O mais impressionante nessa história toda é ser ela absolutamente verdadeira. Em 1859 um cidadão chamado Joshua Abraham Norton se autoproclamou Norton I – Imperador dos Estados Unidos. O documento que lhe dava tal título foi escrito por ele próprio e publicado, em setembro daquele ano, na primeira página do jornal San Francisco Bulletin, então o mais importante não apenas da cidade como de toda a Califórnia. Nunca se soube a razão, mas isso foi feito de graça. O periódico não lhe cobrou nem um mísero dólar pelo espaço nobre.

Joshua era cidadão britânico, tendo nascido em 1818. Com sua família, ainda pequeno, emigrou para a África do Sul. Quando tinha 30 anos o seu pai faleceu, deixando uma grande fortuna como herança. Ele, entretanto, não quis assumir os negócios e preferiu sair viajando pelo mundo. Sua primeira parada foi no Brasil, mas o destino final acabou sendo os EUA. Foi quando decidiu investir pesado em especulação, buscando alcançar a monopolização do comércio de arroz no Peru – país que não produz quantidade suficiente desse cereal e depende fortemente de importação. Não deu certo e esse baque, segundo especulam alguns pesquisadores, o levou a sérios distúrbios psiquiátricos. Mesmo assim, conseguiu abrir um armazém em São Francisco, o que lhe permitiu sobreviver mesmo sem as condições que tinha anteriormente, com a fortuna.

Foi então que ele resolveu que deixaria de ser uma pessoa do povo, para se tornar um nobre. Entre seus primeiros decretos, todos estampados no mesmo jornal, estava a determinação do fechamento do Congresso – vejam que ele foi pioneiro, mas outro louco também tentou isso, recentemente – e a dissolução do Partido Republicano e do Partido Democrata, os dois maiores do país. A razão seria cortar pela raiz o mal maior que assolava a nação, segundo ele. Como Washington não lhe deu a mínima atenção, enviou carta ao comandante do exército, ordenando a imediata invasão do Capitólio. E também escreveu a todos os governadores dos Estados, requisitando a indicação de delegados para o comparecimento na cerimônia da sua posse. Mesmo sem ninguém ter vindo, Norton I não perdeu a disposição, decretando logo depois a anexação do México ao território do seu império.

Nesse momento, quando ele já estava falido, aconteceu algo inesperado: foi transformado numa espécie de ícone, num símbolo de uma população que andava bastante insatisfeita com os rumos tanto da política quanto da economia. E passou a receber apoio financeiro de personalidades importantes e da população em geral. Ganhou casa e tinha transporte gratuito; não faltavam comida e roupa. Tudo isso foi confirmando para ele que o título era real e que tinha o comando do país. Então adotou para si mesmo uma rotina rígida: acordava cedo e fazia vistorias diárias nos serviços oferecidos pela cidade, cuidando por exemplo do estado dos bondes e do serviço dos garis. Frequentava as diversas igrejas para, segundo ele, evitar desavenças de origem religiosa. Com a Guerra de Secessão iniciada, em 1861, o Imperador ficou muito preocupado. Foi quando convocou o presidente Lincoln, líder dos estados do norte, e o presidente Davis, da confederação do sul, para um encontro no qual ele seria mediador de um acordo de paz. Sem ter conseguido que tal reunião ocorresse, publicou decreto determinando o imediato cessar-fogo.

O Imperador costumava andar com um uniforme do exército, bem antigo e esfarrapado. E não dispensava as dragonas nos ombros, nem um estranho chapéu de castor. Também costumava carregar uma espada velha. Virou uma espécie de atração turística viva. Para garantir fundos para cobrir as “despesas imperiais”, mandou imprimir cédulas com sua estampa e elas eram acolhidas nos bares, restaurantes e outros locais que frequentava. Hoje em dia as que ainda são encontradas atingem valores impressionantes em leilões, disputadas por colecionadores. Mas o ápice da sua história pessoal foi mesmo a insistência em escrever cartas para a Rainha Vitória, propondo que casassem e unificassem as duas monarquias.

Um fato curioso – na verdade mais um, entre tantos – ocorreu em 1867. Um policial novo e desavisado prendeu Norton I, buscando retirá-lo das ruas e encaminhar para um asilo. Houve quase uma rebelião na cidade e o chefe de polícia, além de determinar sua soltura, pediu formalmente desculpas. Magnânimo, o Imperador disse que perdoava o guarda pelo equívoco. Joshua faleceu em 1880. Estima-se que cerca de dez mil pessoas tenham comparecido ao seu velório e que 30 mil estiveram no seu cortejo fúnebre. Houve luto oficial e, na nota fúnebre publicada, estava escrito: “O Imperador Norton não matou, não roubou e não expulsou ninguém do seu país. Poderíamos dizer isso da maioria dos indivíduos que exerceram ou exercem cargos semelhantes?” Está sepultado no Cemitério Woodlawn.

12.05.2021

Joshua Abraham Norton, o autoproclamado Norton I – Imperador dos Estados Unidos

O bônus musical de hoje é com Clarice Falcão, que canta De Todos Os Loucos do Mundo.

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