A GENIALIDADE DE MAX BORN

Um dos cientistas mais importantes do Século XX foi Max Born. Fica um pouco difícil de enumerar-se o que ele fez, em virtude de sua produção integrar uma relação onde estão os conhecimentos mais complexos. Os que têm aplicação imensa para estudos científicos, mas não naquelas questões mais práticas, do cotidiano. Entretanto, apenas para que se determine o quanto é relevante o que ele produziu, vamos começar dizendo que foi um grande amigo de Albert Einstein, que nutria por ele enorme respeito. Mesmo que houvesse distância geográfica entre eles, mantinham uma considerável troca de cartas, o que foi feito por mais de quatro décadas e se tornou um acervo de extremo valor.

O conteúdo das missivas – difícil alguém que veio ao mundo em plena era de trocas de mensagens eletrônicas entender – iam de assuntos absolutamente pessoais até questões ligadas à física quântica e ainda ao papel que deveria ser desempenhado por cientistas, num mundo muito conturbado. Afinal, ao longo desse tempo todo, o mundo vivenciou duas guerras mundiais. Também dividiam informações sobre seus gostos, no que se refere à música.

Em uma dessas cartas, que foi enviada por Einstein em 04 de dezembro de 1926, ele escreveu um trecho que, depois delas terem sido tornadas públicas, acabou ficando famosa, pela forma quase didática como foi elaborado. “A Mecânica Quântica certamente é impressionante, mas uma voz interior me diz que ainda não é satisfatória. A teoria rende muito, mas dificilmente nos aproxima do segredo do Criador. De qualquer forma, eu estou convencido de que ele não joga dados.” Essa foi a forma com a qual ele externou sua recusa em aceitar a visão probabilística da Física Quântica. Na opinião dele, aceitar esse fato, dar importância ao que seja aleatório, seria uma forma de escapar da confissão, da admissão de uma incapacidade de se chegar até àquelas variáveis que pudessem permitir a construção de uma teoria completa.

Segundo a visão quântica, que descreve o comportamento da pequena porção da matéria composta por partículas atômicas e subatômicas, se torna perfeitamente possível afirmar que cada uma delas está e não está, ao mesmo tempo, em determinada posição. Ou seja, admite como muito possível e provável mais de uma alternativa simultânea. E Max Born foi sempre um dos principais defensores dessa suposição revolucionária. Ou seja, ele acreditava piamente que Deus joga dados, sim. Agora, se torna interessante verificar que os pontos de vista contrários jamais se tornaram razão para afastamento ou conflito. Porque isso não seria de modo algum interessante: ao contrário de posicionamentos políticos recentes, por exemplo, da divergência surge luz. E não aquela dos celulares sobre as cabeças: essas “luzes” estão é no interior delas.

Born explorou cada vez mais a fundo aquilo que sua teoria indicava como verdadeiro. E conseguiu, com isso, estabelecer boa parte das bases de uma Física Nuclear moderna, mesmo que não tenham seus esforços sido reconhecidos de imediato. Ganhou um Prêmio Nobel apenas 28 anos depois de ter concluído o seu trabalho, em 1954. Judeu polonês, nascido em 1882, formado nas tradições clássicas da ciência do Século XIX, teve que fugir do nazismo abrindo mão de sua cidadania e do doutorado que cursava. Acolhido pelo Reino Unido, sua preocupação intelectual estava focada nas consequências da ciência moderna para o Século XXI. E acreditava, por exemplo, que nenhum cientista tinha o direito de permanecer neutro, diante das consequências do seu trabalho.

Horrorizado com o uso militar das descobertas científicas, era defensor ferrenho da destinação humanitária do conhecimento. Ele entendia que, por mais distante que um trabalho científico possa estar da aplicação técnica dos seus resultados, existe a importância ética e moral, sendo ele um elo que integra a cadeia de ações e decisões que implicam no futuro, no destino da raça humana. E via que este poderia ser sombrio, de modo especial devido a decisões políticas e armamentistas. “Creio que ideias como certeza absoluta, precisão e verdade suprema, são produtos que não deveriam ser admissíveis em nenhum campo da ciência”, afirmou Born, certa vez. Posso acrescentar que nem da vida cotidiana, sem que isso contrarie o seu pensamento.

12.12.2022

O bônus musical de hoje é com Almir Sater: o áudio de Verdade Absoluta.

Verdade Absoluta, de Almir Sater

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