O mundo tem sons em excesso. Nem falo daqueles da natureza, como os produzidos pelo vento, pela chuva ou por ondas do mar que se chocam com a praia. Esses nos fazem um bem enorme. Me refiro aos outros tantos que o homem criou com máquinas, veículos, comunicações e milhões de vozes somadas.

Acho que todos nós falamos demais. Eu sempre falei mais do que deveria. E acredito que isso está nos levando a pensar menos. O estilo de vida contemporâneo não apenas corre, mas também grita. E sem que nos permita gritar de volta, pedindo socorro contra seu modo de ser. Por causa disso, nunca precisamos tanto de silêncios quanto agora. Mas do silêncio obsequioso, com razão de ser, aquele que acolhe e acalma, que é presença na ausência de qualquer ruído.

Na música e na literatura, esses espaços para o não dito têm relevância enorme. Na música o silêncio é a pausa, que precisa ser respeitada, precisa ser sentida. No texto literário ele é presença plena de significados e insinuações, um poderoso fazer pensar. Ambos os silêncios, portanto, potencializam o sentir e o refletir, sendo assim expressivos. Necessários até.

Anos atrás, vivendo eu uma fase pessoal difícil, com mais e maiores incertezas do que todas aquelas outras habituais, fiquei sabendo que ocorreria um retiro espiritual budista, em localidade no interior do Paraná. Seria uma semana inteira, imersão que incluía alimentação especial, meditação, hora dedicada à música, palestras, a repetição de mantras em recolhimento. Resolvi ir. Ônibus de Lajeado a Porto Alegre; avião até Curitiba; outro ônibus até a cidade, entre o mar e a serra. Chegada tarde da noite e sem saber o que fazer, para onde ir, até mandaram me buscar. O local era simples e muito acolhedor. Toda a equipe e meus parceiros na busca indefinida, excelentes. E o que estava prometido foi cumprido à risca.

Mas em uma das manhãs nos pediram que se ficasse sem trocar uma única palavra. Saímos em grupo para uma caminhada longa, trilha com aclives e declives relativamente acentuados, mas só se ouvia o som do ambiente a as nossas respirações. Foi terrível e foi maravilhoso. Esse silenciar compartilhado nos conduzia para nosso interior e ao mesmo tempo nos integrava com o externo, a paisagem exuberante, o suave calor trazido pelo sol.

Entretanto, silenciar é mais do que ficar calado. O silêncio pode ser simbólico, mas apenas quando intencional e na medida em que seja o prelúdio de uma revelação. O ser calado à força por outros ou pela vida, não é silêncio: é mutismo. É algo muito pior do que o estar calado voluntariamente, e impede quaisquer revelações. O silêncio auto imposto abre uma passagem, indica o caminho seguinte, enquanto o mutismo é a sua obstrução. O silenciar pode revelar grandeza, empatia e poupar uma ou mais pessoas do que não deveria ser dito, seja naquele momento ou nunca. Quem força o mutismo, entretanto, apenas degrada, deprecia e elimina.

Voltei novo do tal retiro – fui até batizado por um monge congolês que estava presente, recebendo um nome budista –, revigorado mesmo. Durante mais de seis meses não conseguia sequer me alimentar com carne, o que não me fazia falta nenhuma. Depois, lentamente, fui voltando ao meu estado normal de antes. Ou anormal, talvez. Mas muitos dos ensinamentos ficaram gravados em mim. Entre eles, a importância deste silêncio que até hoje faço pouco, mas que quando faço me ilumina.

12.07.2022

O bônus de hoje é o mantra que me foi ensinado no retiro feito no Paraná: Baba Nam Kevalam (Tudo é Amor Infinito, em tradução livre). Escrito em sânscrito, ele é utilizado por milhares de pessoas ao redor do mundo para a prática do kiirtan, ou meditação. Quem o introduziu foi Shrii Anandamurti, o fundador da Ananda Marga. A ideação mais profunda desse mantra é: “Para onde quer que eu olhe/ Tudo o que ouço, gosto, cheiro, percebo/ É uma expressão dessa Consciência Cósmica/ Que a tudo permeia/ O amor está em toda a parte”.

DICA DE LEITURA

A TRADIÇÃO DO BUDISMO: História, Filosofia, Literatura, Ensinamentos e Práticas

Peter Harvey – 552 páginas – R$ 49,93

Peter Harvey, professor emérito de Estudos Budistas na Universidade de Sunderland (Inglaterra), apresenta uma obra de referência mostrando o desenvolvimento da tradição religiosa e filosófica do budismo tanto na Ásia quanto no Ocidente, explorando as tensões e os vínculos entre as diferentes escolas e tradições, contemplando o estudo, a história, a filosofia e a literatura do budismo Theravāda, Mahāyāna, Tendai, Zen, Nichiren, Shingon, Vajrayāna, entre outros, além de incluir ilustrações de todas as tradições. Em suma, esta edição, acessível ao público leigo, é um texto ideal para ser adotado como livro didático por estudantes de religião, filosofia e estudos orientais, sendo também uma referência para leitores que querem ter uma visão mais panorâmica do budismo, suas ideias, práticas e inter-relações em busca de um estudo amplo que transmita a natureza do budismo como uma tradição viva.

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4 Comentários

  1. Que oportuna reflexão, Solon!
    Em Tutameia, de Guimarães Rosa m, lê-se: “O silêncio dá maior possibilidade para a música.” O poeta Manuel de Barros também tem poemas ricos sobre o silêncio.

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