O SURPREENDENTE HYBRIDUS

Cinco artistas gráficos franceses, realizaram em conjunto, no ano de 2017, uma produção realmente extraordinária. Ela foi feita durante os estudos que realizavam na escola de animação MoPA, trazendo além de uma abordagem de profundo interesse ecológico a utilização impecável de efeitos visuais de alta qualidade. Em seis minutos eles arrebatam o público, permitindo o afloramento de diversas emoções. Não foi surpresa, com isso, sua indicação para a disputa de vários prêmios em festivais europeus de cinema, com algumas vitórias. Os diretores da obra são Florian Brauch, Kim Tailhades, Matthieu Pujol, Romain Thirion e Yohan Thireau.

Trata-se, em última análise, de uma ficção científica animada. A história é o relato da luta pela sobrevivência, numa fauna marinha que está de forma profunda e definitivamente atingida e alterada pela poluição ambiental. As regras, em função disso, não são mais as mesmas que a natureza construiu em milhares de anos de evolução. Mas a adaptação de todas as espécies termina acontecendo da mesma forma. Os corpos que o lixo alterou continuam buscando a preservação, a continuidade. O que resulta em luta feroz, numa permanente demonstração de força para que assegurem as necessidades básicas.

A animação Hybridus (Hybrids) começou a ser projetada durante o quarto ano de estudos do grupo criativo. O curso durava cinco, então tiveram tempo para transformar a excelente ideia numa realização ainda mais surpreendente. O trabalho os ocupou entre setembro de 2016 e junho de 2017. E eles trabalharam com a premissa de que a natureza poderia, de algum modo, encontrar na própria poluição uma forma de melhorar suas defesas. Nos poucos instantes em que a ação se passa fora do fundo do oceano, não se vê sequer um ser humano. Mas se percebe que também fora da água parece haver sinais de desolação. O que talvez aponte para o fato de que não estaríamos mais neste planeta, na época em que esses animais marinhos adaptados se digladiam no seu território.

Romain, um dos cinco realizadores, tinha o hábito de mergulhar, sendo muito experiente nisso. Foi ele que constatou in loco o drástico aumento da poluição dos oceanos e o declínio da vida marinha. Em um dos seus mergulhos algo brilhante lhe chamou a atenção e ele, depois de acreditar tratar-se de um peixinho, se deparou com uma tampinha de garrafa. Foi a inspiração para que ele propusesse aos colegas a criação de uma história que denunciasse o fato. Algo que fizesse diferença. E basta que se assista o resultado final para se ter certeza de que eles conseguiram isso, com sobras.

O nome escolhido, Hybridus (Hybrids), já é desconfortável porque aponta para a desesperada hibridização – no sentido de fusão forçada – da vida com o lixo, como uma derradeira tentativa de manter-se ainda algo que seja biológico, mesmo que parcialmente. Mas no filme essa história se revela fria como está sendo a relação do homem com o meio ambiente, nos dias de hoje. Nada mais parece nos sensibilizar, nem mesmo a possibilidade de sermos uma das últimas gerações que ainda podem encontrar uma saída que salve o futuro do planeta e seus habitantes. A animação é realista e engenhosa. Há uma simbiose perfeita entre o orgânico e o sintético, que nos apanha pela perfeição vista e ouvida: o que se dá pelas cenas sombrias e a música muito mais do que adequada. Isso merece ser visto, isso precisa ser mostrado.

04.08.2021

O bônus de hoje não poderia ser outro que não fosse o link para que seja vista a animação destacada no texto. Serão seis minutos muito bem investidos, podem ter certeza.