Os livros de história que relatam a luta de países latino-americanos, na busca por suas independências, sempre valorizam a participação dos homens. São raros os que destinam papéis relevantes para as mulheres. Mesmo partindo da suposição que todos tenham sido escritos com base em documentos, a verdade é que o fato de a autoria das narrativas ser predominantemente masculina influencia nessa abordagem. No entanto, não se pode mais ignorar que muitas vezes elas ocuparam posições chave, tendo sido determinantes para o alcance dessas emancipações. Não foram poucas as que fizeram muito mais do que cozinhar para os soldados, confeccionar uniformes e tratar de feridos em batalhas. Mesmo tendo prestado indispensável apoio logístico, várias também estiveram nos campos de batalha, participando da elaboração de estratégias ou, no mínimo, assegurando a manutenção da economia, na retaguarda. Vejamos apenas duas, entre tantas que se poderia citar.

Um primeiro exemplo dessas heroínas que têm menos visibilidade do que seus imensos méritos é Juana Azurduy, que tem relevância nas histórias da Bolívia e da Argentina. Filha de mãe mestiça e pai branco, nasceu em território que se tornaria boliviano, no Vice-Reino de La Plata. Órfã ainda criança, passou boa parte da vida em conventos. Casou com 25 anos e teve cinco filhos. Junto com Padilla, seu companheiro, fazia parte de uma das pequenas formações de resistência no interior, criadas depois que os movimentos ditos urbanos haviam sido derrotados. Sua determinação, bravura e invejável capacidade de comando lhe valeu ser alçada ao posto de tenente-coronel, em 1816.

Ferida em combate, ainda grávida do quinto filho, seu marido morreu ao tentar resgatá-la. Em 1825 foi promovida a coronel, por decisão de Simon Bolívar. Ainda lutou em seis grandes confrontos contra os monarquistas, no norte do Alto Peru, para garantir processos de independência. Anos depois, morreu na pobreza e foi enterrada em vala comum. Tardiamente reconhecida, foi em sua homenagem que a Argentina tornou o 12 de julho, o seu nascimento, como o Dia das Heroínas e Mártires da Independência da América.

Uma segunda justíssima citação é a de Micaela Bastidas Puyucahua, que foi líder de uma rebelião em 1780, ao lado do seu marido José Gabriel Condorcanqui, o Túpac Amaru II. O objetivo era derrotar e banir os colonizadores, tendo esse desejo sido consolidado a partir dos abusos que eram cometidos contra as populações nativas. Seu marido era quem comandava os revoltosos em Puno, enquanto ela cuidava pessoalmente das operações militares em Cusco. Em inúmeras ocasiões era ela que estabelecia as estratégias depois seguidas por Túpac Amaru II. Além disso, era uma grande administradora, assumindo as rédeas de todos os negócios familiares e dos revoltosos. A insurreição por eles liderada foi fundamental para a posterior emancipação peruana, alcançada em 1821. Micaela era zamba, com raízes tanto indígenas quanto africanas. Teve três filhos e cuidava deles com atenção semelhante àquela que dava ao seu povo. Antes de buscar solução militar, chegou a fazer vários pedidos formais às autoridades coloniais no sentido de liberarem os indígenas do trabalho obrigatório em minas, sempre sem sucesso. 

Após tornar-se famosa pelas façanhas na luta, havia oferta de prêmios em dinheiro e em títulos de nobreza por sua captura. Derrotados em uma última batalha, ela e o marido foram presos e condenados à morte, com outras lideranças. Entrou arrastada por um cavalo na praça de execução, com mãos e pés amarrados. Ainda teria dito “pela liberdade do meu povo, renunciei a tudo. Não verei meus filhos florescerem”, tendo depois sua língua cortada. Precisou também ver a execução de um dos filhos, antes de ser estrangulada.

15.06.2021

Micaela Bastidas Puyucahua

Como bônus, a crônica de hoje oferece dois clips dedicados às heroínas citadas. Primeiro temos Juana Azurduy, música de Zamba Quipildor, pseudônimo de Gregory Nazianzen Quipildor, cantor de folk argentino. A gravação foi feita em Tucumán, no ano de 2011, em recital em homenagem ao maestro Ariel Ramírez.

No segundo clip, Para Vivier Contigo, poema de César Calvo Soriano, com adaptação musical de Erick Tejada. Foi composta em homenagem a Micaela Bastidas Puyucahua. Nas imagens, Sandrina Mazabel Cárdenas interpreta Micaela.

6 Comentários

  1. O resgate da história destas mulheres é um modo de repensar também a história que vivemos. Eu não conhecia. As músicas em sua homenagem são lindas e oferecem momentos de intensa beleza. As tuas palavras e as das homenagens reiteram o imenso valor da arte. Obrigada.

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  2. Do you mind if I introduce these two women to my blog? Of course I will cite your blog as a source. I think it’s really important to talk about these brave women.

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    1. Pode fazer isso. Será uma honra saber que o meu texto vai permitir que mais pessoas conheçam a história das duas.

      You can do it. It will be an honor to know that my text will allow more people to know their story.

      Curtido por 1 pessoa

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