O cérebro humano tem uma estrutura, uma espécie de arcabouço, de predisposição genética, que nos deixa naturalmente preparados para que se aprenda a falar. Com relativa facilidade ele associa os diferentes sons que ouve com objetos, sensações, ambientes e emoções, reproduzindo depois aquele mesmo som que antes percebeu, quando reconhece o mesmo estímulo anterior. As coisas acontecem como uma espécie de imitação. Mas esse não é o mesmo processo que ocorre com a leitura. Essa não é inerente ao ser humano. Portanto, para acontecer, ela precisa alterar as estruturas primárias, o que nos aprimora. Para que se aprenda a falar, basta que se ouça outras pessoas falando; para se aprender a ler não adianta ficar perto de alguém que esteja lendo.

Mas, por que razão isso acontece? Porque ler é um processo ativo, uma vez que o leitor precisa construir o significado do texto, depois de ter tido o contato anterior e básico, com o sistema de escrita. Esse sistema, por sua vez, vem com a assimilação do alfabeto, o aprender a formulação das sílabas e palavras, a elaboração de frases. Mas depois o leitor, para assim ser entendido, precisa ir muito além disso. Tem que ir escavando camadas mais profundas, o que faz com conhecimento complementar. Ou isso, ou estaria apenas entendendo as mensagens de cartazes, as placas sinalizadoras, os bilhetes breves, lendo as manchetes de algum jornal ou abrindo um livro apenas para saber de que assunto ele trata.

É recente a adoção de um novo conceito, com a aceitação da ideia da existência de uma “leitura profunda”. Ela viria do processo que nos torna capazes de fazer inferências e analogias, a partir do ato de ler. Se uma primeira e básica mudança no nosso cérebro acontece no momento em que se aprendeu a ler, essa outra vem do que lemos e de como lemos. Ela surgiria a partir das similitudes e ilações, fatores que permitem uma dinâmica humanizadora, sendo produtoras de maior capacidade crítica e analítica. O que levaria o cérebro a pensamentos mais profundos do que antes. Seria o oposto de uma leitura superficial – como as citadas no parágrafo anterior –, onde de fato nada nos leva a refletir, a motivar uma volta atrás ou mesmo uma pesquisa para a compreensão de algo que não tenha sido captado no primeiro momento.

A neurociência está comprovando que essa espécie de leitura mais complexa pode mudar o cérebro das pessoas. Isso porque conseguiria inclusive alterar a química, a física e o funcionamento dele, alcançando até mesmo alterações anatômicas com o tempo. Um exemplo que pode ser citado é o trabalho conjunto feito por neurocientistas do Centro Neurospin, de Paris, com colegas do Hospital Sarah Kubitschek, de Brasília. Eles concluíram que o cérebro junta as regiões da linguagem e da visão para proporcionar a possibilidade de leitura, com consequências em toda uma lógica de funcionamento.

A questão é o quanto o ato de ler consegue transformá-lo. E determinar que tipos de leitura pode resultar nisso de forma mais rápida e completa. Certamente não será o conteúdo dos grupos de WhatsApp da família, nem a transcrição dos pronunciamentos do inominável. Até porque se pode afirmar, sem medo de errar, que o resultado será diretamente proporcional à qualidade do que é lido; às exigências de esforços para o domínio da narrativa feita. Também comprovaram que com a leitura profunda o cérebro entra em um estado semelhante ao que se considera meditativo, desencadeando um processo que pode inclusive retardar batimentos cardíacos e reduzir a ansiedade. Então, em nome da nossa saúde mental, vamos ler mais e muito, mas tendo o cuidado de examinar a origem, o conteúdo e as intenções de quem escreveu.

23.05.2022

A leitura profunda reconfigura nosso cérebro

O bônus de hoje é a música Livros, de Caetano Veloso.

DICA ESPECIAL DE LEITURA

FÁBULAS (Volume 1), de Bill Willingham

(Edição de luxo – 264 páginas)

Imagine que os personagens mais amados dos contos de fadas são reais – reais e vivem entre nós, mantendo todos os poderes mágicos. Como eles se adaptariam a uma existência mundana em nossa realidade não mágica? A resposta para essa pergunta está em FÁBULAS, esta celebrada reinvenção dos clássicos contos de fadas feita por Bill Willingham!

De Branca de Neve ao Lobo Mau, passando por Cachinhos Dourados e pelo Garoto Azul, os personagens das mais variadas fábulas, histórias da carochinha e do folclore renascem aqui como exilados vivendo magicamente em uma Cidade das Fábulas camuflada dentro de Nova York. Aclamado pela crítica e pelos leitores, esse clássico moderno dos quadrinhos reúne pela primeira vez a série FÁBULAS em encadernados de capa dura. Esse volume reimprime as primeiras edições da série e traz extras como uma nova introdução e esboços feitos por Bill Willingham, Lan Medina e Mark Buckingham.

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