A Netflix permitiu que Galder Gaztelu-Urrutia me desse um soco na boca do estômago, na noite passada. Mas até que eu consegui dormir bem, depois disso. Porque o prazer de ver que a tela pode reproduzir a realidade, alertando sobre sua crueza mesmo que metaforicamente, tem o poder de aliviar nossas dores justo por evidenciá-las. Porque traz a expectativa de que a sociedade entenda – talvez pelo caminho da arte – que ainda tem como corrigir seus rumos e se pautar pela inclusão ao invés da segregação, pela generosidade ao invés do egoísmo, pela partilha como valor superior à posse desnecessária e apenas acumuladora. Em situação ideal, conhecer é o começo, agir é necessário e mudar é o objetivo.

Esse jovem diretor espanhol – tem apenas 46 anos – nasceu em Bilbao e seu longa-metragem de estreia é justamente este aclamado O Poço, disponibilizado agora de modo muito oportuno na plataforma. Antes disso fizera apenas dois curtas (913 e A Casa do Lago), em 2004 e 2011, além de produzir alguns documentários. Sua formação é em administração com especialização em comércio exterior, passando longe do cinema. Aproximou-se dele quando passou a trabalhar com publicidade e televisão, na duas últimas décadas. O roteiro é de David Desola e Pedro Rivero.

O filme tem a duração de 1h34min e nos mostra todo o tempo várias celas idênticas onde as pessoas ficam em duplas. Só outras duas locações existem: a triagem e a cozinha. E esse local é apresentado no começo ironicamente como sendo um Centro Vertical de Autogestão, de tal modo que pelo menos um dos seus ocupantes vai para lá voluntariamente – o protagonista Goreng (Ivan Massagué). Na realidade se trata de uma prisão, uma estrutura arquitetônica claustrofóbica, um evidente símbolo da degradação humana, a sepultura das nossas esperanças. Mas, basicamente, um retrato do mundo a partir da coisificação das pessoas. Sobreviver é a única coisa que importa e todos os ocupantes sabem que a administração central nunca fará nada para ajudar nesse sentido. Ao mesmo tempo, nenhuma das pessoas parece disposta a enxergar nada a partir do coletivo. É cada um por si e não existe deus algum para olhar por todos.

Além de Goreng são centrais na história seu primeiro companheiro de cela, Trimagasi (Zorion Eguileor), que lhe revela como funciona o sistema prisional singular onde estão; Imoguiri (Antonia San Juan), com quem também vem a dividir o aposento, a funcionária que o havia admitido e depois se torna reclusa; a enigmática Miharu (Alexandra Masangkay), mulher que vagueia enlouquecida entre os níveis, supostamente em busca de um filho perdido; e Baharat (Emílio Buale), o último dos seus colegas e que com ele busca uma forma desesperada de mudar a vida dos internos.

O drama central está no fato de que todos os dias se faz necessário buscar alimento numa plataforma central que desce do primeiro ao último nível parando apenas alguns minutos em cada um. Sobre ela está um verdadeiro banquete que é servido uma única vez. Cada pessoa pode comer o que encontra, mas não pode guardar alimento algum para depois. Assim, os primeiros se locupletam, mas sobra cada vez menos para os demais. Há quantidade de comida o suficiente para todos, mas a gula, a ganância, o individualismo não permite a distribuição equânime. Há iguarias requintadas que são devoradas com as mãos, que são pisoteadas. Não há olhos para a arte culinária, não há preocupação com aparência nem sabor. E se torna comum que cuspam, urinem, defequem e vomitem sobre os restos que seguem para os demais.

A cada mês os presos são adormecidos com o uso de gás e distribuídos outra vez, de forma aleatória, para outros andares. Assim, subir e descer são possibilidades concretas, mas que não alteram o comportamento, o sistema em si. Numa metáfora explícita sobre o capitalismo selvagem que predomina no mundo moderno, quem está por cima sempre humilha, despreza e desconhece a dor de quem está por baixo. As castas superiores sempre punem as inferiores, mesmo que eventualmente tenham vindo de lá. E não percebem que estão num mesmo buraco e que o problema está mais acima, no comando, na administração central, esta sim acima de todo o bem e todo o mal. Dona da verdade e insensível a tal ponto de nem sequer ouvir o clamor de ninguém. Com propósitos que no fundo ninguém conhece.

As interpretações estão exatas. E a direção não economiza nas tintas, mostrando sem pudor algum cenas de extrema violência. Assassinatos, muito sangue, estupros e rompantes escatológicos ocupam boa parte do tempo. Mas essa estupidez toda não é nada gratuita, sendo decisiva no processo de desumanização do protagonista. No seu enlouquecimento. A sombra o envolve dia a dia, desde que ele percebe não ser suficiente na vida a boa vontade e o diálogo. E o fechamento de tudo é enigmático. A ferida fica aberta, sem concluir processo de cicatrização. Assim como é a vida real.

09.04.2020

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