Página 2 de 8

A SOCIEDADE DO CANSAÇO

Um filósofo sul-coreano de nome Byung-Chul Han vem se destacando entre os maiores pensadores da atualidade, mas ainda não é conhecido no Brasil como mereceria. Ele defende uma tese interessante, de que estamos todos vivendo numa espécie de “sociedade do cansaço” em virtude de vários instrumentos e comportamentos que conduzem a uma “obsessão por si mesmo”. Um narcisismo levado ao extremo, que trouxe como consequência, entre outras coisas, o desaparecimento do erotismo e o surgimento da psicopolítica.

Byung-Chul afirma que estamos todos subjugados pela não-realidade das redes sociais, que levam ao desaparecimento de rituais que, por sua vez, conduzem à anulação das comunidades. Em decorrência, isso tudo estaria resumindo as pessoas a “indivíduos perdidos, sobrevivendo em sociedades doentias e cruéis”. O gatilho dessa situação seriam a hiperprodução e o hiperconsumo que, juntamente com a obsolescência programada, levam os objetos a se dissolverem. Tudo é descartável, desde as coisas até dados e informações. Os laços afetivos deixam de ser estabelecidos, inexistindo mesmo na necessidade compulsiva do compartilhamento constante de nossas ações no mundo digital.

Crítico dos excessos tecnológicos, Byung-Chul compara o smartphone com os rosários dos católicos fervorosos de antigamente. Ambos são objetos mantidos nas mãos, sendo símbolos de uma dominação que é exercida sem ser percebida pelo dominado. Hoje haveria o “amém digital”, com a pessoa sempre se confessando, independente de culpa. A diferença básica é não pedirmos mais perdão: o que se exige agora é atenção. Só que nossos registros pessoais não são mais paroquiais. Eles ganham o mundo, nos desnudando via algoritmos. O ser humano é um objeto, tanto quanto os seus desejos. Que, via de regra, sequer são dele mesmo, mas resultados de necessidades artificiais apenas criadas para a satisfação posterior.

O que ele propõe como alternativa é que o oceano de informações no qual estamos mergulhados seja enfrentado e vencido. Domesticar essas vozes permanentes seria a saída. Porque são elas que estão nos afastando da experiência do “face a face”, que no fundo se trata da verdadeira experiência, sendo as telas apenas uma representação do que de fato é o mundo. Ou era. E a ausência do mundo real é porta de entrada para a depressão, que atinge número crescente de pessoas. Segundo ele, a aspiração contemporânea é ser autêntico, diverso. E, paradoxalmente, a tentativa de sermos únicos e exclusivos nos torna iguais. Iguais e cansados, afetados até na libido.

Em recente entrevista, o filósofo citou dois livros para explicar a situação humana. O primeiro foi 1984, de George Orwell, no qual as pessoas são controladas pelo medo, pela ameaça de sofrerem o mal. O outro é Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, cuja história mostra pessoas sendo controladas pela administração do prazer, com a distribuição de uma droga chamada Soma, por parte do estado. Nós estaríamos  vivendo predominantemente a segunda situação. Nosso futuro se resumiria em alimentação e jogos virtuais viciantes, ambos assegurados pelo sistema dominante. Essa perspectiva sombria, seria a reedição do que se convencionou chamar no passado de panem et circenses (pão e circo). Ela viria depois do desemprego massivo trazido pela tecnologia da informação, se tornando a vigilância necessária para conter as massas: perfeita, na medida em que serão os próprios vigiados os primeiros a acreditar que essa é a melhor coisa a ser feita. Ou seja, a dominação completa justo por se apresentar como se fosse a melhor e maior das liberdades.

Sintetizando, Byung-Chul defende que a filosofia deve se preocupar mais com o mundo real. E que, mesmo com a mais absoluta das abstrações, o foco precisa ser o hoje. O pensamento sendo ferramenta para interpretar a realidade, um instrumento para agir sobre ela, como que ele próprio tem mostrado fazer. Deste modo, concordar ou não com opiniões e posições dele é um exercício interessante, que no mínimo nos obriga a prestar mais atenção no que acontece ao nosso redor, percebendo a existência de camadas escondidas nas estruturas que nos cercam.

26.11.2021

Byung-Chul Han

O bônus de hoje é outra vez duplo. Primeiro temos a animação Are You Lost In The Word Like Me? (Você Está Perdido no Mundo Como Eu?, em tradução livre), de Steve Cutts. Sobre o vídeo original há uma releitura da sonorização, aplicada pelo italiano Marco Zoi, que faz parte do surrealismo pop

Depois é a vez da música Pela Internet 2, de Gilberto Gil.

Clicando sobre as capas acima você é direcionado para a possibilidade de compra do livro. Se fizer isso usando esses links, estará colaborando com o blog, que será comissionado.

DISTRIBUIÇÃO DE RENDA

Estive acompanhando – em silêncio, lógico – postagens que foram feitas essa semana em um grupo de WhatsApp onde eu estou apenas de curioso, assim tipo “espião”, criticando pronunciamentos que defendiam a necessidade urgente de combater a desigualdade social em nosso país. Eram raivosas e sem nenhum embasamento, mas o gado surta cada vez que ouve falar em distribuição de renda, mesmo ele próprio tendo pouca ou quase nenhuma. Talvez porque imagine que isso seria feito por emissários de um governo comunista, nas ruas, tirando seus tostões dos bolsos e os entregando para outros passantes. O que diferenciaria por muito pouco da ação de certos pastores, nos templos, que também os retiram, mas dão outro destino. A questão é que ler a Bíblia tem bom valor, desde que não se fique apenas nela. Em Isaías 43:8 está escrito “traga o povo que tem olhos, mas é cego; que tem ouvidos, mas é surdo”. Uma leitura não fanatizada evidenciaria que ele se refere à necessidade de trazer para as luzes do conhecimento, para o convívio com a verdade e não necessariamente para dentro dos templos. E que pouco adianta pregar se a pessoa continuar preferindo ser surda. Aliás, sobre a história de igrejas físicas, Mateus 18:30 desmente essa necessidade: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”. Ou seja, em qualquer lugar onde a fé prevaleça.

Termina aqui meu momento pregador e passo a falar sobre economia. Com tanto dicionário à disposição e com a onipresença do oráculo moderno chamado Google, não é possível que as pessoas ainda não tenham tido sequer a curiosidade de dar uma olhadinha rápida na conceituação do que seja “distribuição de renda”. Esse termo não se refere ao rateio das moedas. A referência real é a de “acesso aos bens socialmente produzidos, entre os diferentes estratos da população”. Ou seja, agir para que a demanda não esteja excessivamente concentrada. Isso significa a movimentação dos recursos, mais emprego, mais oferta, mais riqueza para o país e as comunidades que compõem a nação. Distribuição de renda se faz com a busca do pleno emprego e de salários justos. Com a não privatização do que é essencial, como os espaços públicos, o fornecimento de água e energia elétrica, os serviços de saúde e a educação. Porque, estando na iniciativa privada, tudo isso drena renda e qualidade de vida dos mais pobres, agredindo inclusive a sua dignidade e cidadania.

Distribuição de renda real se dá, por exemplo, com a revisão do sistema tributário. Em nosso país, o que se chama de imposto de renda deveria ter o nome de imposto sobre o salário, porque são os assalariados que de fato o pagam. Vem tudo já descontado em folha, não tendo como fugir da mordida. A renda mesmo, que é uma quase exclusividade dos mais abastados, essa escapa da malha da receita. É a única rede do mundo que pega o peixe pequeno e deixa o grande escapar da sua trama. Uma ilogicidade física fascinante, que de fato merece ser estudada a fundo. E enfrentada de verdade.

Acho que, tirada a hipótese também viável da simples ignorância – ou ainda a de interesse próprio –, quem é contra talvez esteja apenas desconfortável com a palavra “distribuição”. Por que ela também aponta para algo dado de graça e ao acaso. Tipo balas para crianças, que são ofertadas por Papai Noel em shopping. Ou quentinhas e cestas básicas, que a generosidade alheia faz muito bem em fornecer aos desprovidos. Afinal, distribuição de renda acontece até mesmo via caridade, mas essa é uma alternativa direcionada e insuficiente. Até mesmo a assistência social faz isso, outra vez sem ter resolutividade elevada. Ambas focam indivíduos isoladamente ou pequenos grupos, não tendo a abrangência socialmente necessária. Para atingir toda a população, apenas com mecanismos viabilizados por decisões políticas, como tributação mais justa, reforma agrária e serviços públicos eficientes. Outros tipos comuns de redistribuição de renda são os subsídios e os vouchers, que é um nome pomposo de origem francesa. Esses são os vale isso, vale aquilo, que chegam a determinadas populações. Agora mesmo estão criando um relacionado ao gás. São emergenciais e não podem ser encarados como uma solução e sim como paliativos.

Os pesquisadores britânicos Richard Wikinson e Kate Pickett fizeram levantamento minucioso de dados estatísticos colhidos em 23 países e nos 50 estados que compõem os EUA. E comprovaram a correlação entre desigualdade de renda e taxas mais elevadas de problemas, tanto sociais quanto de saúde. Isso influencia na gravidez adolescente, no uso de drogas, na delinquência, no encarceramento, na expectativa de vida, no desempenho escolar, na mobilidade social, nos direitos da mulher, na obesidade e até em distúrbios mentais. O Fundo Monetário Internacional (FMI), por sua vez, em relatório ainda de 2011, publicou estudo que mostra uma forte associação entre períodos de crescimento de países coincidindo com fases de melhor distribuição de renda entre seus cidadãos. Vontade imensa de conseguir esses links e colocar ambos sutilmente no grupo aquele de WhatsApp. Mas, sinceramente, não sei se adiantaria.

24.11.2021

No bônus musical de hoje, Gabriel o Pensador, com Patriota Comunista. Clip gravado em 2021.