Tempos atrás li matéria publicada em jornal, sobre o setor de achados e perdidos do Trensurb, empresa que faz ligação férrea entre Porto Alegre e algumas cidades de sua região metropolitana. Haviam coisas incríveis, que a gente não consegue sequer imaginar como alguém consegue deixar nos vagões, sem se dar conta, ao desembarcar. Dentaduras e muletas, por exemplo. No primeiro caso talvez a pessoa só tenha se dado conta do extravio ao fazer a refeição seguinte. No segundo, a ideia de um milagre divino é a que primeiro deve ocorrer a quem lê – se Cristo anda até trepando em galhos de goiabeira, nos últimos tempos, por que cargas d’água não poderia ser encontrado em viagem de trem? –, mas o mais provável é que o objeto estivesse sendo transportado não pelo seu usuário. Sem elas esse não se levantaria para sair, se é que conseguira sentar antes, uma vez que os trens estão em geral circulando com uma lotação muito além do recomendável.

Agora, se isso parece absurdo, imaginem então o que se pode dizer do fato de que três bombas atômicas norte-americanas sumiram e ninguém, naquelas forças armadas que vivem se orgulhando da sua suposta excelência, sabe informar com exatidão onde foram parar. Um dos casos aconteceu em Palomares, na Espanha – como eles gostam de movimentar cargas e outras coisas perigosamente letais, longe do seu território. O ano era 1966 e nada menos do que quatro artefatos termonucleares caíram de dois aviões militares que se chocaram em pleno voo. Três foram recuperados, mas um deles, entretanto, nunca mais apareceu. Deve ter sido tragado pelo Mediterrâneo, levando consigo enorme capacidade de destruição: o equivalente a 1,1 milhão de toneladas de TNT. Adiante, falo das outras duas também perdidas.

Agora, um sustinho extra, se você for uma pessoa impressionável: esse não foi um caso isolado. No total, 32 foram reportados desde a década de 1950, período no qual se iniciava a Guerra Fria. Chegou a ser dado um “nome técnico” para esse fato: no jargão militar essas bombas que saem do controle operacional, sendo ou não encontradas depois, são chamadas de “flechas perdidas”. Algumas delas foram ejetadas dos aviões em momentos de emergência grave, a imensa maioria tendo sido recuperada depois. Outras chegaram a ser disparadas por engano, mas também acabaram recolhidas sem que explodissem. Só que esses números oficiais são considerados inconfiáveis, porque muitas nações sequer notificam alguns casos, devido à repercussão negativa que eles causariam.

Um ano antes do incidente em território espanhol, durante exercício de treinamento do navio USS Ticonderoga, um avião Skyhawk A4E, com uma bomba nuclear B-43 no seu interior, estava sendo conduzido para um dos elevadores quando lentamente foi se inclinando e aproximando da borda. A tripulação que se encontrava no convés tentou fazer com que o piloto se desse conta do fato e acionasse os freios. O jovem tenente não percebeu os acenos e terminou, junto com o avião e a bomba, indo para o fundo do mar das Filipinas – outra vez longe, como convém. Até hoje permanecem por lá, em local não determinado com exatidão, mas em profundidade avaliada em quase cinco mil metros.

Faço o terceiro relato, seguindo retroativamente no tempo. Esse foi no dia 5 de fevereiro de 1958 e, pasmem, ocorreu nos EUA mesmo. Uma bomba termonuclear Mark 5, pesando 3,4 toneladas, foi carregada em um bombardeiro B-47. Ele e outro idêntico partiram em longa missão de treinamento, simulando um ataque à União Soviética. O alvo seria a capital russa, Moscou, substituída por Radford, na Virginia. Os aviões partiram da Flórida, para testar sua capacidade de voos com armas pesadas por muitas horas a fio. Quando estavam retornando para sua base, se encontraram com outro grupo militar que fazia manobras na Carolina do Sul.

Algum oficial muito inteligente, desse segundo grupo, resolveu aproveitar o fato e interceptar um dos B-47. Mas erraram não só por de fato atingir o avião, como fizeram isso justo com aquele que tinha em seu bojo a arma real. Coisa de gênio. O piloto teve que lançar a bomba no Atlântico, fazendo depois um pouso de emergência. O que se sabe é que o artefato caiu nas águas próximas da ilha Tybee, por sorte não sendo detonado. Segue no fundo do mar até hoje, em lugar não determinado, apesar das dez semanas de buscas feitas na época.

Vejam que nosso planeta é um lugar muito seguro, graças ao homem. Na atualidade existem 12.705 bombas atômicas, em nove países. Pelo menos esse é o número oficial. Mas dois deles têm perto de 90% do total: a Rússia (6.000) e os EUA (5.500). As outras, que somam algo perto de 1.200, estão na China, França, Reino Unido, Israel, Paquistão, Índia e Coreia do Norte. Ou seja, para que não haja a destruição da Terra, temos que confiar no discernimento de alguns líderes políticos. Isso que muitos deles não têm se mostrado assim tão racionais. Um último detalhe: o custo para a criação e manutenção desse arsenal poderia ter resolvido a questão da desigualdade econômica e social, que é o maior dos flagelos que atinge a humanidade.

02.09.2022

Bomba atômica: a arma mais letal inventada até hoje

O bônus de hoje é As the World Caves In (Enquanto o Mundo Desaba), de Matt Maltese, um cantor e compositor inglês que mistura elementos de indie pop e indie rock, no seu estilo.

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