Considerando o local onde ela nasceu, podemos afirmar como de fato muito improvável que viesse a alcançar o sucesso que alcançou. Foi na localidade de Herat, no oeste do Afeganistão, no segundo dia de 1988. Naquele ano, Gorbachev anunciou que as tropas soviéticas seriam retiradas do país, o que aconteceu gradualmente até 15 de fevereiro de 1989. Nos anos seguintes houve uma guerra civil sangrenta e, em 1996, os talibãs tomaram o poder. Essa é uma organização fundamentalista islâmica, que faz uma leitura toda própria daquilo que prega a religião. E que, entre outras tantas violências, mantêm as mulheres completamente afastadas da vida civil, sem direitos básicos como estudar e saírem às ruas sem companhia masculina.

Falo de Nadia Nadim, que teve que fugir do país com suas três irmãs e sua mãe – usaram passaportes falsos –, naquele período, após o seu pai ser assassinado. Ele era um general do Exército Nacional Afegão e foi executado pelo talibã, no ano 2000. Com pouca água e menos comida ainda, foram iludidas por um motorista de caminhão que cobrou para levá-las até Londres e as abandonou numa pequena cidade interiorana na Dinamarca. Mas foram acolhidas naquele país, depois de dois meses em um acampamento de refugiados. Lá ela pode então fazer algo que gostava e para o que demonstrou ter bom talento: jogar futebol. Jogou inicialmente em três times de menor expressão (B52 Aalborg, Team Viborg e IK Skovbakken), até ser contratada pelo Fortuna Hjørring, em 2012. Naquele ano fez sua estreia na Liga dos Campeões da Europa e marcou os dois gols da vitória por 2×1 contra o Glasgow, equipe que era a campeã da Escócia.

Foi então contratada pelo Sky Blue FC, de New Jersey, nos EUA. Nos seus seis primeiros jogos marcou sete gols e deu três assistências. Ficou até 2015, quando foi para o Portland Thorns FC. Era ponta-de-lança e com seus nove gols contribuiu para o título de 2016. Na temporada seguinte foram vice-campeãs da liga. Com isso, retornou para a Europa, tendo então defendido as cores do Manchester City e do PSG, gigantes da Inglaterra e da França. Ao longo da carreira também foi muitas vezes convocada pela Seleção Dinamarquesa. Com ela, foi vice-campeã na Eurocopa de 2017, tendo marcado um gol na derrota por 4×2 para a Holanda, na decisão. E hoje está outra vez nos EUA, jogando pelo Racing Louisville FC, no Kentucky.

Mas a história de Nadia vai muito além de uma bem sucedida carreira esportiva. Ela conseguiu se formar em Medicina, pela Universidade de Aarhus, na Dinamarca, e se tornou uma ferrenha ativista em defesa dos direitos das mulheres. Sua preocupação atual está centrada em alertar contra o retrocesso que acontece em seu país natal, com a volta do talibã ao poder, depois de uma nova retirada de forças estrangeiras que controlaram o Afeganistão por vários anos. Desta feita, foram os EUA que saíram de lá, com a população civil local ficando outra vez à mercê da violência de uma ditadura desumana.

Quando recebeu seu diploma, Nadia viralizou com uma declaração singela que fez, na hora dos agradecimentos de praxe. “Mamãe, eu consegui”, disse ela. Agora, no final do ano passado, trabalhava como comentarista para o canal britânico ITV na Copa do Mundo do Catar, no jogo entre Dinamarca e Tunísia, quando abandonou a transmissão ao receber a notícia do falecimento de sua mãe, a senhora Hamida Nadim. Nadia, além do talento com uma bola de futebol e da sensibilidade como trata a medicina – profissão à qual irá se dedicar assim que largue o esporte -, é pessoa extremamente culta. Ela fala nada menos do que 11 diferentes idiomas: árabe, dinamarquês, inglês, francês, espanhol, alemão, persa, dari (uma variante da língua persa, falado no Afeganistão), urdu, hindi e latim.

Em 2019 Nadia foi nomeada pela Unesco como embaixadora pela Defesa da Educação de Meninas e Mulheres. Em recente entrevista revelou sua admiração pela ONG Médicos Sem Fronteiras, onde gostaria de poder trabalhar um dia. E também espera contribuir com a FIFA e a Uefa em programas de valorização do futebol feminino. Um esporte do qual se aproximou, segundo contou na mesma entrevista, também como forma de sentir-se mais perto do pai, que adorava assistir e jogar. Ela encerrou dizendo que, apesar dos seus pouco mais de 30 anos, sentia ter vivido sete ou oito vidas, com isso moldando seu caráter. Mas que não desejava que ninguém passasse pelas mesmas coisas, as privações e o medo. “Nem mesmo meus inimigos”, concluiu.

07.01.2023

Nadia Nadim, com a camiseta do PSG e como médica

O bônus musical de hoje é outra vez duplo. Primeiro temos o clipe de Unstoppable (Imparável), música do filme Mulher Maravilha, com a cantora australiana Sia Kate Isobelle Furler – ou apenas Sia, no seu nome artístico. Ela também é compositora, roteirista, dubladora e diretora. Depois temos o áudio de Mulher, de Erasmo Carlos.

Erasmo Carlos – Mulher

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