideia de um sistema que possibilitasse troca de serviços e mercadorias. Entendia que a educação era a única possibilidade real de desenvolvimento para as pessoas e se opunha a preconceitos de gênero e de classe social. Portanto, não foi por acaso a sua “escolha” para ser o canal da revelação de uma doutrina emancipatória. Ele próprio sempre transitou longe do conservadorismo e do autoritarismo. O que mostra que posturas e atitudes como estas deveriam ser buscadas por quem aspira ser real seguidor dos ensinamentos espíritas.

25.05.2020