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ESTUPRADOR CONDENADO

Mais uma vez, na história recente, a Argentina ensina ao Brasil como esse deveria agir, se de fato quisesse encarar de frente seus fantasmas e partes nebulosas da história. Na sexta-feira, 13 de agosto, sua justiça condenou a 20 anos de prisão um ex-oficial da “inteligência” do vizinho país, responsável por tortura e estupros sistemáticos de prisioneiras na época da ditadura militar. Uma das corajosas mulheres que foram suas vítimas naquele tempo, Silvia Labayrú, fez questão de tornar público o seu contentamento com o fato disso ter agora acontecido, mesmo que tardiamente. Ela tinha apenas 20 anos de idade quando foi sequestrada pelos órgãos da repressão e levada para a Escola Superior de Mecânica da Marinha (ESMA), que era o maior centro clandestino de detenção de opositores ao regime. Estava grávida de cinco meses e, mesmo assim, passou semanas encapuzada, sendo ameaçada e espancada inúmeras vezes.

Ainda estava no cativeiro quando nasceu seu bebê, quatro meses depois da prisão. Ele foi arrancado dos seus braços e levado embora para local ignorado. Algum tempo depois, o capitão de fragata Jorge Tigre Acosta lhe informou que ela passaria a manter relações sexuais com oficiais, para provar que estava “recuperada”. Assim, foi entregue para Alberto González, subalterno de Acosta e homem que agora foi condenado pelo que fez a ela e outras presas. As audiências durante o julgamento foram privadas, para não expor ainda mais as denunciantes e devassar publicamente sua intimidade – eram várias mulheres, apesar do número total de vítimas não ter sido confirmado –, evitando ao máximo a dor dos seus relatos. Mas Labayrú discorda disso, acreditando que depois da condenação confirmada é preciso tornar tudo público, até para mostrar que houve “cumplicidade de alguns setores da sociedade”, além de estimular que outras façam o mesmo. Desde 1978 ela vive na Espanha, onde se exilou. E foi lá que recebeu o resultado do julgamento, mais de 40 anos após os fatos, ao lado de familiares.

Segundo ela, González não apenas a estuprava como ainda a levou para casa, algumas vezes, para que a prisioneira satisfizesse também sua esposa. Ela era um objeto usado para realização de fantasias sexuais do casal. Na primeira dessas ocasiões, tivera certeza de que seria logo após assassinada, porque seu algoz não fez questão alguma de esconder nada. Ela viu o prédio, guardou na memória detalhes do endereço e da residência, que pode descrever com minúcias de detalhes agora. Depois, justo por ter sobrevivido, ainda teve que enfrentar a suspeita de ter sido colaborativa com os militares. Como pelo menos 4.800 pessoas tinham sido jogadas em alto mar – eram dopadas e arremessas nuas de aviões da Força Aérea –, muitos passaram a acreditar que as cerca de 200 que conseguiram escapar desse destino deveriam ter feito algo para que as poupassem. Mas até esse detalhe fazia parte do plano dos militares, como uma forma de minar a resistência dos opositores também dividindo e semeando dúvida entre eles.

A jornalista Miriam Lewin, ela própria também sobrevivente da ESMA, escreveu o livro Putas y Guerrilleras, no qual denuncia que a violência sexual era uma parte importante do plano de esmagamento, da total aniquilação da resistência psicológica das prisioneiras. Sem seus filhos, retirados à força; sem seus bens, dos quais os militares também se apropriavam; e sem sequer o domínio sobre seu corpo; havia uma brutal deterioração da sua identidade. A prática de tortura física e psicológica foi usual também no lado de cá da fronteira, durante a ditadura militar que por aqui aconteceu, como lá. Aliás, a nossa foi muito mais longa (1964-1985), enquanto a deles durou apenas sete anos (1976-1983). Mas no Brasil o “acordo” enfiado goela abaixo da população, com a “anistia ampla, geral e irrestrita”, impossibilitou que Ustra e outros tantos torturadores que se conhece muito bem fossem julgados e condenados por seus crimes. E ainda permitiu que continuasse vivo, nas mentes de militares da reserva e em parte dos quartéis, a ideia de que eles são essenciais não apenas para defender a nação de eventuais ameaças externas, mas também para combater as internas, que não raras vezes são criadas por eles mesmos.

26.08.2021

Silvia Labayrú, em sua casa na Espanha

No bônus musical de hoje, No Llores Por Mi Argentina (Don’t Cry For Me Argentina), a canção mais conhecida da peça musical Evita, escrita em 1978. A letra é de Tim Rice, com música de Andrew Lloyd Webber. Neste clip a performance é de Elena Roger.

PÃ E O PÂNICO

Na mitologia da Grécia antiga Pã (em grego Πάν) era o nome dado ao deus dos bosques e dos campos, que estava com os pastores e seus rebanhos. Seria uma criatura a habitar grutas e vagar pelos vales e montanhas, onde praticava a caça e dançava com as ninfas. Filho de Hermes, o deus mensageiro – aquele que tem asas nos tornozelos –, ao nascer ele teria assustado sua própria mãe, uma filha de Dríope. Isso porque veio ao mundo com um aspecto grotesco, animalesco mesmo. A representação de Pã o mostra com orelhas longas, chifres e pernas de bode, pele enrugada, um rosto disforme e cabelo bastante desgrenhado. Convenhamos, isso sem dúvida deveria ser suficiente para assustar qualquer um que estivesse desprevenido. E mesmo a mais amorosa das mães. De interessante era o fato de, em sua trajetória posterior, estar sempre acompanhado de uma flauta, que tocava com maestria.

Mesmo quem não conhece esse mito, deve saber o que seja pânico. A palavra é proveniente de Panikós, em grego, sendo referente justo ao deus Pã, esse amante da música. Como ele “assombrava” os lugares que visitava, com aparições repentinas e ruídos inexplicáveis, fazia com que as pessoas tivessem medo. E esse, quando extremo, até hoje se qualifica como pânico. O que, nos dias atuais, não está mais ligado a noites sombrias, mas tem muitas outras razões de ser e aparecer. Agora tememos a perda de controle sobre os acontecimentos ou pessoas; sobre coisas, atos e decisões que podem vir a afetar nossas vidas; sobre nossa própria existência física. Mesmo considerando que esse desejo de controle pode vir a ser traduzido também como uma psicopatologia, a imprevisibilidade e a insegurança afetam a vida moderna como nunca aconteceu antes. E os efeitos disso podem ser traduzidos como um transtorno mental.

Pessoas afetadas pelo Transtorno do Pânico (TP) têm sintomas fortes de desconforto físico e psicológico. E a situação pode ser deflagrada por riscos meramente imaginários, não havendo necessidade de tratar-se de um perigo real. Isso afeta sua vida social, relações familiares e emprego. Abala autoestima, convicções e inclusive a fé. Medo de enlouquecer ou de morrer, ansiedade, taquicardia, falta de ar, náuseas, tremores, tontura e até desmaios podem acontecer. Não são raras a sudorese, calafrios e vertigem. Estimativas apontam para a existência de pelo menos seis milhões de brasileiros atingidos por esse problema, sendo que muitas vezes o diagnóstico só termina sendo alcançado após consultas com diferentes especialistas. E não é nada improvável que a pandemia tenha contribuído para ampliar muito esse número.

Muitos médicos costumam dizer que sua causa é apenas um desequilíbrio químico dos neurotransmissores serotonina e noradrenalina. São essas duas substâncias apontadas como as responsáveis por influenciar nosso humor e excitação física. Portanto é evidente que o problema reside nelas, mas a razão dele ser desencadeado em geral são situações de estresse ou algum trauma psicológico. Assim, convém que paralelo à medicação que possa se tornar necessária, essencial é o acompanhamento psicológico.  Também é relevante examinar as estatísticas levantadas, que mostram 70% dos casos ocorrendo entre os 20 e 35 anos de idade; com 71% do total de pacientes sendo mulheres.  Pode ser um indício do que a estrutura social vigente e suas cobranças induzem ser esse o “público alvo”. Porque é uma faixa etária na qual se exige que a vida esteja mais do que encaminhada, conduzida para uma posição de “bem sucedido”; e devido à pressão ainda maior que é exercida sobre as mulheres e seus múltiplos e simultâneos papéis.

Uma questão que precisa ser superada é a resistência advinda do mero preconceito. Ninguém tem vergonha de dizer que precisou ir a uma consulta com cardiologista ou pneumologista, por exemplo. Mas não são poucas as pessoas que se envergonham e escondem uma eventual necessidade de procurar auxílio psicológico ou psiquiátrico. Nosso cérebro é um órgão tanto quanto são coração e pulmões, talvez com a característica de uma ainda maior complexidade. Precisa ser respeitado e atendido do mesmo modo. E aspectos emocionais – isso já está mais do que comprovado – podem ser mais devastadores que a maioria das doenças de origem meramente física, orgânica. Assim, conhecer a história pessoal e o contexto ou cenário onde essas pessoas viveram e vivem é indispensável para entendimento do problema e busca de solução, algo que jamais deve ser resumido a uma prescrição medicamentosa.

O Transtorno do Pânico é apenas um dos tantos males que podem vir a atingir qualquer um de nós. Outros podem igualmente conduzir a sensações e comportamentos limitantes ou, no mínimo, desagradáveis. Portanto, considerar a possibilidade de buscar apoio psicológico para enfrentar o problema, reorganizar a vida e retomar com saúde o seu cotidiano, precisa ser visto como a atitude correta  e saudável a ser tomada.

24.08.2021

No bônus de hoje, a música Medo do Medo, da rapper portuguesa Capicua, em parceria com João Ruas. Cantam os integrantes de Os Paralamas do Sucesso, sendo essa uma das faixas provocativas que compõem seu álbum Sinais do Sim, lançado em 2017.