AMOR FORA DE SÉRIE

Vez por outra ouço alguém dizendo “isso é só futebol”, em geral quando o resultado de algum jogo não foi o que se esperava. Isso vale como uma espécie de consolo, para a própria pessoa ou para terceiros. Sem dúvida, a afirmação é verdadeira. Mas também não é. Ou seja, trata-se de uma verdade relativa. Isso porque a racionalidade, por um lado, nos lembra que se trata de um esporte, de um jogo. De algo que foi criado para ser diversão, lazer. Por outro, entretanto, existe todo um apelo fortemente emocional, uma ligação afetiva que se estabelece e passa a importar sim. E a importar muito. O torcedor verdadeiro sempre será um apaixonado. Há uma profunda ligação, identidade e pertencimento. Assim, derrotas não são apenas derrotas e vitórias valem muito além do que o placar conquistado.  

Estou publicando essa crônica na manhã da quarta-feira, 8 de dezembro de 2021. Ainda não sei, portanto, o que acontecerá amanhã à noite, quando estarão sendo disputados os jogos que compõem a última rodada do Brasileirão deste ano. Todos sabem que sou um apaixonado pelo Grêmio e que meu clube poderá ser rebaixado para a Série B, se não houver uma combinação muito favorável de resultados. Não nos basta derrotar o Atlético Mineiro, campeão por antecipação e melhor time da temporada. Precisamos que outros dois competidores percam seus jogos, para que possamos ultrapassá-los na tabela de pontos. Do ponto de vista probabilístico, estamos em séria desvantagem. E a lógica, não sendo contrariada, nos remete para o pior cenário. Mas eu irei até a Arena, carregando a mais sincera das esperanças. Não fosse assim e não seria digno de vestir essa camisa e ser chamado de torcedor.

Não haverá vergonha alguma em acompanhar o Grêmio contra Guarani e Ponte Preta, de Campinas; Náutico e Sport, de Recife; os paranaenses Londrina e Operário; Vasco da Gama, do Rio de Janeiro; Cruzeiro, de Belo Horizonte; Criciúma, CRB, CSA e mais alguns outros clubes que hoje habitam o segundo degrau, no próximo ano, se isso se tornar necessário. Já estivemos onde muitos consideram ser um inferno e voltamos de lá. Isso ocorrendo, temos que ter a grandeza de admitir nossas falhas e dignidade para buscar o retorno, dentro do campo.  Aliás, as falhas nem precisam ser admitidas: elas estão todas totalmente escancaradas na falta de critérios em contratações e dispensas, na falta de comando adequado no vestiário. Todo o sofrimento foi mais do que merecido e a queda, se vier a ocorrer, terá sido justa. O que não significa que a gente a deseje. Nesta quinta-feira não irá ocorrer resignação ao longo dos 90 minutos e dos eventuais acréscimos. Perder é do jogo, não lutar sempre é inaceitável. Apenas se lamenta que nosso futuro não esteja sendo decidido exclusivamente nas quatro linhas que teremos diante dos nossos olhos. Em outros endereços estaremos sendo representados por terceiros, que terão que fazer o que nós mesmos não fomos capazes de fazer. Mas, se até Deus escreve certo por linhas tortas, por que não acreditar numa conquista indireta?

Não se abandona quem se ama, quando esse alguém está doente. Não se desiste da vida, enquanto existe a mais tênue esperança. Exageros comparativos à parte, vamos nos permitir continuar sonhando, até que o juiz dê o apito final. Afinal, não é só futebol, mas muito mais do que isso. É um amor incondicional. Um amor fora de série. Fora mesmo: pode ser na A ou na B que seguiremos “com o Grêmio onde o Grêmio estiver”, como está no hino composto por Lupicínio Rodrigues. A Arena nos espera amanhã – conclamo todos os gremistas – e o futuro haverá de nos reservar muitas e muitas glórias ainda.

08.12.2021

No bônus de hoje, Maria Bethânia. Primeiro ela interpreta o poema Apesar das Ruínas e da Morte, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Depois, prossegue com a música Sonho Impossível, uma versão feita por Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra, da canção norte-americana The Impossible Dream, de Joe Darion e Mitch Leigh. Sophia (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas do Século XX, tendo sido a primeira mulher portuguesa a receber o maior galardão literário do nosso idioma: o Prêmio Camões, em 1999.

NO FUTEBOL, O SOFRIMENTO É ESSENCIAL

Não somos nem masoquistas e nem sádicos. Ao menos, posso afirmar, não em nível patológico. Mas quem conhece, ama e vive o futebol tem que admitir que é impossível ser torcedor sem conviver com esses sentimentos extremos de amor e ódio, de alegria incontida e sofrimento inenarrável. Sem a busca do êxtase que ambos podem propiciar, por razões distintas. “Hinchas” (fãs) argentinos, passionais como qualquer bom tango, que o digam. Se tem uma frase que os distingue é “Em las buenas siempre y em las malas mucho más”. Essa incondicionalidade é a essência desse esporte. E nós gaúchos, aqui pertinho dos “hermanos”, os entendemos muito bem. Porque somos idênticos no modo de torcer.

Outra característica é que, além de incondicional, esse sentimento é eterno. Podem nos pedir qualquer coisa, menos que a gente abandone nosso clube. A gente troca de cidade, de trabalho, de companheira ou companheiro e até de religião. Podemos alterar hábitos os mais variados, mas nunca, nunca mesmo se irá desistir das cores que tomaram conta do nosso coração. E se alguém que você conhece fez isso, não era um torcedor verdadeiro. Nunca tinha de fato sido tocado pela verdadeira febre, não terá a marca de fogo impressa na alma e muitas vezes tatuada na pele. O torcedor extremo, que na verdade é o único que de fato existe – se não for extremo é no máximo simpatizante e todos nós odiamos esse termo morno –, sofre até quando perde o cara ou coroa que sorteia os lados do campo para o início de uma partida. Vibra com carrinho, com escanteio, usa a camisa em todos os jogos, canta os mais absurdos cânticos, gasta o que não tem para garantir ingressos.

Esse torcedor comemora vitória em amistoso, transborda de alegria quando ganha um título. E quando perde, pode até chorar escondido. Mas estará de volta na arquibancada ou na frente da televisão, no próximo compromisso do seu time. Ele fica louco e critica os dirigentes que não contratam quem gostaria. Busca no aeroporto o suposto craque que chega. Sem abrir mão, lógico, do seu direito de amaldiçoar cinco gerações do mesmo atleta, quando ele perder um gol. E vai voltar a fazer juras eternas ao mesmo, tão logo ele aproveite a próxima chance criada.

Eu, particularmente, me enquadro em várias dessas características que acabei de citar. Só nunca fui em aeroportos nem tatuei distintivo ou taça no corpo, porque seria mesmo um exagero. Mas já estive em jogos do Grêmio, de Criciúma ao Maracanã, de Erechim ao Mário Cini onde o time reserva enfrentaria o Pratense. Já trabalhei como repórter de campo em Gre-Nal, tendo que ser profissional na descrição de gol daquele que é o maior adversário. Muitas vezes voltei para casa arrasado por dolorosas derrotas. Mas já comemorei Libertadores no Olímpico e no Parcão. E, o maior de todos os orgulhos, dividi essa paixão com a minha filha Bibiana. Em algumas dessas ocasiões vitoriosas ela estava comigo. Em vários momentos menos felizes, um consolou o outro.

Estou escrevendo isso quando o tricolor está num incômodo lugar, entre os últimos colocados no Brasileirão deste ano. E quando faltam oito dias para um Gre-Nal que poderá ser verdadeira encruzilhada para o nosso destino, nessa e na próxima temporada. Pior é que entre o dia de hoje e esse confronto ainda teremos duas partidas, contra vice-líder e líder da competição. Desse jeito, estou quase querendo ver se temos uma funda e uma pedra, para cada um desses três complicados jogos. Vai que alguém do nosso lado incorpora um David. Fé nós também ainda temos, mas claro que não vai aqui nenhuma comparação: faço apenas uso de uma figura. Aliás, a propósito disso, o estudioso da Bíblia, Joel Baden, professor na Universidade Yale, afirma em seus estudos que o confronto não se deu bem assim, que não houve a morte do gigante naquele momento. No seu livro David: a vida real de um herói bíblico ele tenta recuperar a imagem histórica e remover as lendas, daquele personagem igualmente amado por judeus e cristãos, uma vez que foi um dos maiores reis de Israel e ancestral de Jesus.

Voltando ao futebol, onde as batalhas são apenas simbólicas, repito o que afirmei no título: o sofrimento é essencial. E acrescento que uma das vantagens é que ele nunca se torna definitivo. O derrotado pode se reerguer, o vitorioso não raras vezes é surpreendido depois. E ser também surpreendido é o que mais quero, por esses dias. Até porque novas derrotas não seriam surpresa nenhuma. Agora, que fique bem claro e de antemão: aconteça o que acontecer, em 2022 vou como sempre estar no lado azul da força, esteja ela onde estiver.

29.10.2021

No bônus musical de hoje, Titãs. A música, bastante apropriada para o momento, tanto clubístico quanto da política brasileira, é Enquanto Houver Sol. Enfim, haveremos de encontrar saídas.