Meu pai foi tabelião em São Francisco de Paula e depois em Bom Jesus, cidades localizadas nos Campos de Cima da Serra, no nordeste do Rio Grande do Sul. Nessa segunda eu nasci. Moramos lá por alguns anos, até ele se aposentar e irmos todos embora. Mas tenho boas lembranças da localidade e de seus habitantes, tendo algumas vezes retornado depois, para visitas. Um destes moradores ilustres me veio à memória hoje: o Frei Getúlio. Uma figura realmente emblemática, respeitada e admirada pela população. Ele era um dos melhores amigos do meu pai. Depois de sua morte, num acidente de trânsito que nunca foi bem explicado, seu nome foi dado ao ginásio que existe na localidade.

Lembro dele com sua túnica marrom, as sandálias tradicionais e aquela corda amarrada na cintura, que sempre me despertou curiosidade em saber para que serviria. Mas eu nunca perguntei. Hoje, com todo o conhecimento do mundo cabendo “dentro” de um computador, me foi possível descobrir isso e muito mais sobre sua vestimenta. Mesmo eu nunca tendo sido católico. A corda, com três nós, representa os três conselhos evangélicos: obediência, pobreza e pureza de coração. Mas o entendimento do que cada um deles de fato representa é mais complexo. Obediência é usada no sentido de acolhida e de um recolhimento para poder escutar o valor maior. Uma abertura de sentidos, com lealdade para viver um grande projeto. Pobreza não faz referência a uma questão meramente econômica, mas a compreensão de saber colocar tudo em comum, ter a coragem da partilha. E pureza de coração é mais do que castidade, chegando ao nível da verdade e da transparência. Significa a intenção de sempre revelar o melhor de si.

Um dos hábitos que tinha o Frei Getúlio era o de aparecer na nossa casa tarde da noite, para fazer serenatas. Liderava grupo de amigos, com voz e violão, no mínimo. Às vezes outros instrumentos musicais também estavam presentes, como algum acordeon. Todos nós acordávamos, eles entravam e o tempo parava. Sempre tinha algo para todos comerem e ninguém dispensava alguma bebida – eu não ganhava essa última, é lógico. Lembro que me acomodava cheio de sono em uma das poltronas e aguentava o máximo que podia, raramente até o final porque esse se dava já alta madrugada. Isso aconteceu várias vezes e a única coisa que sempre se repetia era a entrada, sendo tocada La Cumparsita ainda do lado de fora, para chamar a atenção. Esse tango, de Gerardo Rodriguez e com gravação memorável de Carlos Gardel, era uma das músicas preferidas do meu pai.

Serenatas no Brasil são hábito existente desde o início de sua história. Ainda no início do século XVI existem registros de serestas, das quais deriva o termo. Em 1717 o viajante francês Le Gentil de La Barinais as descreve com mais exatidão. Homens que saiam de festas em altas horas, ainda sob efeito etílico, cantarolavam e tocavam ruas a fora. Quando apaixonados detinham-se embaixo das janelas das amadas e caprichavam nas suas declarações. Mas esse não era o único motivo das paradas, podendo ser em casas de amigos e até de estranhos, posto que muitas vezes esses boêmios sequer estavam conscientes de sua localização exata. Consta que o costume veio da Idade Média, com o trovadorismo, quando os menestréis entoavam canções e poemas com dedicatórias. E foi da Península Ibérica que teria vindo para as nossas terras, atravessando o Atlântico.

O Frei Getúlio era um homem que entendia com exatidão a importância da vida em comunidade. Estava presente e participativo em todas as iniciativas que representavam algum avanço e proteção ao seu povo. Em especial via a educação como sendo fundamental para um futuro melhor. Sempre brincalhão, mesmo nos momentos em que a seriedade se impunha, tinha o poder de iluminar uma época na qual havia poucas luzes. Talvez tenha morrido por isso. Mas, para quem o conheceu de perto, ficou sempre a impressão que, numa noite qualquer, ele voltaria a cantar sob alguma das janelas da casa.

02.05.2021

Os capuchinhos usam sempre vestes na cor marrom

No bônus musical de hoje, o Valinor Quartet interpreta La Cumparsita, tango de Geraldo Rodriguez. O grupo híbrido, que se dedica em especial ao jazz e ao clássico, tem na sua formação Bem Powell no violino, Slava Tolstoy na guitarra, Greg Feingold no contrabaixo e Sergei Teleshev no acordeon.

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