O título dessa crônica é também o nome de doença psiquiátrica que está acometendo boa parte da população brasileira. Ela foi inoculada por um “vírus virtual”, algo que pode soar absurdo, mas que tem lógica e se trata de uma inquestionável e perturbadora realidade. Todo ser humano busca uma coerência entre as suas cognições – o conhecimento, as crenças e as opiniões –, e isso é compreensível. A dissonância ocorre quando fica estabelecida uma incoerência entre as atitudes e os comportamentos os quais acredita serem corretos, com aquilo que realmente termina sendo a prática. A Teoria da Dissonância Cognitiva foi proposta pelo psicólogo Leon Festinger, de Nova Iorque, em 1957. E o acréscimo ao conceito, com a qualificadora “coletiva”, se trata de uma contribuição de João Cezar de Castro Rocha, que é professor de Literatura Comparada na Universidade Federal do Rio de Janeiro, sendo doutor em Letras e escritor. Ele identificou esse comportamento sendo generalizado pela presença das redes sociais e está produzindo um livro sobre o tema.

Que outro motivo se não uma doença perturbadora levaria um grupo de gaúchos, da cidade de São Leopoldo, a cantarem perfilados, em posição de sentido, o Hino Nacional para uma caixa gigantesca de Cloroquina? Pois fizeram isso, em março de 2021, além de baterem continência para a reprodução da embalagem do remédio inócuo contra a Covid 19. Que outro motivo se não algum transtorno mental levaria manifestantes, na cidade de Irati, no interior do Paraná, a colocarem um pneu furado no meio da pista de uma rodovia e, ao seu redor e em sua homenagem, também cantarem o mesmo hino – para eles, os versos pomposos do poeta Joaquim Osório Duque-Estrada agora se tornou um mantra. Pois fizeram isso, em novembro de 2022.

Um terceiro exemplo, ou terceira vergonha, outra vez aqui no Sul, se deu quando porto-alegrenses que ocupavam as proximidades de quartel do Exército, localizado no Centro Histórico, puseram seus celulares sobre a cabeça e fizeram sinais com as lanternas, enviando pedido de socorro para extraterrestres. Buscavam apoio para uma intervenção que impedisse a posse de Lula e assegurasse a permanência de Bolsonaro como presidente. Ou seja, mesmo com os pedidos ao Divino, através das orações que muitos deles seguem fazendo ajoelhados nas vias públicas, resolveram assegurar outra alternativa de solução que também viesse dos céus.

Esses poucos exemplos que eu citei acima, pinçados entre centenas de outros, revelam um comportamento de seita fundamentalista. Não por acaso o seu líder tem o nome de Messias, sendo chamado de Mito. Mas, estamos agora diante de uma situação nova e preocupante. Porque essa liderança perdeu o poder que tinha e a turba que o representa segue acéfala e mantendo convicções disfuncionais, que não lhes permite ver o mundo real. Ou seja, prosseguem as loucuras e os delírios; a crença de que possuem a verdade absoluta. Assim, não há nem haverá espaço algum para negociações.

A questão é que toda e qualquer seita depende de uma profecia, de um líder salvacionista que se oferece em algum momento em sacrifício pela causa. Bolsonaro, ao contrário, jamais se portou nem se portaria desse modo. Ele tende a sacrificar a causa para salvar a própria pele e seus interesses. O que fica claro no seu silêncio, mantido enquanto seguidores tomam chuva, passeiam pendurados em caminhão, batem no peito e pedem uma ditadura militar. Tudo sem qualquer orientação e muitos perigosamente armados, esperando a chance de acender o estopim de uma bomba. O que as esquerdas parecem não estar dispostas a oferecer.

Mas, voltando à doença, fruto do uso de algoritmos e de redes sociais para disseminação massiva de notícias falsas, da doutrinação pseudo cristã e da guerra cultural, a questão é sabermos se existe cura. Se existe forma de se consolidar a fratura que ela causou no tecido social e na sociedade democrática. Se podemos voltar ao tempo no qual as manifestações de afeto, as interações sociais ocorram sem a intermediação tecnológica ou ao menos de modo paralelo com elas.

João Cezar de Castro Rocha propõe que hoje existe um fenômeno que é inédito em toda a história da humanidade. Denomina isso de “midiosfera extremista”, que seria composto de cinco características ou elementos. Os quatro primeiros conformam um ecossistema de desinformação e teorias conspiratórias, que mantêm as pessoas reféns de uma ilusão próxima aos delírios paranóicos: são as correntes de WhatsApp; um circuito integrado de canais de YouTube, como uma usina produtora de conteúdo audiovisual direcionado; as redes sociais, que eram dominadas até recentemente quase que com exclusividade pela extrema-direita; e aplicativos como o Facebook e o Manu. Essa atuação conjunta e permanente mantêm as pessoas reféns, pela circulação ininterrupta de narrativas polarizadoras e criando alguns inimigos imaginários. Também levam seus participantes a recusar qualquer outra fonte de informação. O quinto elemento precisa ser um que integre a mídia tradicional, para ser aquele que legitima e dá aval às mentiras trazidas pelas demais. Agora quem cumpre esse papel é a Jovem Pan.

O contraveneno está em considerarmos seriamente a necessidade e a importância da cultura, não como um evento, mas como uma forma essencial, uma ferramenta que nos permita ler toda a complexidade do mundo. Com ela se molda o cotidiano e, portanto, se reconfigura a realidade que está distorcida. A “cura” é o esclarecimento, que uma vez realizado impede ao natural a eleição de qualquer excrescência. Agora, esse é um processo lento, que exige dedicação e sobretudo paciência. Além de informação precisa e conteúdo sólido, evidentemente. Então, que venha logo, por exemplo, o livro agora anunciado pelo professor Castro Rocha.

08.12.2022

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2 Comentários

  1. Pela primeira vez leio algo que pode explicar essa insanidade que acomete os bolsonaristas. Parece que a cada dia estão pior! Lamentável

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