Do nada – e não sei há quanto tempo – surgiu uma expressão para identificar determinado tipo de música que aborda temas relativos a relacionamentos, nem todos bem sucedidos. A sofrência faz sucesso talvez porque não deve existir ninguém que não tenha tido algum tipo de dissabor nessa área. Ou ainda porque, em geral, suas letras são de fácil assimilação e com apelo popular. Acrescento que também, não poucas vezes, com uma qualidade questionável. Afirmo isso com a ressalva que existe razoável número de exceções.

A sofrência é masoquista, com quem a sente parecendo gostar de estar sentindo. Já o sofrimento, esse não é assim. Quem o enfrenta o que mais gostaria era ter ainda a pessoa amada ao seu lado. Portanto, se trata de algo natural, podendo inclusive ser bem saudável. Porque é a primeira etapa do necessário luto, que precisa ser vivido. O fim de uma relação, seja ela qual for, resulta em algum tipo de perda. Mesmo quando não é amorosa, ou sendo, mesmo quando é consensual. Resulta em ausência, seja ela física ou não. Ocorre uma quebra de expectativas, de interrupção de sonhos, um distanciamento do desejo. Por isso é matéria prima para a poesia e para a canção.

Existem composições maravilhosas que tratam disso, da saudade, da mágoa, da ausência que dilacera, sem que precise escorregar para a simplificação que a sofrência em geral oferece. Tivemos mestres nesse assunto e ainda temos outros tantos compositores muito bons. Isso vem desde a Era do Rádio e chega até a época da música pop. Há críticos que afirmam, inclusive, que no fundo a grande maioria das canções de amor são canções de desamor. Talvez porque a tristeza seja um estímulo mais fácil para compor do que a alegria. Quem está alegre quer viver o momento; quem está triste precisa colocar tudo para fora, mesmo que numa folha de papel.

Lupicínio Rodrigues fazia isso muito bem, tanto que foi o criador do termo “dor de cotovelo”. Que o digam aqueles que conhecem suas músicas, das quais cito três: Vingança, Judiaria e Nunca. Nelson Gonçalves nos brindou com interpretação primorosa de Atiraste Uma Pedra, de Herivelto Martins. E até o “Rei do Brega”, Reginaldo Rossi, produziu uma letra razoavelmente bem feita, com Garçom. Essa ficando no limite, quase merecendo ser sofrência. Tim Maia compôs Ela Partiu e outra tão boa quanto: Gostava Tanto de Você. Temos também Benito di Paula e seu Retalhos de Cetim; Roberto Carlos, com Detalhes; e até Kid Abelha, com Como Eu Quero. São muitos os profissionais da música que concordam que separações, brigas, traições e ciúmes são ingredientes bons para quem busca sucesso.

E que ninguém pense que as mulheres ficaram fora disso. Maysa nos brindou com Meu Mundo Caiu, considerado um verdadeiro clássico da fossa nacional. Ivete Sangalo, fez isso com Se Eu Não Te Amasse Tanto Assim. Também pode ser citada Dolores Duran, com sua Fim de Caso; e talvez se deva incluir ainda Ângela Rô Rô, chamando um alguém para si, em Amor, Meu Grande Amor. Essa mostrando que não apenas de despedidas, mas ainda de esperanças se constroem essas emoções contraditórias. O que fez muito bem a Bossa Nova, que trouxe elegância e uma certa leveza ao sofrer de amor. Com ela essa música fica menos trágica e assume sutilezas, suavidade. Como em Retrato em Branco e Preto, de Tom Jobim e Chico Buarque, com interpretação impecável de João Gilberto.

Convêm dizer que essa lista toda está tendo como critério apenas algumas lembranças, trazidas do meu tempo de programador de rádio. E também de momentos nos quais sou apenas ouvinte. Servem apenas para assegurar que há alternativas de sobra para que se curta um sofrer sem sofrência. Nossos ouvidos (e cérebros) merecem.

28.06.2022

Dois bônus hoje, dentro da linha adotada no texto: Devolva-me, de Renato Barros e Lilian Knapp, na voz de Adriana Calcanhotto; e Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, de Caetano Veloso.

RECOMENDAÇÃO

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