A história tem semelhança com parte da narrativa de Parasita, o filme sul-coreano vencedor do Oscar em 2020 – ganhou outras três estatuetas além da premiação maior, de melhor filme do ano. Na ficção, um dos pontos disparadores do conflito central é o fato de uma funcionária de família rica manter escondido no porão da casa onde trabalhava, companheiro que não tinha outro lugar para morar. Na vida real, uma mulher da cidade de Milwaukee, estado de Wisconsin, nos EUA, teve ao longo de dez anos seu amante morando no sótão de casa, sem que o marido desconfiasse. Foi no começo do século passado.

Dolly Oesterreich era uma pessoa solitária, que não recebia a devida atenção do esposo, o empresário do ramo têxtil Fred Oesterreich. Estava sempre em casa e a única forma de ocupar o tempo era com pequenas costuras. Até que um dia sua máquina quebrou e um jovem funcionário da empresa da família foi tentar resolver o problema. O rapaz tinha apenas 17 anos na ocasião, mas surgiu interesse recíproco entre a mulher experiente e o adolescente. Passaram então a se encontrar com frequência, o que gerou desconfiança entre vizinhos, em época e local conservadores. Primeiro ela justificou dizendo que se tratava de um sobrinho seu que vinha lhe pedir dinheiro. Depois, para evitar a continuidade dos comentários, optou por uma saída radical: manter o amante direto dentro de casa. Para tanto, preparou acomodações no sótão, contando também com a pouca atenção do marido que, quando em casa, preferia mesmo era beber seu uísque em paz.

Essa situação insólita durou cinco anos. Em 1918 o marido decidiu que se mudariam para Los Angeles, devido à expansão dos negócios. Ela aceitou, condicionando que escolheria pessoalmente a nova residência do casal, que não tinha filhos. Assim, pode outra vez providenciar um mínimo de conforto para o amante Otto Sanhuber, que já estava com 22 anos e seguia aceitando a alternativa. Mas, numa fatídica noite de agosto daquele mesmo ano o rapaz ouviu os gritos da mulher, que estava sofrendo agressão do marido, e resolveu descer para ajudá-la. Fred o reconheceu, percebeu também o que estava acontecendo e sacou uma arma. Após entrarem em luta corporal, um disparo vitimou o dono da casa. A saída foi fingirem um assalto: ela foi presa dentro de um armário e ele retornou para seu esconderijo habitual. E a história colou, com a polícia não conseguindo comprovar ter sido diferente do relatado por ela.

O mais estranho é que, mesmo agora ambos podendo assumir a relação, depois de algum tempo de espera que fosse conveniente, Otto estava tão habituado a viver no sótão que preferiu ficar por lá. Então, além dele, ela começou dois novos relacionamentos. Com o jovem Roy Klumb, um vizinho que a ajudou a esconder a arma do crime; e com o advogado que a defendeu, Herman Shapiro. Esse último, que também era ocupado demais, terminou casando com a viúva. Foi quando ela preferiu voltar à rotina anterior, com o marido no trabalho e Otto no sótão, terminando com Roy. O que foi seu erro: ao sentir que havia sido usado, esse último revelou à polícia que tinha havido luta, que ela conhecia o agressor e o local da arma escondida. Mesmo assim, com o revólver corroído e sem a existência de uma perícia técnica apropriada, ela seguiu negando e não foi condenada pelo crime. Mas no período em que permaneceu detida, não havia quem levasse comida para Otto, não restando outra opção além de contar para Shapiro que um “irmão” morava escondido no sótão e precisava de socorro imediato. O homem foi ao local e encontrou o outro tão debilitado que, em meio a delírios, acabou revelando toda a verdade sobre os agora dez anos que passara vivendo daquela forma. Desta vez sim, tudo terminou vindo a público.

28.12.2020

A ilustração reproduz detalhe de obra do artista surrealista belga René Magritt, Os Amantes, de 1928.
O artista retrata um beijo, com os protagonistas envolvidos pelo “tecido das relações sociais mais íntimas”.

O bônus de hoje é a música Os Amantes, de autoria de Luiz Ayrão. São intérpretes Os Demônios da Garoa, com participação especial de Paulo Miklos e Roberta Sá.

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