ÓDIO À PRIMEIRA VISTA

A expressão amor à primeira vista, até algum tempo atrás – não sei se hoje com a mesma frequência –, era muito usada para identificar esse sentimento como possibilidade imediata, quando da apresentação de duas pessoas. Algo dizia a ambos, na profundidade das suas almas, que aquele outro ou outra não era mais um ou uma, sendo alguém especial. Uma atração, que poderia até mesmo ser simplesmente física, mas que em geral se acreditava ir muito além disso. O que poderia ou não ser confirmado mais tarde, evidentemente, não deixando de ser uma saborosa porta de entrada para muitos relacionamentos. O amor à primeira vista era, senão acreditado por todos, ao menos visto como probabilidade que não deveria ser negada ou desprezada. Então, os tempos mudaram.

Entramos numa época de conhecimentos virtuais, de amigos que nunca se viram pessoalmente, de namoros que começam a distâncias variadas e de formas inusitadas. A volatilidade do querer bem; os sentimentos se tornando líquidos; as aproximações via Tinder e inúmeros sites de relacionamento. Mesmo assim, não raras vezes as consequências se tornavam surpreendentemente tão ou mais sólidas do que as dos antigos modos de encontro. Mas, surgiu um subproduto desse recurso, que é o ódio à primeira vista. Ou à primeira postagem. Você nunca esteve com a pessoa antes, mal sabe alguma coisa sobre ela, mas não gosta das suas ideias ou da aparência. E isso basta.

Pronto! Agora se afastar não é mais o suficiente – afinal, nem estavam assim tão perto. Evitar os encontros virtuais, trocar de página e tentar esquecer a anterior também não. A partir de agora é preciso que se persiga, combata, desacredite. Onde já se viu pensar de modo diferente do seu? Com que direito esse alguém não torce para o mesmo time, não vota no mesmo candidato, não professa a sua fé, nem ouve as mesmas músicas que você? Nem sequer olhos azuis como os seus ele tem. As redes sociais nos dão a chance de atuarmos como juízes, sem um curso de Direito e a prestação de concurso público. Ruim é não renderem o salário que eles recebem e nem sequer o auxílio moradia. Mas nada é perfeito.

Pensando bem, nada é perfeito além daquilo que se demonstra ser, nas redes e não na vida real. E nem importa o número de desafetos que se acumula, por prazer ou absoluta falta de uma ocupação mais produtiva. A pessoa não canta nem toca um instrumento, mas entende de música. Nunca escreveu sequer uma carta, mas acha que fulano e beltrano não sabem se expressar direito. Não tem o hábito de leitura, mas se acha ótimo crítico literário. Na política então, nem se fala. O ex aquele sempre foi um ladrão. Todos são corruptos, exceto ela, seus familiares e seus amigos. Nenhum político presta, a não ser aquele que o líder religioso aponta como sendo incensado por Deus e jura pensar exatamente como você pensa ou fazem você pensar – “como eu sou bom e ele é igual, ótimo”.

Não é mais necessário consciência, temos é que buscar o consenso. Desde que ele gire em torno das nossas ideias, é evidente. Assim sendo, xô diversidade! Ela só pode ser coisa do demônio. Ou então daqueles que são vermelhos como ele. É assim que as redes sociais se tornam um perigo. Se antes, fora delas, revelar-se significava abertura para que se encontrasse até um amor, agora com sua existência isso oferece chance muito maior de que se angarie ódio. Mas, que ninguém se iluda: se com o amor ao menos duas pessoas saem ganhando, com o ódio milhares perdem. Mas alguém lucra com isso. Pense bem.

25.05.2022

Redes sociais: amor e o ódio ao alcance das mãos.

O bônus de hoje é Samba de Amor e Ódio, com Roberta Sá. A música integra o DVD Delírio no Circo.

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA

Modus Operandi: Guia de true crime, de Carol Moreira e Mabê Bonafé

 (400 páginas – R$ 69,90)

O true crime ― filmes, séries e livros que exploram a motivação e o desenrolar de crimes reais ― é um dos gêneros mais consumidos no Brasil e no mundo atualmente. Aqui, um sinônimo de true crime é o podcast Modus Operandi, de Carol Moreira e Mabê Bonafé, que nasceu em janeiro de 2020 e angariou uma audiência gigantesca.

Agora, as duas trazem para o papel toda a experiência que acumularam em mais de cem episódios em um livro definitivo para quem quer saber tudo desse universo que conquista cada vez mais fãs.

Em Modus Operandi: Guia de true crime, as autoras abordam as principais bases do gênero de maneira simples, objetiva e bem-humorada. Entre capítulos sobre sistema de justiça, polícia, investigação, casos arquivados, serial killers e outros, a dupla descreve dezenas de crimes que impactaram o Brasil e o mundo, conta a história de assassinos em série e traz diversas curiosidades e fontes para quem quer saber mais sobre o assunto.

Com um visual atraente e um projeto gráfico diversificado ao longo de 400 páginas, Modus Operandi está pronto para repetir nas livrarias o sucesso estrondoso do podcast.

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