A expressão “tem gato na tuba” é usada para se dizer que algo não está bem, está soando errado por ser mal explicado, podendo ser uma farsa completa. Uma lenda relata que ela surgiu quando um músico não conseguia de modo algum tirar qualquer som do seu instrumento de sopro, que é gigantesco, tem uma campânula enorme. Desmontaram e descobriram que um pequeno bichano havia se acomodado no seu interior. Pouco importa se é verdade isso, mas dá uma boa justificativa. Outras expressões com significado semelhante seriam “tem caroço nesse angu” e “nesse mato tem coelho”. Mas, no caso que discuto hoje cai melhor o primeiro exemplo, porque Gato é o sobrenome de uma figura que ganhou destaque recente, mesmo estando morta desde 1718.

Outra manifestação da cultura popular afirma que “quem conta um conto aumenta um ponto”. Algo que foi aprimorado pela mente diabólica do ministro da Propaganda, na Alemanha nazista de Adolf Hitler: Joseph Goebbels afirmava que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Não por acaso esse foi um dos recursos mais utilizados na campanha vitoriosa de Jair Bolsonaro, para chegar à presidência da República. Isso vale ainda quando se percebe que os livros escolares da disciplina de História, por exemplo, estão cheios de figuras que nos são apresentadas de forma distorcida ou apenas parcialmente. Seja essa uma ação proposital ou não, na realidade altera e muito o conhecimento e a percepção que se adquire do que de fato aconteceu em qualquer período estudado.

Os bandeirantes paulistas integram um grupo que foi vendido como sendo de “heróis desbravadores”. E essa imagem não corresponde de modo algum à realidade: na sua maioria eram bandidos cruéis, que perseguiam negros, saqueavam aldeias indígenas matando crianças, estuprando mulheres e escravizando os homens. Suas expedições patrocinadas partiam de São Paulo justo com esse intuito, de conseguir mão de obra sem custo para explorar minas de ouro e pedras preciosas que eram descobertas no caminho. Mas o esforço em romantizar esses homens rudes e sanguinários trouxe ainda a formação de um enorme preconceito contra outras regionalidades brasileiras. E isso fica embutido na história contada, sem que se perceba. Nos relatos, esses “valentes” ampliavam o território e geravam riqueza, porque não eram preguiçosos como os moradores de outros pontos do país, que viviam – e vivem ainda – na miséria. Apenas os paulistas “levavam a sério” o seu trabalho. Como se fosse tarefa honesta os crimes que praticavam, impunemente.

Borba Gato foi um bandeirante, genro de outro que talvez tenha sido o mais famoso de todos, Fernão Dias Paes Lemes. E foi seu sucessor, após a morte do pai de sua esposa com uma febre misteriosa. Além de ser conhecido pela crueldade contra os nativos, Borba Gato assassinou um fidalgo de nome Rodrigo de Castelo Branco, sendo obrigado a viver foragido por vários anos (entre 1682 e 1699). Depois ressurgiu e ainda foi nomeado juiz, tendo para tanto doado à Coroa minas de ouro que havia descoberto. Fico imaginando o quanto seriam confiáveis as suas decisões como magistrado. Mantidas as devidas proporções, talvez houvesse algo semelhante ao que hoje em dia se chamaria de “compra e venda de sentenças”. Ou, no mínimo, absolvições e condenações bastante suspeitas, dessas feitas por “convicção”, mesmo sem provas. Para evitar quaisquer ilações maldosas, garanto não ter informações sobre a existência de antepassados bandeirantes na árvore genealógica do ex-juiz paranaense Sérgio Moro.

Aquele paulista “cidadão de bem” teve uma estátua sua como alvo de um incêndio praticado pelo grupo de resistência Revolução Periférica. Entre 25 e 30 pessoas participaram do ato, praticado em julho, depois que panfletagem sua protestando contra a existência de tal homenagem não surtiu efeito algum. Um casal foi identificado como líder da ação. São eles o entregador de aplicativo Paulo Roberto da Silva Lima, conhecido como “Galo”, e sua esposa Géssica. Ele se apresentou voluntariamente à polícia e admitiu participação. Teve prisão preventiva decretada. Dias depois, quando o Superior Tribunal de Justiça concedeu habeas corpus, para que não fosse cumprida a determinação judicial houve a transformação em prisão preventiva, de forma arbitrária. 

O monumento em questão está localizado na Praça Augusto Tortorelo de Araújo, no distrito de Santo Amaro. Foi feito de argamassa e trilhos, tudo revestido com pedras coloridas de basalto e mármore. A inauguração ocorreu em janeiro de 1957 e ele tem 13 metros. Talvez essa dimensão tão imponente tenha sido decidida para estar à altura das barbáries que foram praticadas pelo homenageado. Desconheço a existência, na capital paulista, de estátuas que tenham sido erguidas em memória aos indígenas massacrados pelos bandeirantes.

10.08.2021

Num país onde ser genocida está na moda, alguns tem até estátua em sua homenagem

No bônus de hoje, Legião Urbana com a música Índios. Composta por Renato Russo, ela surgiu em 1986 no álbum Dois. E foi relançada em 2001, no álbum Como É Que Se Diz Eu Te Amo.

1 Comentário

  1. História triste da formação do Brasil. Estão ali as raízes do que se repete hoje, tendo como epicentro São Paulo. É preciso trazer ao presente como fazes. Renato Russo que faz a parceria para seguir em frente. Obrigada.

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