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FICOU MAIS FÁCIL SER COMUNISTA

Até pouco tempo atrás, para uma pessoa tornar-se comunista dava um trabalho enorme. Primeiro, ela precisava conhecer a fundo o que é de fato o capitalismo. Entender o modo de produção dentro do sistema capitalista e a estruturação social que se estabeleceu a partir da sua adoção. Saber das razões de existir a divisão das pessoas em distintas classes sociais. Perceber que para um grupo pequeno se tornar cada vez mais rico é sempre necessário que outro, muito maior, trabalhe por ele e viva com o mínimo suficiente para sobreviver. E se dar conta de que o ascender dentro desta estratificação social se dá de forma rara e ilusória, servindo mais como exemplo estimulador, uma esperança acomodativa.

Através de muita leitura e estudo o comunista precisava se apropriar de conhecimentos específicos, ligados à economia e à sociologia. Tinha que identificar conceitos como mais valia, exército de mão de obra de reserva e outros tantos que só se tornam óbvios depois de assimilados pelo exercício da leitura e pela observação de exemplos vivos. Ele tinha que ler diversas obras, em especial O Manifesto Comunista escrito por Karl Marx, juntamente com Friedrich Engels, em 1848. Também era muito importante conhecer um outro livro de Marx: O Capital (1867). Se o primeiro pode ser considerado como a obra fundadora e um dos tratados políticos de maior influência na história mundial, o segundo é uma espécie de compilação de várias obras do autor onde está a teoria marxista propriamente dita.

Sendo muito básico na explicação, o comunismo – palavra derivada do latim communis, aquilo que é de todos – se trata de uma ideologia que resulta em movimento filosófico, político, social e econômico. Ele visa o estabelecimento de uma ordem socioeconômica que seja estruturada em ideias de igualdade, no reconhecimento e no respeito às diferenças entre as pessoas. A frase célebre “a cada um conforme suas necessidades, de cada um de acordo com suas possibilidades” talvez resulte em um melhor entendimento da proposta. Uma sociedade, portanto, que não tenha distinção entre classes.

A verdade é que se apropriar de qualquer conhecimento exige um mínimo de esforço intelectual. Não se deveria chamar alguém de comunista sem que se saiba o que isso é de fato. E também se faz necessário entender que não há qualquer razão para tal expressão ser pejorativa. Ou pelo menos não deveria haver. Acusar alguém pela sua escolha ideológica em política e economia é tão absurdo quanto se referir desse modo a quem professa uma religião diferente da nossa ou torce para um clube que não seja nosso preferido. Mas a extrema-direita ensinou e boa parte do povo, mesmo sem entender a razão, passou a gritar COMUNISTA querendo igualar esse ao grito de leproso, feito em passado vergonhoso. O termo se tornou um estigma. A estupidez equivale a sair nas ruas apontando BUDISTA, por exemplo, como se todos necessariamente devessem ser cristãos. Vociferando um “morra COLORADO”, como se todos sem exceção devessem ser gremistas. Mas, enfim, não deve existir surpresa, uma vez que intolerância talvez seja a marca maior desse grupo.

Voltando ao que digo no título, está ficando cada vez mais fácil ser comunista aqui no Brasil. E isso graças a um incansável trabalho de Bolsonaro e seus seguidores. Para que tanta leitura? O próprio presidente se orgulha de não ser alguém afeito aos livros. Que história é essa de querer pensar? Uma capacidade limítrofe para estabelecer um raciocínio raso é mais do que suficiente. O negócio é simplificar isso daí, talquei? Então, vamos lá:

É a favor da ciência. Comunista! Prega a liberdade democrática. Comunista! Afirma que a Terra é uma esfera. Comunista! Acredita na eficácia das vacinas. Comunista! Dá aulas numa universidade pública. Comunista! Estuda numa universidade pública. Comunista e maconheiro! Usa camiseta vermelha. Comunista! Afirma que houve uma ditadura militar no Brasil. Comunista! É contra uma nova intervenção militar. Comunista! Entende que a Justiça deva ser respeitada. Comunista! Acha absurdo o incentivo ao armamento da população civil. Comunista! Defende uma educação inclusiva. Comunista! Acredita que podem existir outros arranjos familiares, além da chamada família tradicional. Comunista! É contra o desmatamento e se preocupa com a segurança alimentar dos menos assistidos. Comunista! Se dedica à música e outras artes. Comunista e vagabundo!

Eu poderia seguir adicionando itens nessa lista. Mas os que estão nela já ilustram suficientemente o que estou tentando dizer. Quero também revelar que a maior parte das pessoas que eu conheço e com as quais me relaciono se enquadram em vários dos exemplos. São todas comunistas, portanto, mesmo que muitas delas jamais tenham se dado conta disso. O que significa, pelo menos, que eu estou bem acompanhado.

11.10.2021

O fantasma assusta quem pouco ou nada sabe

No áudio abaixo, a música Igualdade, de Júlio Vibe.

Outro bônus: um trecho do filme A Voz Adormecida, do diretor Benito Zambrano. Ele mostra a crueldade do regime fascista de Franco, na Espanha. A ditadura foi instaurada também graças ao apoio da Igreja Católica, logo após a Guerra Civil Espanhola – no Brasil o fascismo também conta com um “braço religioso”, representado especialmente pelos evangélicos. O longa é intenso e mostra a resistência das mulheres guerrilheiras. O diretor focou sobretudo no sofrimento humano, mostrando a dor da perda e da separação, o terror trazido pelo autoritarismo e mostrou pessoas que eram capazes de dar suas vidas na luta por um mundo mais justo.

600 MIL MORTOS

No dia de ontem o Brasil ultrapassou a casa dos 600 mil mortos pela Covid-19. Para ser preciso, com as 628 registradas ao longo de 24 horas já são 600.493 as vidas perdidas até agora. Isso que nos primeiros meses era enorme a subnotificação, o que nos permite assegurar com absoluta certeza que tal número foi alcançado bem antes. Sem contarmos com casos como o evidenciado no recente escândalo da Prevent Senior, que falsificava os atestados de óbitos de pacientes seus, para não admitir que as perdas tinham sido sofridas para essa doença. Afinal, isso desacreditaria sua absurda insistência em apregoar o uso de medicamentos sem eficácia alguma, numa pseudo pesquisa que tinha interesse econômico-financeiro, mas não científico.

Enfim, mesmo que tomemos como correto esse número inferior ao real, o absurdo toma dimensões inimagináveis. Para se ter uma ideia, há cerca um século atrás, na epidemia da chamada gripe espanhola – que começou nos EUA e não na Espanha –, ocorrida entre os anos de 1918 e 1919, as estimativas apontam que o Brasil tenha perdido cerca de 35 mil vidas. Percentualmente isso teria uma relevância maior do que se examinar apenas os números absolutos, porque é evidente que a população era menor. Mas também eram menores as nossas condições sanitárias e os recursos para prevenção e tratamento.

Na Guerra do Paraguai, quando Brasil, Uruguai e Argentina lutaram juntos contra o exército de Solano Lopes e massacraram o povo paraguaio, incentivados por interesses britânicos, o Império enviou 150 mil brasileiros para o campo de batalha. Após cinco anos de conflito, cerca de 50 mil deles não voltaram para casa. Com as mortes dos civis, especialmente nas províncias do Rio Grande do Sul e do Mato Grosso, o número chegou a 60 mil. Dez por cento do que se perdeu com a atual pandemia, agora num período de tempo que foi menos do que a metade daquele. A Guerra dos Farrapos, que tanto orgulha os gaúchos, teve perto de três mil baixas, em dez anos de luta. O que comprova que foram embates de pouca “intensidade” e de narrativa maior. Na sua modesta participação na Segunda Guerra Mundial, o Brasil perdeu cerca de mil militares e mil civis, esses principalmente marinheiros nos nossos navios mercantes que foram afundados.

O Brasil possui 2,7% da população mundial, mas teve, até a atualização ocorrida em 06 de outubro de 2021, um total 9,1% entre todos os casos confirmados e 12,4% das mortes mundiais. Essa discrepância, causada em boa parte pela inoperância criminosa do Governo Federal, escancara uma situação sanitária que beira o absurdo. Estamos tendo, por exemplo, que comemorar o fato de a média móvel de mortos estar em “apenas” 457 vidas indo embora a cada dia. E isso aponta para a naturalização do fato das pessoas estarem morrendo: afinal, elas não têm rosto, a não ser quando é alguém que se conhece. No fundo, são apenas números numa estatística sombria.

Foi somente em 31 de julho que o Brasil voltou a registrar uma média móvel de mortes abaixo de mil casos por dia, isso depois de 191 dias seguidos com valores superiores. Entre 17 de março e 10 de maio, tivemos mais de 2.000 mortos a cada 24 horas. O recorde ainda pertence a 12 de abril, quando 3.125 brasileiros perderam a vida. Ao longo deste tempo todo, negócios escusos eram combinados por dois grupos distintos de apoiadores de Bolsonaro, dentro do Ministério da Saúde e com o conhecimento dele, numa queda de braço para saber quem ficaria com a propina que estava sendo cobrada para a aquisição de vacinas.

Um governo que se recusou a adquiri-las ainda no ano passado, quando 70 milhões que seriam entregues em dezembro foram simplesmente dispensadas. Que não forneceu transporte de oxigênio para Manaus e outras cidades, permitindo que pessoas morressem asfixiadas – aviões da FAB tinham ido levar militares para treinamento fora do Brasil. Que tornou uma questão de honra negar sempre a ciência, propagar fake news, defender um inexistente tratamento precoce. Um governo liderado por um presidente que debochou das pessoas doentes, imitando uma delas passando mal, diante das câmaras.

O que Bolsonaro esqueceu de considerar foi que não morreram apenas opositores seus. Que milhares entre os mortos eram seus eleitores. Que todos os que se foram deixaram para atrás algum familiar que vota. Perder alguém que se ama é sempre algo muito doloroso. Mas, a essa altura, o que podemos fazer é não perder a memória. É levarmos essa mesma dor junto conosco até as urnas, nas eleições do próximo ano. E não esquecermos, até isso acontecer, de seguir usando máscara e álcool gel, além de manter o distanciamento social. Depois, nos distanciaremos também do genocida.

09.10.2021

No bônus de hoje, Dust in the Wind (Poeira ao Vento), música da banda Kansas. A gravação original é de 1977, sendo uma das faixas do álbum Point Of Know Return. Mas também foram feitas algumas outras, como as de Sarah Brightman (1998) e Scorpions (2001). O vídeo tem legendas em português.