NOVAS COMPANHIAS PARA O DIABO

O Inferno deve ter entrado em polvorosa, nos últimos tempos. Para receber dois novos moradores, que haviam feito reserva há muito tempo, tenho certeza que foi liberada a realização de uma festa grandiosa, com direito a tudo de ruim que a casa oferece. Afinal, dois adoradores do chefe supremo daquele ambiente voltavam ao convívio de seus iguais. Claro que nem todos os habitantes do lugar têm a mesma importância, o mesmo nível hierárquico de maldades. Nem mesmo os dois que foram agora: sempre há diferenças, características próprias, algum nível distinto de sadismo. Mas isso tudo é detalhe.

Há quem tenha preferido arrancar unhas; outros eram especialistas em introduzir fios de cobre na uretra dos rapazes e acender um isqueiro na ponta externa; alguns tinham orgasmos em utilizar cobras nas salas de tortura, o que Freud certamente explicaria. Quase todos eram letrados em pau-de-arara, afogamento, palmatória, Cadeira de Dragão e choque elétrico. Não era incomum ainda o uso de substâncias químicas, para fazer com que o preso confessasse até aquilo do que não tinha sequer conhecimento, como o conhecido pentatotal – a pessoa falava em estado de sonolência – ou mesmo ácidos jogados sobre o rosto das vítimas, causando dor, inchaço e até deformação permanente. Esse pessoal também defendia estupros e, no final, assassinatos eram apenas o fim previsível, o dano colateral. E todos, absolutamente todos, no fundo eram traidores da pátria que juravam amar e defender, pois violentavam sua história, seus filhos, seu futuro.

Morreu em Porto Alegre, na terça-feira, dia 8 de março, o delegado de polícia Pedro Carlos Seelig. Ele tinha 88 anos de idade e foi vitimado por um infarto, ainda decorrente de sequelas advindas da Covid, segundo os médicos. Durou dois meses, depois de internado pela pandemia. Mas, na hora de morrer, pode fazer isso em casa mesmo, exercendo um direito que nunca deu para as suas vítimas, que terminavam nos obscuros porões da ditadura. Foi ele, ao lado de Didi Pedalada, um ex-jogador do Internacional e colaborador da repressão, o responsável pelo rumoroso sequestro do casal de uruguaios Lilián Celiberti e Universindo Dias, ocorrido na capital gaúcha.

Seelig entrou na Polícia Civil aos 29 anos, como escrivão de terceira classe. No início de 1964 ingressou no temível DOPS – Departamento de Ordem Política e Social, mas num papel obscuro, burocrático e de fato desimportante. Passou então cinco anos em delegacias de polícia do interior do Estado, antes de voltar para o mesmo endereço, agora como delegado. Foi quando se tornou amigo do delegado Sérgio Fleury, que criara o temido Esquadrão da Morte, em São Paulo. Também estreitou relações com Carlos Alberto Brilhante Ustra, o ídolo de Jair Bolsonaro. A ficha funcional de Seelig tem manchas desde 1957, com registros de agressões e lesões corporais, o que ele pode continuar fazendo, durante a Ditadura Militar, com permissão e sem quaisquer riscos de responsabilização. E soube usar como poucos essa prerrogativa: torturava pessoalmente os “suspeitos” que caiam em suas mãos, com requinte e sordidez.

O ápice ocorreu quando, em fevereiro de 1973, determinou que fosse aplicado um “susto” em seu próprio filho adotivo, Luís Alberto Pinto Arébalo, de 17 anos, suspeito de ter furtado pequena quantia em dinheiro de uma associação comunitária. A ordem foi cumprida pelo mesmo trio de inspetores que lhes eram mais fiéis nesses “trabalhos”: Nelson Pires, Nilo Hervelha e Itacy Vicente. Eles levaram o menino para a “fossa”, como era chamada a principal sala de torturas do DOPS porto alegrense. Depois de meia hora de surra, de meia hora cada, estava em estado precário. Foi quando ouviu a voz de Seelig e chamou por ele. O delegado aparentou espanto com a ação dos subordinados, mas não mandou que interrompessem.

Houve mais vinte minutos de espancamento e lhe enfiaram uma mangueira com água pela boca. Depois de quase afogado, passou a noite agonizando e com frio, suando diante de um ventilador que ficou o tempo todo ligado. Pela manhã foi levado para o Hospital Sanatório Partenon, onde morreu quatro horas após dar entrada. O laudo de necropsia apontou “insuficiência respiratória aguda, consecutiva a afogamento parcial”, o que foi comprovado pela presença de plâncton mineral nos pulmões. Ninguém jamais foi punido por isso. Se era assim que o delegado agia com familiares, imaginem como era com estranhos.

Também agora em março, mas no dia 22, foi a vez de José Anselmo dos Santos, conhecido como Cabo Anselmo, despedir-se da vida terrena. Morreu em hospital na cidade de Jundiaí, no interior de São Paulo, devido a uma infecção renal. Esse era um informante que atuava infiltrado entre os jovens idealistas que combatiam a Ditadura Militar. Foi responsável por identificar e denunciar muitas vítimas que terminaram torturadas e mortas. O mais emblemático dos casos foi o da poetisa paraguaia Soledad Barrett Viedma, que era sua própria companheira. Ela foi assassinada, depois de submetida a violenta sessão de tortura, tendo seu corpo sido deixado dentro de um barril. Estava nua e tinha aos seus pés uma poça de sangue e o feto de quatro meses que até então levava em seu ventre. Era um filho do próprio Anselmo.

09.04.2022

A ditadura militar no Brasil fez amplo uso da tortura de presos políticos

O bônus de hoje é Como Nossos Pais, de Belchior, na voz de Elis Regina. Logo depois você tem o link de acesso para o texto publicado aqui mesmo nesse blog, sobre Soledad Barrett Viedma, no dia 09 de janeiro de 2022. Clicar sobre o título “O Assassinato de Soledade”, que está abaixo.

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A VELHA JOVEM GUARDA

Numa época na qual a TV Record tinha uma programação que não era contaminada pelo atual evangelismo pentecostal, quando buscava oferecer ao seu público entretenimento real e alguma dose de jornalismo, ela foi o canal que propiciou a criação de um movimento autêntico na música brasileira. O ano era 1965, mês de agosto. No dia 22 entrava no ar o programa Jovem Guarda, apresentado por um trio de cantores em início de carreira: Wanderléa, Erasmo e Roberto Carlos. O último já havia gravado a música Splish Splash, uma versão de Erasmo para a canção original de B. Darin e J. Murray, dois norte-americanos, feita em 1958 – ela chegou a ocupar a terceira colocação na cobiçada lista da Billboard Hot 100, o que não era mesmo pouca coisa.

Por aqui, com o sucesso repentino e explosivo do programa, Erasmo e Roberto emplacaram também sucessos como Vem Quente Que Eu Estou Fervendo e ainda Quero Que Tudo Vá Para o Inferno. Apesar dos títulos, eram letras quase ingênuas, que embalavam uma parcela mais alienada da juventude brasileira, enquanto outra preferia as letras de protesto que começavam a brotar, nos tempos nebulosos da ditadura militar que tinha apenas pouco mais de um ano. Ficaram no ar, com enorme audiência e ditando moda, até 1968. As gravações eram todas feitas no Teatro Record, em São Paulo, mas a atração era levada para várias outras capitais brasileiras, como Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belo Horizonte e Recife, essas em videoteipe.

As apresentações eram mais ou menos padronizadas, com os três que comandavam o espetáculo intercalando canções próprias com outras, de convidados especiais. Em função disso, terminaram lançando muito gente que também conseguiu ganhar notoriedade nos anos seguintes. Como Wanderley Cardoso, Rosemary, Jerry Adriani, Martinha, Antônio Marcos, Evinha, Waldirene, a dupla Leno e Lílian, e os grupos Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis e os Golden Boys, entre outros. Diante de todos, a plateia se descabelava e dava gritos histéricos, exaltando os “reis do iê-iê-iê”, como o pessoal passou a ser identificado. Esse nome era uma alusão a um filme dos Beatles, A Hard Day’s Night, que no Brasil foi rebatizado com essa expressão. Aliás, parênteses: eu sempre fico intrigado, tentando saber em que as pessoas encarregadas de darem títulos locais aos filmes estrangeiros se baseiam, porque existem verdadeiros absurdos.

Interessante citar que esse movimento “espontâneo” na verdade surgiu dentro de uma agência de publicidade, a Magaldi, Maia e Prosperi, que foi contratada para resolver um problema na grade de programação. Foram seus profissionais que propuseram preencher o horário das tardes de domingo com música, quando o governo decidiu proibir a transmissão de partidas de futebol ao vivo, evitando que manifestações populares contra o governo vazassem, sem o controle dos censores. Os militares jamais souberam, mas o título do programa foi inspirado na frase do revolucionário russo Vladimir Lenin. Ele dissera que “o futuro pertence à jovem guarda, porque a velha está ultrapassada”.

O apoio interessado das gravadoras e o aporte de várias campanhas publicitárias mantiveram a audiência crescente. Apenas na capital paulista a estimativa era de três milhões de jovens ligados, quando ele atingiu seu ápice. Números expressivos para aquela época. Assim, mesmo depois de tirado do ar, o programa rendeu notoriedade residual para muita gente. Wanderléa se manteve ao nível dos convidados que foram catapultados. Com o passar dos anos Roberto, acreditando piamente que de fato era um rei, passou a viver recluso em seu castelo. E sua aparição clássica se tornou o especial de final de ano, da Rede Globo, onde desfila as mesmas canções, roupas brancas e o repetido arremesso de rosas vermelhas que são antes beijadas – fora alguns poucos shows, para público seleto. Erasmo seguiu mais fiel ao seu histórico de roqueiro, envelhecendo com uma enorme dignidade e sendo ainda hoje referência para muita gente jovem. Mesmo com seus cabelos raros e ralos estando completamente brancos.

05.04.2022

Erasmo Carlos, Wanderléa e Roberto Carlos, os apresentadores da Jovem Guarda

O bônus de hoje é Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, de Roberto e Erasmo Carlos. Essa é sem dúvida uma das músicas mais lindas da dupla e foi composta em homenagem a Caetano Veloso, quando esse foi exilado em Londres, pela ditadura militar.

DICA DE LEITURA

JOVEM GUARDA: moda, música e juventude

O livro de Maíra Zimmermann aborda a emergência de um estilo de vida jovem nos anos 1960. Ele foi resultado de um grande esforço da indústria cultural, que buscava criar ídolos pop, com inspiração no modelo britânico. As transformações comportamentais do período são analisadas dentro do contexto da formação do mercado consumidor adolescente, associado ao início do prêt-à-porter no Brasil.

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