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O TRABALHO QUE PODE MATAR

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) relata que, em todo o mundo, morre um trabalhador por doença laboral ou acidente de trabalho a cada 15 segundos. Para destacar com maior rigor o absurdo desse número, são quatro pessoas por minuto; 240 a cada hora; 5.760 por dia. Na última década, eram brasileiros 21.467 dessas vítimas fatais – muito maior ainda são os casos de lesões graves e de mutilações. Isso significa que, em nosso país, ocorrem seis óbitos para cada 100 mil empregos formais. Algo bastante baixo, diriam os que adoram a leitura fria da estatística ou entende que em número algum há vida, exceto quando se refere a resultados financeiros. Mas cada um desses trabalhadores tinha nome, endereço, família, afetos que ficaram órfãos, muitas vezes devido à falta de cuidado e proteção que eles precisavam e mereciam, para cumprir suas atividades.

Para esse grupo que pensa com o bolso – ou com a Bolsa de Valores – se pode informar que doenças e acidentes de trabalho causam uma perda de cerca de 4% do PIB global a cada ano. No Brasil isso equivale a algo próximo de R$ 300 bilhões, segundo estimativas do Ministério Público do Trabalho, que considerou o Produto Interno Bruto de 2020 para apresentar o cálculo. E ainda existe o gasto previdenciário, que precisa ser também considerado. Em oito anos tivemos 5,6 milhões de casos de doenças e acidentes, gerando despesa de mais de R$ 100 bilhões. Voltando às taxas de mortalidade, na Argentina é de 3,7 perdas de vida a cada 100 mil trabalhadores; no Canadá é de 1,9 e no Japão de 1,4. Entre as 20 maiores economias do mundo, ocupamos o penúltimo lugar, estando na frente apenas do México, com oito mortes a cada 100 mil trabalhadores.

Por aqui existe uma enorme dificuldade na adoção de medidas que sejam preventivas. E essa resistência não é apenas por parte de empresas, que podem agir assim para reduzir custos: os próprios trabalhadores, muitas vezes, não aceitam ou dizem não se adaptar, por exemplo, com o uso de equipamentos de proteção individual. Além disso, a notificação dos casos verificados nem sempre é feita, o que significa que mesmo sendo preocupante o número dos registrados eles não representam a totalidade das ocorrências. Essas, em termos de distribuição geográfica, se concentram principalmente em São Paulo (35%), Minas Gerais (11%) e Rio Grande do Sul (9%). A razão é que esses três estados, juntos com o Rio de Janeiro, têm o maior número de trabalhadores em atividades formais, devidamente registradas.

O dia de hoje, 27 de julho, marca os 49 anos do primeiro passo dado para garantir boa saúde e segurança, pelo menos para os trabalhadores de grandes empresas no Brasil. No ano de 1972, nesta data, o então ministro do trabalho, Júlio Barata, regulamentou portarias garantindo a formação técnica em Segurança e Medicina do Trabalho. Com isso, nosso país se tornava o primeiro em todo o mundo a tornar obrigatória a existência desses serviços onde houvesse mais de cem empregados. Vale lembrar que hoje em dia nem mais o Ministério do Trabalho existe. Criado por Getúlio Vargas, em 26 de novembro de 1930, ele foi extinto por Jair Bolsonaro no dia de sua posse, em 1º de janeiro de 2019.

É preciso que se veja o trabalho não apenas como uma atividade de busca remuneratória, para sustento pessoal ou familiar. Essa rotina produtiva tem que alcançar outros níveis de satisfação, não devendo nunca ser de tal forma intensa que não sobre ao trabalhador energia e condições para lazer, convívio e vida privada. O adoecimento não raras vezes vem dessa falta, atingindo sua saúde mental e criando situações para o descuido que leva ao problema físico, pela desatenção e desgaste.

Não por acaso é grande o número de países que têm limites legais estabelecidos para as jornadas semanais. Na Holanda são 29,2 horas por semana e na Dinamarca 32,4. No Brasil o padrão fica em 40 horas semanais, havendo exceções. Nos EUA a legislação não assegura nada para ninguém. E na Coréia do Sul decidiram recentemente reduzir, mas por um motivo mais surpreendente. Eles querem que aumente o índice de natalidade do país. Ou seja, estão sugerindo o que os trabalhadores façam nas horas ociosas que lhes oferecem a mais.

27.07.2021

No bônus de hoje, a música Trabalhador, de Seu Jorge. Esse é o nome artístico de Jorge Mário da Silva, cantor e compositor nascido em Belford Roxo, no Rio de Janeiro. Multi-instrumentista, tem carreira ligada ao Samba, Soul e MPB.

O CARRO QUE JAMAIS SERIA FURTADO

Eu tive um vizinho, quando morava em conjunto residencial na Anita Garibaldi, em Porto Alegre, um bom amigo, que possuía um carro fabricado na época pela Volkswagen, chamado TL. Acho que ainda se consegue imagens, pesquisando no Google. O automóvel dele tinha uma peculiaridade ímpar: era todo de um roxo metálico como jamais vi outro. Nem eu e acho que ninguém mais. Evidente que a pintura não era original de fábrica, que o modelo com essa cor não tinha similar. Mas o dono também era alguém especial, podem acreditar.

O Volkswagen TL foi um modelo que passou a ser aqui fabricado em 1970, depois de 12 anos em que a montadora alemã estava em nosso território. Antes dele eram produzidos apenas o Fusca, o Karmann-Ghia e a Kombi. Foi o quarto veículo da linha, portanto. Este veio junto com a Variant, mas terminou tendo uma vida curta por aqui. Era derivado do Typ 3 germânico, só que chegou tarde demais e foi logo superado pela evolução, com a fábrica passando por transformações na época. Acabou descontinuado em 1975, um ano após a chegada do Passat.

O seu Itamar era proprietário de um apartamento dois prédios atrás do meu. No total eram cinco os edifícios, com pátio em comum servindo de corredor e de estacionamento. Ele era motorista de ônibus e a empresa onde trabalhava atendia também o nosso bairro. Assim, várias vezes tive oportunidade de viajar tendo ele como condutor, nas idas para o colégio e depois o trabalho e a faculdade. Se portava como aqueles educados mesmo, as raridades que esperam com paciência cada passageiro mais velho e com menos mobilidade entrar e se acomodar; ou sair e alcançar a segurança das calçadas. Cumprimentava todo mundo e sorria sempre, tornando as viagens muito mais agradáveis, pouco importando como estava o trânsito. Mas minha afinidade era com a família toda e se deu, entre outras boas razões, pelo fato de seis gremistas residirem naquele endereço: ele e a esposa, dona Nely, tinham quatro filhos. E o tal TL que eu contei antes.

Não sei se o carro possuía seguro contra furto e roubo. Mas acredito que nem precisaria. Nenhum ladrão com um mínimo de bom senso arriscaria levar ele. Em poucos minutos, bastando um alerta para as viaturas da Brigada Militar ou para as cooperativas de táxi – naquela época não existiam as empresas de aplicativos –, ele seria localizado. Visto de longe mesmo, reconhecido na hora. Sairia do TL para um camburão, num estalar de dedos: nem daria tempo para chegar ao endereço de algum desmanche. Ser inconfundível ajudaria o verdadeiro dono a manter a posse do carro.

Muito do que temos e do que somos na vida são coisas assim, bem evidentes. Outras são mais discretas, ficam escondidas. Mas entre as que integram o primeiro ou o segundo grupo, sempre existirão aquelas que ninguém pode tirar da gente nunca. Mais fáceis são os exemplos não materiais. Podem ser as nossas memórias, boas amizades feitas ao longo dos anos, conhecimento acumulado, gentileza e generosidade compartilhadas. Quem cobiça essas coisas invisíveis, todas imateriais, pode ter cada uma delas sem tirar de ninguém. Não exatamente as mesmas, uma vez que cada uma delas nos dá peculiaridades. Sempre há algo que sabemos e ninguém mais sabe; um acontecimento ímpar que ficou registrado em nossa memória afetiva; um sorriso trocado ou um afeto sincero. Tudo isso será eternamente único, como aquele TL. Mas, todos podemos construir histórias igualmente valiosas.

O seu Itamar e sua esposa há muito não estão mais entre nós. O carro soube mais recentemente que também não. Me contaram que ele o vendera anos atrás e o novo proprietário o demoliu num acidente. Espero sinceramente que sem vítimas. O meu amigo se eternizou nas três filhas, no filho e nos oito netos. E também na memória de pessoas como eu, que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Seguem a vida e o ciclo natural das coisas, com lembranças e descendência.

25.07.2021

Volkswagen TL

O bônus de hoje é uma música que tem um automóvel como tema. É Simca Chambord, de Marcelo Nova. Sua banda, a Camisa de Vênus, trouxe humor e temas políticos em suas letras, pondo dedo na ferida também quando se tratavam de críticas ao comportamento vigente. O que rendeu ódio dos censores da época da ditadura militar: até o nome adotado pelo grupo era considerado uma afronta. Essa canção, gravada nos anos 1980, relembrava a história da compra de um carro pelo pai de Marcelo, que os jovens usavam inclusive para namorar. Até que o mesmo foi destruído pela repressão. O relato está no trecho (…) Tudo isso aconteceu há mais de vinte anos/Vieram jipes e tanques que mudaram os nossos planos/Eles fizeram pior: acabaram com o Simca Chambord”