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SERTANEJO DE QUALIDADE

A música sertaneja, que hoje é “epidêmica” em todo o território nacional, até os anos 1970 se restringia ao interior de São Paulo, Minas Gerais e Goiás. Vivia literalmente num mundo à parte, distante dos grandes centros urbanos e sem nenhum alcance onde outros regionalismos eram preponderantes, como no nordeste e no sul do Brasil. Foi nesta época que um jovem paulista, natural de Taubaté e que ganhava a vida compondo jingles na cidade de São Paulo, conheceu o casal César Camargo Mariano e Elis Regina. Isso porque o seu irmão, Roberto de Oliveira, era produtor musical e trabalhava com a extraordinária cantora gaúcha. Foi por causa dessa proximidade quase acidental que a vida de Renato Teixeira de Oliveira mudou totalmente.

Ele mostrou uma composição sua, que batizara de Romaria, e encantou os novos conhecidos. A letra era quase uma prece, relatando a jornada de um fiel na direção do Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Elis a incluiu no repertório do álbum que gravou logo depois, abrindo caminho para que o até então desconhecido dividisse espaço com nomes como Milton Nascimento, João Bosco, Aldir Blanc e outros, no mesmo trabalho repleto de inéditas. O sucesso foi imediato, de tal forma que os caminhos se abriram e o compositor pode afinal deixar a publicidade e se dedicar inteiramente à música. Nascia um estilo sertanejo de mais qualidade e modernizado, um pouco distante das boas duplas de raiz e muito mais ainda daquilo que viria depois. Uma gravação posterior do próprio Renato Teixeira, ao lado de seu amigo Almir Sater, tornou aquela canção definitivamente um clássico do gênero.

Quando Romaria surgiu, as letras fáceis ainda não tinham virado moda. A expressão sofrência não havia sido cunhada e nossos ouvidos não estavam expostos a tantas histórias de traições amorosas. Os temas em geral abordavam a vida do homem interiorano, sua simplicidade, seu modo de ver o cotidiano. Nos primórdios, a música caipira – o sertanejo raiz – nasceu devido a gravações feitas por Cornélio Pires, jornalista e escritor que “colecionava” causos e fragmentos de cantos tradicionais. Sua pesquisa foi feita nas áreas rurais de São Paulo, do sul e do triângulo mineiro e também no sudeste goiano e mato-grossense. Essas “modas de viola” foram então eternizadas por vozes como as de Inezita Barroso, Alvarenga e Ranchinho, Tonico e Tinoco, Milionário e José Rico, além das Irmãs Galvão.

Muito disso ainda pode ser visto no programa Sr. Brasil, que a TV Cultura transmite nas manhãs de domingo e reproduz nas segundas-feiras à noite, com a impecável condução de Rolando Boldrin. Esse programa, um dos tantos que a grade da emissora paulista oferece, valorizando a produção nacional de qualidade, tem como base temas e ritmos regionais do nosso país. Aceita uma diversidade grande, desde que a manifestação seja genuína. Nele são incluídas não apenas músicas, mas também o que está escrito em prosa e verso, tenha história a ser contada. O próprio cenário é constituído por artesanato e tem cheiro de terra. Da nossa terra, onde se fala e transpira português, mesmo quando imperfeito.

A transição do sertanejo mais tradicional para aquele ouvido hoje em dia começou aos poucos, ainda no final da década de 1960. Isso aconteceu com a introdução da guitarra elétrica. Na mesma época ocorreu uma forte influência da country music dos EUA, refletida até no visual, com a adoção de indumentária próxima a dos cowboys. As apresentações saíram dos antigos circos e emissoras AM para as FM, que começavam a surgir, ganhando depois espaço em programas de televisão e se popularizando fortemente, com muito marketing criando mercado. E um último passo foi dado com o surgimento de um termo que identificava a busca de uma aproximação com os jovens urbanos: o tal sertanejo universitário. Mas, respeitosamente, se o nome aponta para um curso superior, as letras ficaram em geral muito mais primárias – claro que com honrosas exceções. O que também não quer dizer nada, porque se pode ver que em muitos outros setores da nossa vida, a primariedade tomou conta.

15.09.2021

No bônus de hoje, uma preciosidade: Elis Regina canta Romaria, de Renato Teixeira, durante o show Transversal do Tempo, ocorrido no ano de 1978, no Villaret Theater, em Lisboa. O nome dessa sala de espetáculos, que fica na Av. Fontes Pereira de Melo e foi fundada em 1964, por Raúl Solnado, foi dado em homenagem ao ator João Villaret.

SOLIDÃO, AFETO E HUMANIDADE

Afinal de contas, o que realmente significa ser “humano”? Uma animação na qual são personagens apenas uma idosa e um robô nos leva a pensar sobre esse conceito, os seus limites e sua extrapolação. Tudo porque aquela figura de metal, que tinha tudo para não possuir um coração, assume o cuidado da idosa com a sensibilidade, o carinho e o amor que seu filho não teve. Evidente que se trata de ficção, mas é uma história que reflete com muita propriedade o que acontece na sociedade ocidental atualmente, na qual o idoso tem o acompanhamento do seu final de vida terceirizado pela família.

Em Changing Batteries (Trocando Baterias), uma mulher que mora sozinha certo dia recebe uma caixa e um bilhete curto. Nele está escrito apenas um pedido de desculpas, enviado por seu filho, por não ter conseguido voltar novamente este ano. E indicando que ao menos lhe enviou um presente. Da caixa ela retira um robô, a companhia improvável e silenciosa, mas interessada, que daria mais sentido aos seus dias a partir de então. Começa assim uma fantástica lição de vida.

Um robô (ou robot) nada mais é do um dispositivo eletromecânico que possui condições de realizar trabalhos de maneira pré-programada ou autônoma, em substituição ao que teria que ser feito pelas pessoas. Em geral essas tarefas seriam perigosas, colocando em risco a vida. Pelo menos era assim antes, porque uma recente popularização colocou no mercado alguns capazes, por exemplo, de realizar tarefas domésticas. Existem também alguns bem mais sofisticados, nas linhas de produção industrial. E ainda para a realização de cirurgias, exploração espacial e subaquática, mineração, localização de minas terrestres e muitos outros usos, incluindo alguns de entretenimento. No cinema é que eles adotam a forma humana, o que também está sendo agora buscado.

A palavra robot, adotada pelo inglês, veio originalmente da língua tcheca (robota), significando trabalho forçado ou servidão. O termo era aplicado a camponeses obrigados ao serviço, quando do sistema feudal. Também naquele país foi utilizado pela primeira vez para fazer referência a autômatos. Foi na peça R.U.R., do escritor Karel Capek, em 1920. Curioso é que ele pretendia lhe dar o nome de labori, do latim, referindo trabalho. Mas seu irmão Josef Capek sugeriu a troca, o que ele aceitou. Tempos depois a palavra desembarcou no português, sem a letra final “t” e com o necessário acento circunflexo.

A mulher é solitária. Se pode perceber, no início da animação, que sua casa fica afastada de um centro urbano maior, ao longe. Na sala, dois porta-retratos revelam sua situação civil: no primeiro, uma foto sua com marido e filho; no outro, apenas ela e o filho. Ficara viúva e o rapaz foi embora uma vez crescido, para tratar de si mesmo. O novo parceiro assume os afazeres domésticos, desde varrer a casa até colocar água nas plantas. Mas vai aos poucos assumindo posturas que não deveriam estar programadas, algo além dos algoritmos que o comandavam. Consegue, por exemplo, ser tão contemplativo quanto ela, quando dividem olhares perdidos no horizonte, vendo um belo pôr do sol.

Ele a protege do frio, aprende a gostar de programas de televisão e “bebe” seu óleo de máquina enquanto ela se alimenta. Sonham juntos ir ao circo; convivem, enfim. A diferença é que a fraqueza dele pode ser resolvida com a troca de pilhas, enquanto a dela não. E essa talvez seja a única coisa que, entre eles, diferencia o que seja ser humano ou máquina. Assim, os cinco minutos de duração do curta oportunizam mais de uma reflexão importante: sobre o necessário cuidado com os idosos, sobre abandono, solidão e principalmente afeto. E esse último item a gente compartilha e manifesta, sendo algo eminentemente humano. Mas, precisamos aprender a fazer isso melhor, o que não temos conseguido até agora.

13.09.2021

Outra vez temos hoje bônus em duplicidade. Primeiro, a animação que motivou esse texto: Changing Batteries. Esse foi o trabalho de conclusão apresentado por alunos da Multimedia University, da Malásia, em 2013. Eram eles Shi Gi, Cassandra Ng, Hon JiaHuj e Bahareh Darvish.

Depois temos a música Solidão, de Alceu Valença. Ela é uma das faixas do seu álbum, Mágico, lançado ainda em 1984.