“A democracia alienada é a ditadura disfarçada”. Com essa afirmação tem início o clip oficial do samba-enredo que a Gaviões da Fiel, escola de samba de São Paulo, levou para as ruas no carnaval de 2021/2022. Anos e datas dos desfiles ficaram confusos, desde o início da pandemia. Ele resultou da junção de dois sambas que venceram concursos prévios, levando o título Basta!, assim com a exclamação final, o mesmo que foi dado ao enredo desenvolvido. Os compositores são tantos que, uma vez listados, parecem ser os integrantes de uma ala inteira da escola. Mas vamos lá, respeitando o fato de ser uma produção conjunta, colaborativa. São eles Grandão, Sukata, Jairo Roizen, Morganti, Guiné, Xerém, Ribeirinho, Cláudio Gladiador, Meiners, Japonês da Moóca, Claudinho, Julhyan, Luciano Costa, Felipe Yaw, Marcelo Adnet, Fadico, Júnior Fionda, Fábio Palácio (Mentirinha), Lequinho, Leonel Querino, Altemir Magrão, Sandro Lima, Marcelo Valente e Rodrigo Dias.

A escola cumpriu seu papel ao levar para a avenida uma crítica social, o que não é nenhuma novidade, nem em termos do carnaval em geral e muito menos da Gaviões em particular. O projeto vem assinado pelo carnavalesco Paulo Barros e, conforme sua concepção, conseguiu esparramar no asfalto problemas que vinham sendo enfrentados pela sociedade brasileira. Desfilando desde o ano de 1989, a escola é o braço carnavalesco da maior torcida organizada do Sport Club Corinthians Paulista, que foi fundada em 1969 e tem sede no bairro do Bom Retiro, na cidade de São Paulo. O primeiro título que obteve no Grupo Especial foi em 1995, com o enredo Coisa Boa é pra Sempre. Aquele feito é outro muito lembrado por quem ama o samba.

Mas, por que estou lembrando disso tudo agora? Primeiro que o final do ano se aproxima e a próxima festa de Momo já está programada, com ensaios sendo incrementados em breve. Em geral, deixam só passar Natal e Reveillon. Segundo, para mostrar o quanto esse clube e sua torcida vão além do futebol, mesmo sendo esse o seu foco principal. Vamos lembrar, por exemplo, que nas rodadas finais do Brasileirão desse ano foi essa torcida terminou com barreira feita por viúvas de Bolsonaro, na estrada, o que impediria sua ida até o Rio de Janeiro, onde enfrentou e venceu o Flamengo. Fizeram aquilo que as forças policiais não queriam fazer, permitindo que o trânsito voltasse a fluir com normalidade. O Corinthians, ao lado de Bahia, Vasco da Gama e um pouco também o Grêmio, são clubes que têm preocupação e serviços sociais atuantes.

Alienados seguem querendo romper com a normalidade democrática, em defesa da democracia. Segundo eles, lógico. Ou quem sabe seria melhor dizer “segundo eles, ilógico”? O atentado à gramática resultaria ao menos em uma compreensão mais próxima da realidade. Deixando essa discussão de lado, a Gaviões da Fiel foi a segunda escola a entrar no Sambódromo do Anhembi, no segundo dia dos desfiles. Eles ocorreram fora de época, no final de abril, ainda em decorrência dos problemas trazidos pela pandemia de Covid 19. Ela levantou o público, que cantou junto o samba nas arquibancadas.

Além da letra completamente engajada, também os quatro carros que estiveram no desfile compuseram com perfeição a história que estava sendo contada. O abre-alas homenageava o povo africano, mostrando como os escravizados chegaram ao Brasil. O segundo se referia à desigualdade, dando destaque para a escultura de uma criança negra diante de um prato com ossos. No andar de cima, apropriadamente se via um banquete. Na mesma estrutura móvel, cortiças e favelas, troca de tiros e a falta de oxigênio para tratar internados com coronavírus.

O terceiro simulava um incêndio na mata, mostrava a devastação ambiental e também a resistência dos povos originários. O último pedia paz e celebrava pessoas que lutam por justiça, citando personalidades como Nelson Mandela, Frida Kahlo, Mahatma Gandhi e o cacique Raoni, entre outros. A arte de fato, em muitos momentos, retrata com enorme perfeição a vida. E o Carnaval é uma das maiores expressões da cultura, arte e criatividade do povo brasileiro.

20.12.2022

O bônus musical de hoje é o clipe oficial do samba-enredo citado no texto acima. Com vocês, o excelente Basta!

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