O FASCISMO NA UCRÂNIA

Toda e qualquer guerra, por mais que se busque encontrar para ela uma justificativa, não deixa de ser uma irracionalidade. Se torna nova prova cabal e quase definitiva da incapacidade humana de sermos ao mesmo tempo racionais e empáticos, capazes de entender quaisquer questões também por ponto de vista oposto ao nosso. E esses conflitos, que são sempre decididos pela força maior ou pela eficiência no uso dos recursos militares disponíveis, atualmente têm um ingrediente novo e tão ou mais importante, que é o domínio das informações e o controle das narrativas. Já citei aqui mesmo no blog, em outro texto meu – Sobre Rússia e Ucrânia, em 28.02.2022, cujo link deixo abaixo –, a frase que é atribuída ao dramaturgo grego Ésquilo: “numa guerra, a primeira vítima é sempre a verdade”. Mesmo sem a comprovação sobre ser de fato de sua autoria, ela é precisa. E está ocorrendo mais uma vez agora, talvez como uma intensidade jamais vista antes, no conflito entre Rússia e Ucrânia.

Minha avó materna usava algumas expressões de origem na agricultura (ou ao menos no campo), por assim dizer, que caberiam todas para qualificar o presidente russo Vladimir Putin: não é trigo limpo, não vale o feijão que come e não é flor que se cheire. Vários de seus adversários políticos, por exemplo, sofreram estranhos envenenamentos e perderam a vida ou ficaram com sérias limitações, nos últimos tempos. Mas o enorme esforço da mídia ocidental para dar a ele a culpa exclusiva em relação à guerra que está ocorrendo, soaria apenas patética, não fosse meramente resultado da falta de apuração dos fatos ou do atrelamento a interesses mais do que conhecidos e um tanto escusos. Algumas vezes foi citado o expansionismo alarmante da OTAN, que fora criada no tempo da Guerra Fria e que em tese agora já nem seria necessária, como uma forma de ameaça constante contra a qual a Rússia já havia inúmeras vezes protestado. Em outras, essas com um esforço elucidativo ainda bem menor, comentaram sobre o Batalhão Azov. Mas, em ambos os casos e com destaque para o segundo, com pudores exagerados e uma espécie de medo das repercussões de análises mais profundas.

Volto ao tema da guerra agora justamente para propor uma reflexão sobre a existência de uma organização que oscila entre a invisibilidade e o terrorismo. O Batalhão Azov foi fundado a partir da atuação paramilitar de ultranacionalistas ucranianos, remanescentes dos colaboracionistas que apoiaram o exército invasor de Hitler, na Segunda Guerra Mundial. Por lá também existe um braço político, com partido que lhes dá sustentação: o Svoboda. Fortemente armados e defendendo abertamente ideias neonazistas, eles se estabeleceram no leste e no sul da Ucrânia, especialmente nas áreas onde sempre houve um desejo separatista também forte. Falo de Donetsk e Luhansk, que formam a região de Donbass. A imensa maioria de sua população é de origem russa, sendo inclusive idioma e muitos costumes também compartilhados com moradores do outro lado da fronteira. Famílias inteiras sempre estiveram divididas apenas pela linha imaginária que distingue um e outro território. Natural, portanto, o desejo da região ser integrada à Rússia ou, pelo menos, obter a sua independência. 

Assim, havendo uma dificuldade de ação direta do exército ucraniano, o governo central optou por fazer vistas grossas para as ações do Azov. E essas atividades incluíam crimes como ameaças, saques, cobrança por “segurança” – ao melhor estilo dos milicianos cariocas –, estupros e muitos assassinatos, que vinham acontecendo pelo menos desde 2013. Só que o resultado foi aumentar a vontade dos habitantes locais de se afastarem de Kiev, tendo maior aproximação com Moscou, a quem passaram a pedir um auxílio necessário para sua sobrevivência, que não vinha da própria capital. Importante salientar que o Azov não é composto apenas por ucranianos. Fanáticos da extrema direita de várias partes do planeta passaram a usar aquele território como uma verdadeira escola para a formação de mercenários, com aulas de guerrilha e de tortura. Muitos brasileiros inclusive estiveram e estão por lá. Esse “intercâmbio” era visto, por exemplo, com a presença de bandeiras ucranianas nas manifestações bolsonaristas, nos últimos anos. Tem que ser ressaltado que as ações extremistas iam muito além da manutenção do grupo armado, incluindo até influência na fanatização de crianças e jovens. Fotos que ilustram esse texto mostram treinamento de grupos infantis feitos bem antes da guerra, com o ensinamento de manuseio de armas de fogo.

Sob forte ataque russo e com muitas baixas, o grupo foi aos poucos se deslocando mais para o sul, com uma concentração maior na cidade portuária de Mariupol. Devido à enorme importância estratégica que tem o local, mas também por essa presença, os bombardeios russos foram sendo intensificados. Em alguns momentos Moscou ofereceu que fossem estabelecidos corredores humanitários, mas o sucesso foi pequeno. Isso porque os ultranacionalistas não permitiam a retirada da maioria dos civis, que lhes servem de escudos humanos e de propaganda contra os “comunistas desumanos”, que não deixam de atacar mesmo havendo muitos idosos, mulheres e crianças no local. Hoje estão cerca de dois mil desses mercenários, com um número não determinado de soldados ucranianos da 36ª Infantaria Naval e centenas de inocentes, ocupando os túneis que existem no complexo siderúrgico e metalúrgico da cidade. Isso deixa o exército russo numa “sinuca de bico”: se ataca, mata quem não deveria morrer; se apenas mantém o cerco, essas mesmas pessoas morrerão de fome, porque a comida escassa não será distribuída para ninguém além dos homens armados.

Interessante é que existem centenas de relatos sobre a ação criminosa dos extremistas do Azov, em especial de 2014 para cá. Até 2021, estimativas apontavam que quase 11 mil pessoas foram mortas por eles e 1,4 milhão terminaram deslocadas das suas residências. São textos e também uma grande cobertura fotográfica disponível. Entretanto, boa parte da imprensa não busca essas informações para rechear seus relatos, preferindo usar apenas aquilo que agências de notícias ocidentais repassam. As mesmas, por exemplo, que mostraram um tanque ucraniano passando de propósito sobre um automóvel ocupado por civis, garantindo que ele era russo. Depois, como ficou evidente o “equívoco”, uma vez que aquele modelo sequer integra o armamento russo, precisou voltar atrás, confirmando que o crime não havia sido perpetrado pelos invasores. William Bonner foi um dos que leram constrangidos uma nota esclarecendo o fato.

Para concluir, que fique claro: não se deve acreditar que existam nem mocinhos nem bandidos declarados. Ambos os lados têm suas culpas e responsabilidades, sendo necessário terminar com essa explicação simplista que ocupa noticiários e redes sociais. O que se precisa é que isso tudo termine logo. Para que menos vidas sejam perdidas e menos desculpas possam ser dadas, para tantos acontecimentos na economia e na política, com gente aproveitando o conflito como cortina de fumaça para situações que são causadas por motivos bem diversos.

27.04.2022

Você realmente deseja que o Brasil se transforme em território de milícias e mercenários armados pela extrema-direita?

Mulheres e crianças ciganas são amarradas em postes por neonazistas em Lviv, na Ucrânia.
Seus rostos foram pintados com o corante zelyonka, difícil de ser removido e que provoca queimaduras na pele e nos olhos.

O bônus de hoje é uma versão da música ucraniana Kukushka (Cuco), feita por Daria Volosevich. O vídeo foi produzido na região de Donbass, cidades de Luhansk e Donetsk, quando ainda o que ocorria era uma guerra civil. Está legendado em português.

DICA DE COMPRA

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FERTILIZANTES E NOTÍCIAS PLANTADAS

O governo Bolsonaro segue com seu fascínio com tudo aquilo que diz respeito a bovinos. Estimula o desmatamento para a ampliação da área de criação de gado no país, mesmo a floresta preservada valendo muito mais também em termos financeiros – nem vou abordar aqui todas as vantagens ambientais. Aproveita a pandemia para “passar a boiada” com projetos de aniquilação de todo o aparato de fiscalização, que já era menor do que deveria, nas áreas mais diversas. E agora vem forte com outra manada, tentando se aproveitar de uma guerra que acontece lá no extremo leste da Europa para exterminar de vez com a nossa população indígena e mais áreas preservadas. E com tudo isso ainda tem quem se sinta ofendido, quando qualquer crítica é feita a ele, tomando isso como algo pessoal. Mas enfim, não se pode exigir que todos primem pela inteligência.

Está na Câmara dos Deputados um projeto, que os governistas pretendem seja votado em regime de urgência, autorizando a mineração ilimitada em reservas indígenas. A alegação é que essas regiões são ricas em minerais que precisariam ser utilizados para a produção de fertilizantes, que não se poderia mais importar da Rússia, devido a sanções impostas àquele país, em função do conflito em curso com a Ucrânia. O conhecido “Centrão”, formado por todos aqueles deputados fisiológicos e que estão pouco se lixando para os interesses da nação brasileira, desde que os seus sejam atendidos, está em polvorosa. Há bilhões de reais em jogo e eles sabem que a fatia que lhes caberá vai ser generosa. O tal projeto, que tem enorme possibilidade de ser aprovado, autoriza inclusive que o presidente da República possa permitir direta e pessoalmente que a exploração de qualquer área seja iniciada, antes de verificação técnica, de comprovação de viabilidade econômica ou decisão judicial se houver disputa. E até mesmo se os indígenas da área foram contra. Isso “pelo bem do país”, que não poderia ter a sua produção de alimentos ameaçada.

Então, vamos relembrar aqui alguns fatos. Em abril de 2016, com Michel Temer já tendo assumido a presidência, depois do golpe contra a presidente eleita Dilma Rousseff, a Petrobrás recebeu ordem para interromper o projeto da sua Unidade de Fertilizantes 4, na região norte do Espírito Santo. Dois anos depois, ainda no período de Temer, foi descontinuado também o projeto da Unidade de Fertilizantes 5, essa em Minas Gerais. Em julho de 2019, sob comando de Bolsonaro, uma nova ordem foi dada para que a empresa abandonasse o projeto em implementação de uma unidade dedicada à produção de fertilizantes nitrogenados, no município de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. No mesmo ano, também com determinação exarada a partir de decisão palaciana, foi interrompida a operação de uma fábrica de fertilizantes em Sergipe. Por último, também cessaram a produção de fábrica existente na Bahia. Essa última decisão deixou o país totalmente vulnerável e dependente da importação do produto.

A imprensa tem informado, mas de um modo um tanto tímido, que o Brasil tem várias minas inativas que, se fossem postas em funcionamento outra vez, atenderiam a demanda interna SEM A NECESSIDADE de novos pontos de produção. Ou seja, mantendo as áreas de preservação que são ocupadas por povos originários. Também há estudos geológicos que apontam não serem suficientemente interessantes, em termos de volume, eventuais jazidas que existam nessas mesmas áreas. A questão é que o governo sabe disso: apenas a população está desinformada. Só que se for dada essa permissão, outros minérios também serão explorados e o volume da propina vai ser muito grande, indo além da enorme que já deve estar assegurada. Sem contar o ódio que o fascismo tem de índios – do mesmo modo que tem de negros –, que teriam acelerado o seu processo de aniquilação.

Para que não pareça ser esse um caso isolado, se pode dar vários outros exemplos da destruição proposital da estrutura que se vinha antes construindo, feita agora para atender interesses externos. Afinal, o que se pode esperar de um governante que bate continência para a bandeira de outro país? Seguindo no âmbito da Petrobrás, as refinarias estão sendo vendidas uma por uma para empresas estrangeiras, o que nos deixa cada vez mais reféns na questão energética. Também há casos que são evidentes, como a recente privatização do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), em Porto Alegre, uma fábrica de chips criada durante o segundo mandato de Lula, a única do setor em toda a América Latina. Ela tem a capacidade de desenvolver, projetar e fabricar semicondutores de silício, sendo seu controle estratégico para o desenvolvimento nacional. Essa questão ainda não está fechada, devendo ocorrer uma disputa judicial contra o processo. Mas estamos perdendo portos, aeroportos, entregando a Eletrobrás, já se implodiu com a indústria naval que vinha florescendo e a lista de danos segue com inúmeros outros itens.

Agora, o que também tem prosseguimento é a batalha da desinformação. Temos todos os dias notícias descaradamente plantadas na mídia, que se somam à enxurrada de fake news disparada nas redes sociais. São elas que fazem o gado acreditar que a destruição na verdade não ocorre e sim um avanço; que a corrupção acontecia antes, não existindo mais nem sinal dela atualmente. Essa história da mineração em terras indígenas ser imprescindível é apenas mais uma das tantas balelas. Pode ser a mais recente, mas na certa não será a última.

14.03.2022

O bônus de hoje é a música muito apropriada Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho. Mas, logo depois, você também pode acompanhar uma explicação extra, muito didática e plena de informações, a respeito das razões pelas quais os combustíveis estão demasiado caros no Brasil.

DICA DE LEITURA

O TERCEIRO PRATO: notas de campo sobre o futuro da comida (Dan Barber – 480 páginas)

Ao imaginar o que estaremos comendo daqui a 35 anos, o premiado chef norte-americano Dan Barber parte de uma rica pesquisa para propor nada menos que uma revolução na maneira como produzimos e consumimos alimentos. De pequenas fazendas no interior da Europa à mesa dos mais prestigiados restaurantes do planeta, Barber apresenta neste livro experiências inovadoras que apontam o caminho para um futuro de comidas ao mesmo tempo mais sustentáveis e (ponto fundamental para o chef) saborosas. O terceiro prato defende um passo adiante nas conversas sobre comida. A desconfiança diante da agroindústria e seu uso intenso de fertilizantes químicos e pesticidas pode ter gerado um movimento importante, mas para Barber mesmo a alimentação hoje saudada como consciente é prejudicial ao meio ambiente e não produz alimentos gostosos de verdade.

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