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SOBRE MORTE ASSISTIDA

Tudo bem: o filme não passa de um drama com fundo romântico – ou de um romance com fundo dramático –, feito com todos os ingredientes necessários para comover, levando às lágrimas as almas mais sensíveis. Não se trata de uma obra prima e, acredito eu, nem se propunha a isso. Mas a realização é honesta e não há mal nenhum que se invista algum tempo para assistir. Falo de Me Before You (Como Eu Era Antes de Você), dirigido por Thea Sharrock e lançado em 2016. Estão nos papéis principais Emilia Clarke (Louisa) e Sam Claflin (William).

Ele conta a história de uma jovem de origem modesta e que não tinha grandes aspirações na vida, até ser contratada como cuidadora de um jovem tetraplégico. Ela é um tanto peculiar, com gostos duvidosos para a moda, por exemplo, tendo origem humilde. Ele é rico, está depressivo por razões óbvias, sendo que seu comportamento em alguns momentos beira o cinismo. Louise aceita o emprego porque sua família está enfrentando um grave problema financeiro. Will permite que ela fique, porque reconhece que esse está sendo o último esforço de seus pais, no sentido de buscar sua desistência da morte assistida, mesmo tendo ele a certeza da decisão já tomada. O que a moça faz é preparar o doente para que experimente a beleza da vida, embarcando com ele em uma série de aventuras para que, no mínimo, ele fique em dúvida sobre o que pretende fazer.

Tenho certeza que ninguém se surpreenderá se eu contar que termina havendo uma aproximação afetiva entre ambos. Afinal, essa é a receita mais óbvia das produções norte-americanas neste gênero. O que existe de novo é que enquanto ela vai descobrindo novos sentidos para a vida, ele está desesperado para abandonar a sua, devido às dores que sente, ao desconforto crescente que enfrenta. E isso não é deixado de mostrar, ao longo do filme. As coisas não são pintadas apenas de cor-de-rosa. Ou seja, com um pouco de boa vontade a gente pode aproveitar para uma discussão a respeito da eutanásia e seus limites éticos e morais. Por exemplo: as religiões em geral consideram o abandono voluntário da vida como uma fuga, que pode levar a consequências ainda piores do que o sofrimento físico. Mas, o quanto isso é real? E temos o direito de exigir que alguém enfrente um verdadeiro inferno, por medo de ir parar em outro que sequer tem certeza que existe?

A eutanásia é uma conduta deliberada, um ato intencional que visa dar a alguém uma morte indolor para aliviar o sofrimento causado por doença que seja extremamente dolorosa e incurável. Pode ser vista como um ato de compaixão, mas na legislação brasileira é considerada um crime. E não apenas aqui: na maior parte do mundo não existe amparo legal para essa providência. As exceções são cinco países da Europa (Holanda, Bélgica, Luxemburgo, Espanha e Suíça), além da Colômbia, na América do Sul, e ainda em dois dos três países que compõem a América do Norte (Canadá e EUA). Neste último, em cinco dos seus 50 estados.

Como Eu Era Antes de Você é quase um filme clichê. Mas carrega uma sutil diferença, tem boas atuações e uma trilha sonora transbordante de baladas daquelas que se ouve no verão. Que por aqui já está chegando, por sinal. Sobre a questão de a morte sempre ser algo que deva vir ao natural, isso permanece aberto para corações e mentes. Nunca será algo simples e sempre será algo individual. Até porque vir ao mundo, assim como sair dele, são dois momentos solitários. Mesmo que em ambos todos estejamos cercados de outras pessoas.

04.12.2022

Sam Claflin (William) e Emilia Clarke (Louisa)

O bônus musical de hoje é Perfect, de Ed Sheeren. Essa canção integra a trilha sonora de Me Before You. No clipe apresentado, algumas cenas do próprio filme.

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O NAVIO ENCONTRADO NO DESERTO

Uma descoberta surpreendente e lucrativa ocorreu no ano de 2008, em plena área desértica existente da localidade de Oranjemund, na região de Karas, no sudoeste da Namíbia. O nome da cidade vem do idioma alemão, significando Boca do Orange, uma vez que ela fica na margem norte da foz do Rio Orange, na fronteira com a África do Sul. Seus pouco mais de 4.000 habitantes se dedicam, em sua maioria, à mineração de diamantes. Mas o achado estava mesmo era repleto de ouro.

O vento movimentou dunas de areia no deserto existente ao longo da costa e descobriu parcialmente os restos de um navio português que havia afundado mais de 500 anos atrás. Obviamente, quando ocorreu o naufrágio ele navegava pelo Atlântico. Ele era o Bom Jesus, que fazia o caminho ligando Índia e Europa, carregado de tesouros, entre os quais lingotes de ouro e de cobre. As autoridades locais, depois de alertadas pelos mineradores que trabalhavam nas proximidades, enviaram uma equipe de especialistas para desenterrar todos os destroços. Também foram encontradas mais de duas mil moedas de ouro. Esse tesouro teve uma avaliação de aproximadamente R$ 13 milhões.

A explicação para o estranho fato de o navio ter sido encontrado alguns quilômetros dentro do continente é um fenômeno climático. Ao longo dos anos, houve o recuo das águas costeiras. Então, o local onde o navio naufragou, que era bastante próximo da praia, terminou se tornando uma ampliação da área do deserto. Ou seja, o deserto avançou sobre um espaço que antes era do oceano. O inusitado desta ocorrência foi ter sido ele encontrado fora do fundo do mar. Entretanto, não são poucos os navios que afundaram naquela região em tempos passados. Aliás, o local é conhecido como Costa dos Esqueletos, mas não por causa do número não determinado de marinheiros que podem ali ter perdido suas vidas. O motivo é a existência de muitos ossos de baleias e de focas, que cobrem grande extensão do território.

A razão principal dos naufrágios está nas correntes oceânicas, que não são nada favoráveis, somadas aos ventos fortes e à formação bastante fácil de neblina. Estima-se que mais de mil navios dos séculos 19 e 20 tenham sido perdidos por lá. E seguem ocorrendo casos na atualidade, apesar de todos os recursos modernos. Em 2018, por exemplo, o navio de pesca japonês Fukuseki Maru encalhou e foi depois tragado pelo mar, a dois quilômetros deste ponto fatídico. Felizmente os 24 tripulantes foram todos resgatados a tempo.

O deserto, que é um dos mais antigos do mundo – pouco anterior aos que existem no Chile e no Peru –, com mais de 55 milhões de anos, enfrenta média de 300 dias por ano de sol tão intenso que a temperatura atinge facilmente 60 graus Celsius durante o dia. Nas noites de inverno isso cai para 15 graus negativos, com a mesma facilidade. Ainda assim, até o século passado ele era habitado pelo povo indígena San, de caçadores-coletores. Eles já estavam por lá milhares anos antes do nascimento de Cristo, caçando e vivendo de um plantio bastante pobre. Hoje estão por lá hienas, leões e elefantes, além de muitos répteis e insetos. Moradores para os quais com certeza a riqueza descoberta no Bom Jesus não faria diferença alguma.

02.12.2022

Restos do navio Bom Jesus, descoberto no deserto. E mostra das moedas encontradas

O bônus musical de hoje é uma dança tribal do Makgona Ngwao, um grupo cultural da Namíbia.

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