SETE CABEÇAS MAIS A MINHA

Ouvi a pouco mais uma vez a música Bicho de Sete Cabeças, melodia de Geraldo Azevedo e Zé Ramalho, com letra de Renato Rocha, na voz de Zeca Baleiro. É fácil encontrar na internet, mas a versão melhor não é de gravação ao vivo e sim em estúdio. Fica muito mais introspectiva e forte. É curta e devastadora, em especial se você também já assistiu o filme de Laís Bodanzky que leva o mesmo nome e a usa na trilha sonora. Porque, neste caso, o som age como uma chave que abre memórias afetivas intensas, que remete a uma história dolorosa que a diretora contou tão bem.

O filme é um drama realizado no ano 2000, feito com base no livro Canto dos Malditos, autobiografia de Austregésilo Carrano Bueno. Conta a história real de um jovem que é internado em um hospital psiquiátrico porque seu pai encontrou um cigarro de maconha no seu bolso. Na instituição o rapaz passa por inúmeras situações abusivas, sendo verdadeiramente torturado na busca da “cura”. No papel principal está Rodrigo Santoro, numa atuação precisa e convincente. Cássia Kiss Magro e Othon Bastos estão em outros papéis centrais. A distribuição foi da Columbia e a recepção pelo público e pela crítica, excelentes. Tornou-se o filme mais premiado nos festivais de Brasília e de Recife, ganhou o troféu da APCA – Associação Paulista dos Críticos de Arte, levando também o Grande Prêmio Cinema Brasil e recebendo várias outras indicações.

Pela oportunidade do tema, o filme acabou adotado pelos integrantes da luta antimanicomial, que ainda batalhavam pelo fechamento das instituições psiquiátricas tradicionais e sua substituição por serviços que pudessem de fato oferecer atenção integral e possibilitar a reinserção social dos pacientes. No Rio Grande do Sul já haviam conseguido legislação nesse sentido, no ano de 1992. O que só seria seguido, em âmbito federal, nove anos depois. Ou seja, após a exibição do filme. Na época do seu lançamento ainda existia distância considerável entre os textos legais e a realidade. O que infelizmente ainda ocorre hoje em dia, em certo nível, havendo quem justifique e defenda a internação e a medicação como únicos tratamentos resolutivos, mesmo sendo isso não raras vezes desumano.

O filme entrou, em novembro de 2015, na lista feita pela Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), que elencou os cem melhores de todos os tempos, entre os realizados em nosso país. E a música, essa tem uma história pitoresca, protagonizada pelos compositores. Geraldo Azevedo relatou que ele e Zé Ramalho haviam se dedicado muito na sua elaboração. Algo feito com muito cuidado, minuciosamente, a tal ponto que o paraibano Zé se apaixonou pela obra, que era apenas instrumental. E quando, sem que este soubesse, Geraldo autorizou o carioca Renato Rocha a colocar nela uma letra, seu colega se revoltou. Odiou mesmo o resultado e se recusava a aceitar a sua exibição. A solução conciliatória foi rebatizar o trabalho: quando na versão original, que se chamava Dezesseis Cordas – foi composta com dois violões, um de seis e outro de dez cordas, misturando música clássica, choro e música moura –, ela passou a ser Bicho de Sete Cabeças I. E quando com letra, Bicho de Sete Cabeças II. Assim é que foram registradas depois, quando do lançamento de um disco coletânea, o Minha História. Mas o que realmente importa – e duvido que isso tenha desagradado a quem quer que seja – é que ela se tornou verdadeiro hino.

“Não dá pé/ Não tem pé, nem cabeça/ Não tem ninguém que mereça/ Não tem coração que esqueça/ Não tem jeito mesmo/ Não tem dó no peito/ Não tem nem talvez/ Ter feito o que você me fez/ Desapareça/ Cresça e desapareça/ Não dá pé, não é direito/ Não foi nada/ Eu não fiz nada disso/ E você fez um bicho de sete cabeças”. São esses os versos que, embaralhados, são repetidos em mais de uma ordem na música, sempre com nexo, sempre gritando. Como Santoro grita tantas vezes no filme, negando crime, pedindo socorro. Versos com os quais Zeca Baleiro fecha a narrativa, sem dúvida com chave de ouro. A música e o filme falam em sete cabeças. Mas desde que conheci ambos, são oito: fizeram também a minha.

11.04.2020

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