Sem a facilidade tecnológica atual, onde a internet é figura onipresente, uma espécie de divindade que perpassa todos os campos das nossas vidas – fazemos compras, esboçamos viagens, trocamos mensagens, fotos, vídeos, música, conhecemos pessoas, temos e damos aulas, nos posicionamos em diversas situações, tratamos de finanças, vemos os lançamentos cinematográficos, acompanhamos nosso time do coração, buscamos relacionamentos, esclarecimento e podemos ser enganados e roubados –, a TV interativa já existia bem antes. Em outro nível, lógico. Mas, se interatividade é o telespectador poder atuar de alguma forma, influenciando no andamento da história que acompanha, isso começou no Brasil em 1992, com Você Decide.

Era um único episódio por semana, inicialmente apresentado por Antônio Fagundes. Abordando temas que propositalmente tinham um grande potencial de gerar polêmica, a dramaturgia da emissora desenvolvia uma história, mas gravava dois finais distintos. De casa, os telespectadores votavam em uma delas, por telefone. A que recebia maior adesão era a apresentada no último bloco. Em geral as opções tinham forte apelo no sentido ético ou moral, o que servia sem dúvida alguma também para que fosse aferido o tipo de público que acompanhava a programação. Ou seja, uma informação muito importante também para o planejamento estratégico da empresa de comunicação.

Se faz necessário ressaltar que muito do que era proposto era atemporal, não ficando muito distante do que poderia ser levado ao ar ainda hoje em dia. Um policial honesto que descobre que seu filho agiu fora da lei, deve prendê-lo ou seria compreensível acobertar o caso? Uma pessoa que passa por dificuldades financeiras e encontra uma mala com dinheiro, deve procurar pelo dono ou resolver seus próprios problemas? Os temas variavam desde assédio sexual e corrupção, até eutanásia e aborto. O resultado foi uma audiência colossal para a época, levando o programa a permanecer por oito anos no ar. E a Globo, que havia criado o modelo, o vendeu para ser replicado em diversos países.

Também foram apresentadores, depois de Fagundes, outros atores da casa, todos muito conhecidos: Walmor Chagas, Tony Ramos, Carolina Ferraz, Lima Duarte, Raul Cortez e Luciano Szafir, além dos jornalistas Renata Ceribelli e Celso Freitas. Outro detalhe interessante na dinâmica adotada é que, além da sala de recebimento das ligações, existia um painel em estúdio que ia mostrando a contagem dos votos para cada final possível. E, mais inteligente ainda, foi a colocação de telões em praças públicas, cada semana em uma localidade diferente, onde a população podia acompanhar tudo e inclusive votar. Nesses mesmos locais, repórteres entrevistavam os anônimos que quisessem se manifestar, justificando a escolha que fariam. Ou seja, a história era gravada, mas ele conseguia ser ao vivo, simultaneamente.

O programa foi um avanço, na medida em que rompeu a ordem lógica do que era apresentado, só verticalmente. Algo jamais feito antes. Isso, a horizontalidade, o transformou de certa forma em um precursor dos reality shows. Ou seja, ele também terminou sendo porta de entrada para outro tipo de visão comercial, para a conquista de maior audiência e a abertura de mais mercados. Outra coisa que já acontecia, mas foi intensificada após essa experiência, foi ouvir a opinião pública para dar rumos para a dramaturgia. As novelas, carro chefe da programação, não são mais uma obra fechada: personagens sofrem alterações, ganham ou perdem espaço na trama, conforme a voz das ruas, a repercussão, vai sendo aferida. Já tivemos protagonistas desbancados, coadjuvantes elevados à condição de protagonistas e até algumas “mortes”, para que indesejados fossem retirados das histórias – como ocorreu com um casal não heterossexual, anos atrás. O que significa outra atitude que foi precursora: o cancelamento. Ou seja, “a voz do povo é a voz de Deus”, mesmo quando existe a hipótese dele – o povo – estar se movendo apenas por preconceito, como no exemplo dado.

23.09.2021

Como bônus temos hoje primeiro a última vinheta de abertura do programa. Essa ficou no ar entre 1999 e 2001, quando ele terminou. Depois, como a dramaturgia é o pano de fundo do texto, a música tema da novela Deus Salve o Rei: Aurora, com Scarborough Fair (Feira de Scarborough).

2 Comentários

  1. Entrada brilhante e esclarecedora !! Você sabe disso tão bem quanto eu; que o marketing depende de várias ciências que interagem. Mas comente; o que aconteceu – neste momento podemos dizer, a pré-história das novelas – com uma narração excelente e um final melhor … “a voz do povo dita”. Eu ficaria feliz se isso fosse repetido para fazer o efeito “grito” exigindo maior eqüidade e justiça social. Um abraço.

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