Me dei conta, dias atrás, que aquela voz feminina e um tanto robótica do Waze já é parte integrante da minha vida. Como se fosse alguém da família mesmo. De certo modo ela lembra a da minha mãe, não pelo modo como “fala”, mas pelo cuidado que tem ao me indicar o que imagina serem caminhos melhores. Faz recomendações que, admito, nem sempre sigo. Como acontecia com as que eram feitas pela Dona Vicentina. Em ambos os casos, algumas vezes me dei bem pela desobediência, mas em várias me dei mal.

Eu já tinha mais de 40 anos, casado e com filhos. Quando me despedia para voltar para minha casa, após irmos visitá-la, ouvia sempre uma série de conselhos e perguntas bem parecidas com aquelas da minha infância e adolescência. As básicas sobre agasalhos e também alertas sobre os riscos do trânsito. E nisso reside também semelhança com a voz sem rosto do aplicativo. Depois, minha mãe ficava na janela olhando para nós até que o carro dobrasse a esquina e saísse do seu campo de visão. Na certa sobrava para ela aquele aperto no coração, o mesmo que sinto agora quando quem se afasta é a minha filha, apesar de ela já estar na idade de cuidar não só dela própria como também de mim.

Tenho certa dificuldade em reconhecer pessoas. Sempre tive. Olho, sei que conheço e não consigo lembrar de onde e quem ela é. Muitas vezes termino identificando mais pela voz do que pelo rosto. Talvez porque o rosto mude muito mais com o tempo. O meu mesmo, se não visse todos os dias no espelho, talvez estranhasse. Se foram os meus cabelos cacheados, surgiram rugas e outras marcas. As vozes raramente se alteram, exceto se a pessoa por algum motivo está ou tem algum problema na garganta, nas cordas vocais. E, desde que inventaram os processos de gravação dos sons, as vozes viraram também registros do tempo. Entrevistas, palestras e depoimentos puderam ser eternizados, fazendo companhia às fotografias e aos vídeos, esses muito mais recentes. Também seguimos ouvindo registros de cantores que há anos se foram. A música seria quase uma impossibilidade, se tivesse que ser sempre ao vivo.

A memória auditiva é algo bem forte para a maioria das pessoas. Aliás, como ninguém tem a mesma voz – apesar de imitadores fazerem com que se duvide dessa afirmação –, as pessoas podem ser reconhecidas apenas pelo som, quando falam. Minha mãe nos deixou em 2008, mas as palavras dela ainda ecoam no fundo da minha memória. Não apenas o conteúdo do que falava, como também as expressões e a própria sonoridade. Gostaria muito de poder ouvir outras vezes. Com certeza absoluta iria prestar mais atenção e desobedecer menos. A do Waze sei que não fala só comigo. Compartilho a gravação com alguns milhares, talvez milhões de usuários. Ela é muito útil, mas não tem o calor e o acalento da voz de uma mãe.

27.05.2022

O bônus de hoje é a música A Voz do Coração, com Jota Quest.

DICA DE LEITURA

O SOL É PARA TODOS, de Harper Lee

(349 páginas – R$ 45,40)

Esse é um dos maiores clássicos da literatura mundial. A emocionante história está ambientada no Sul dos Estados Unidos da década de 1930, região envenenada pela violência do preconceito racial, vemos um mundo de grande beleza e ferozes desigualdades através dos olhos de uma menina de inteligência viva e questionadora, enquanto seu pai, um advogado local, arrisca tudo para defender um homem negro injustamente acusado de cometer um terrível crime.

Uma história sobre raça e classe, inocência e justiça, hipocrisia e heroísmo, tradição e transformação, O Sol é Para Todos permanece tão importante hoje quanto foi em sua primeira edição, em 1960, durante os anos turbulentos da luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Considerado um dos romances norte-americanos mais importantes do século XX, ele surpreende pela atualidade de seu enredo e estilo.

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7 Comentários

  1. Acredito que tuas lembranças façam eco na maioria dos leitores. Há muitas vozes na nossa vida, algumas são um bálsamo e um encorajamento, outras é melhor esquecer.

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