MAMÃE FALEI BESTEIRA

O nome verdadeiro do idiota conhecido como “Mamãe Falei” é Arthur Moledo do Val, um paulistano de 35 anos que se diz empresário e que é youtuber. Ele ficou mais conhecido ao integrar o Movimento Brasil Livre (MBL), que foi relevante nas orquestradas manifestações de rua que contribuíram para o impeachment da presidente Dilma, em 2016. Dois anos depois, em 2018, foi eleito deputado estadual em São Paulo, pelo Democratas (DEM), apoiando e sendo apoiado por Jair Bolsonaro, com 478.280 votos. Perdeu apenas para Janaína Paschoal.

Em seu canal no Youtube Arthur se autodeclara pertencente à direita conservadora, defendendo ideias liberais para impressionantes mais de 2,7 milhões de inscritos. É crítico das cotas raciais, contra a reforma agrária, favorável à pena de morte, ao armamento da população e às privatizações indiscriminadas, por exemplo. Nos últimos tempos, se dedicou a realizar campanha difamatória contra o Padre Lancelotti, que realiza trabalho social com moradores de rua. Em 2020 foi candidato a prefeito da cidade de São Paulo, pelo Patriota, terminando o primeiro turno em quinto lugar, com 522.210 votos. Depois disso se transferiu para o Podemos, partido do ex-juiz Sérgio Moro, pretendendo ser o nome do partido para disputar o governo de São Paulo, em outubro deste ano.

Essa semana, retornando de uma suspeita “ajuda humanitária” que fizera ao território ucraniano – o termo ele fez questão de usar –, foi surpreendido ao descobrir que haviam se tornado públicos áudios seus, em rede social, nos quais dizia verdadeiros absurdos contra mulheres daquele país. E admitiu a autoria. Isso já está rendendo a abertura de um procedimento interno disciplinar no partido. Mas não deve parar aí: pedidos para análise do seu comportamento pela comissão de ética e posterior cassação, estão sendo encaminhados. Isso porque as coisas mais leves que ele disse foram que as ucranianas eram mulheres fáceis por serem pobres, recomendando a seus amigos que fizessem “turismo sexual” naquele país, o que ele próprio garantiu que iria fazer, tão logo pudesse retornar. Outras declarações, prefiro nem reproduzir aqui, pelo baixo nível, pela postura rasa, machista e misógina. Quem tiver estômago, que procure na internet. Estão todas lá.

Mas outro fato precisa ser investigado: a verdadeira razão de sua visita ao país. Grupos neonazistas brasileiros, que estão se multiplicando em especial nas regiões sul e sudeste, estão envolvidos com milícias ultranacionalistas ucranianas, desde 2016. Matérias publicadas no início de dezembro daquele ano, por diversos órgãos de imprensa, dão conta de investigação da polícia gaúcha contra um grupo que estaria recrutando simpatizantes da causa para que fossem lutar na Ucrânia. Isso acontecia na região das províncias de Donetsk e Luhansk, que concentra historicamente população ligada à Rússia, por adoção do mesmo idioma, costumes e posições políticas. Em função dessa diferença ideológica, esses grupos cometiam uma série de crimes, como sequestros, estupros e morte de mulheres e crianças. Na ONU se acumularam centenas de denúncias, até que os russos perderam a paciência, reagiram e auxiliaram com armas e apoio logístico. Então toda essa área, que é conhecida como Donbass, foi dominada pelos separatistas. Mesmo assim as milícias continuaram agindo na clandestinidade, claro que com muito menor audácia e muito maior risco.

Em manifestações bolsonaristas a quarta bandeira que mais aparecia era uma usada pela ultra direita ucraniana. Perdia para a brasileira, óbvio; depois para a dos EUA, aquela para a qual o presidente eleito bateu continência, no caso mais vergonhoso de submissão da nossa história; e para a de Israel. Depois vinha essa, em função das ligações e apoio mútuo entre neonazistas dos dois países. Ao invés das cores tradicionais azul e amarela, ela é rubro-negra com um tridente no seu centro. Era usada pelos cossacos nas lutas que travaram no Século XVI, segundo informou a embaixada ucraniana em Brasília. Agora ela foi adotada pelo Pravyi Sektor (Setor Direito), organização paramilitar que virou partido político de extrema-direita na Ucrânia, a partir de 2013. O grupo tem raízes antigas e apoiou Hitler quando ele invadiu seu próprio país.

Ao que se saiba, Arthur Mamãe Falei não levou recurso algum para auxiliar a nação em guerra. Também não buscou nenhum brasileiro que estivesse tentando retornar, nem prestou sequer solidariedade para com quaisquer refugiados. Teria ido com recursos próprios ou públicos? E fazer exatamente o quê? Isso precisa ser respondido, sendo obrigação das nossas autoridades o esclarecimento. Porque é hora de se dar um basta para tanta vergonha que estamos passando, também no exterior, nos últimos anos. O Brasil não merece isso, nós brasileiros não merecemos isso. E as mulheres ucranianas precisam receber um pedido formal de desculpas, com todos nós torcendo para que fique claro que essa pessoa desprezível não representa nosso país e nossa gente.

06.03.2022

A bandeira do Pravyi Sektor (Setor Direito), partido político da extrema-direita e organização paramilitar ucraniana,
era presença constante nas manifestações promovidas por bolsonaristas.
O homem que está com a bandeira do Pravyi Sektor nas costas em ato pró Bolsonaro é um
brasileiro que treina milicianos e paramilitares.

O bônus de hoje é a música ucraniana Kukushka (Cuco), em versão de Daria Volosevich. Ela foi produzida em função dos conflitos ocorridos em Donbass. A crise política vinha desde 2013, com centenas de assassinatos de pessoas que discordavam das decisões do governo central de Kiev, a imensa maioria morta por milicianos de extrema-direita, boa parte deles estrangeiros. Em 2014 o conflito se generalizou, transformado em guerra civil. Cerca de 10.500 pessoas foram mortas na região, que terminou recebendo apoio da Rússia para se tornar independente.

A MISSA INTERMINÁVEL

Entre outubro de 2018 e janeiro de 2019 na cidade de Haia, na Holanda, uma missa foi ministrada sem interrupção, 24 horas por dia, todos os dias desse período. Sacerdotes se revezam, voluntariamente, para manter a maratona. E não estavam fazendo isso com a intenção de ingressarem no Livro dos Recordes, o mundialmente conhecido Guiness Book. A motivação era muito mais nobre e foi surpreendente que tenham conseguido manter toda essa disposição, por tão longo tempo.

A vigília se deu porque uma família de armênios estava refugiada dentro da igreja, com a polícia aguardando por sua saída, do lado de fora. Eles seriam deportados, logo após detidos. Entretanto, uma lei holandesa proíbe que se interrompa serviços religiosos e também não permite que, enquanto eles aconteçam, ocorram buscas no interior dos templos. Além dos ministrantes, milhares de fiéis contribuíram com sua presença, em escalas. Depois de três meses de resistência, houve um acordo mediado por vários partidos políticos com o governo central. E o casal e seus três filhos tiveram permissão para permanecer no país. Mais do que isso, foi anunciada a revisão de centenas de pedidos de asilos antes negados e que, naquela ocasião, beneficiaram muitas outras crianças e adultos.

Depois da última missa – ou seria a mesma, ainda a primeira? – ocorreu uma grande festa. Era a vitória da empatia e da humanidade. O homem estava jurado de morte em seu país de origem, devido a atividades políticas, tendo por isso fugido com a família para a Holanda. Outra situação que se criara foi a de filhos de refugiados, nascidos em território holandês enquanto seus pais seguiam esperando a resposta para pedidos de asilo. Cerca de 700 estavam nesta situação estranha: não eram cidadãos e cidadãs de lugar algum, de nenhum país, pois ainda sem o reconhecimento para permanecer, também não conheciam a terra natal de seus pais. Muitas dessas crianças, sequer falando o idioma local, simplesmente era como se não existissem. Grupos de direitos humanos e a sociedade civil organizada conseguiram, logo após o “incidente” na igreja e a repercussão que ele causou, resolver a situação de 90% delas.

O Estatuto dos Refugiados foi formalmente adotado pela Organização das Nações Unidas, em 28 de julho de 1951. Surgiu da necessidade de ser resolvida a situação do grande número de pessoas refugiadas na Europa após o término da Segunda Guerra Mundial. É um documento que define quem vem a ser um deles e esclarece quais são seus direitos e deveres, assim como aqueles relativos aos países que os acolhem. Seu fundamento legal permitiu que, desde então, milhões de pessoas deslocadas tivessem uma forma de recomeçar suas vidas. Essas pessoas fogem em razão de temores causados por perseguição devida à raça, religião, nacionalidade, opinião política ou associação a algum grupo social não aceito em seu país. Cruzam fronteiras, portanto, devido a algum tipo de preconceito ou ódio.

O Brasil vinha, até recentemente, desempenhando um papel histórico de relativa liderança nessa área. Foi o primeiro do Cone Sul a ratificar essa convenção, de 1951, tendo sido também o país pioneiro da região a sancionar uma lei nacional a respeito do assunto. Fez isso em 1997, com a inclusão do que havia sido estabelecido na Declaração de Cartagena sobre Refugiados, ocorrida em 1984. Também naquele momento foi criado o CONARE – Comitê Nacional para Refugiados. E existem aqui ONGs e instituições que prestam apoio fundamental no acolhimento dessas pessoas. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, por exemplo, com outras 11 universidades, integra a Cátedra Sérgio Vieira de Mello, que presta, gratuitamente, assessoria jurídica, psicológica e social a imigrantes, refugiados e solicitantes de refúgio.

No ano de 2018 nosso país acolheu 11.231 refugiados, dos quais 28% eram mulheres e 72% homens. A maior parte desse grupo era composta por sírios (36%), seguidos de congoleses (15%) e angolanos (9%). Mas existiam 161.057 solicitações em análise, a maior parte de senegaleses, havendo também um grande grupo de haitianos. Depois disso, cresceu muito a disposição do governo federal em priorizar venezuelanos (60,2% do total, em 2020). E, também nos últimos três anos, filtros supostamente ideológicos parecem ter adquirido um peso maior do que o humanitário. O que é lamentável, porque todos nós nos tornaremos melhores apenas quando aprendermos de fato que a dor dos outros pode ser igual ou pior do que a nossa. E que todos, em algum momento da vida, precisamos de apoio, compreensão e acolhimento.

12.12.2021

No bônus musical de hoje temos Diáspora, com os Tribalistas (Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte).