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FRUTAS ALCOOLIZADAS

Claro que eu já tinha ouvido falar das tais “peras bêbadas”. Sei que é um doce feito com a fruta, mas não lembro se algum dia provei. Até me deu vontade e fui espiar na internet como se faz. Não existe informação que não esteja armazenada por lá, nessa espécie de oráculo moderno. Coisa muito fácil de fazer, precisando apenas das peras – evidente, né? – uma garrafa de vinho tinto, açúcar, cravo e canela. Gosto muito desta fruta, de vinho e de doces em geral: vou ter que provar. Agora, o que até pouco tempo atrás eu jamais poderia sequer imaginar é que estaria, na minha casa, tratando de embebedar outras tantas. Mas confesso que tenho feito isso.

A gente chega do supermercado ou da feira e lá estou eu, passando um pano com álcool nas bananas, no mamão, no abacate. Pouco, mas imagino que o suficiente para eliminar o tal coronavírus, se é que ele se encontra por ali. Paranoia, talvez! Mas tenho certeza de que não estou sozinho. Essa está se tornando uma característica destes tempos que nem sei mais se são modernos, pós-modernos ou pré-apocalípticos. Afinal de contas, vivemos um momento no qual virou rotina acompanharmos todos os dias, nos noticiários das TVs, o número de mortos e de infectados. Ambos só crescem, quase sem que isso choque as pessoas. Exceto se algum familiar está agora engrossando essa estatística, porque então ela ganha um rosto e remete a várias lembranças. Agora, se isso é normal, por que não seria dar um banho nas compras?

As verduras são tratadas de modo diferente: ganham um demorado mergulho em água potável batizada pela quantidade recomendada de água sanitária. Depois ficou eu secando as folhas, com aquele instrumento plástico que gira e reduz a umidade usando a força centrífuga. Viram só? Estudar física no Ensino Médio um dia teria sua utilidade, mesmo para quem escolheu seguir as Ciências Humanas. A questão é que esse esforço todo cansa um bocado. E se não cansa de verdade, ao menos serve de desculpa. Então você tem que comer uma porção extra do que trouxe para casa. Não necessariamente das frutas e das verduras: pode e deve ser um abuso qualquer, como um doce dos quais eu tanto gosto.

Já confessei aqui outro dia, em outra crônica, que sou apaixonado por chocolates. Mas, mesmo recomendando que pessoas que tenham outros vícios, que sejam danosos à saúde, devam procurar grupos de apoio, eu jamais iria para uma hipotética C.A – Chocólatras Anônimos. Entendam que sou assumido e não anônimo. E também não iria porque aceito variar essa minha necessidade de açúcar no sangue: quem sabe um pudim de leite condensado, um pastel de Santa Clara, um cheesecake, um quindim, uma prosaica fatia de queijo acompanhada por outra de goiabada, uma mil folhas – milhar no nome, quatro ou cinco na realidade – ou um pastel de Belém?

Esse último foi criado em 1834 no Mosteiro dos Jerónimos, próximo à Torre de Belém. Foi uma forma encontrada para a sobrevivência, depois que expulsaram o clero e encerraram os conventos, devido à Revolução Liberal de 1820. Os muitos visitantes da região se habituaram depressa a saborear essa iguaria, cuja receita se mantém igual até os dias de hoje. Para mim também é quase uma questão de sobrevivência, algo doce para fazer companhia ao cafezinho após o almoço. Quanto às frutas, já recuperadas do pequeno teor alcoólico a que foram submetidas, sigo consumindo com muita satisfação. Em geral ao amanhecer ou no final das tardes. A pandemia não pode nos privar de todos os prazeres.

26.05.2021

Depois de ter lembrado de dois doces portugueses – os fabulosos pastéis de Santa Clara e de Belém – dedico também o bônus musical a Portugal, deixando aqui um fado. Trata-se de Meu Amor de Longe, com a fadista, atriz e apresentadora de televisão Raquel Tavares.

A MISS QUE MATOU O GENERAL

Maria Teresa Landa nasceu em 1910 e tinha apenas 18 anos quando se tornou Miss México, na primeira edição do concurso que buscava coroar a mulher mais linda daquele país. Mas a candidata tinha mais atributos do que os meramente físicos: era reconhecida por ter uma inteligência acima da média e alcançava fácil sucesso nos estudos, tanto na Escola Normal quanto no curso que mais tarde a tornou ortodontista. Sobre a disputa que venceu, entretanto, como era algo ainda inédito e as pessoas ainda desconheciam a forma como se dava a escolha, teve que enfrentar críticas e preconceito. Para os conservadores, era um absurdo, coisa mesmo de “desavergonhada”, ela ter posado de maiô na sessão de fotos. Depois de desfilar em carro alegórico por sua cidade, o pai deixou de falar com ela.

Em 08 de março daquele mesmo 1928 do seu título de beleza, a sua avó acabou falecendo. Foi no funeral que conheceu o general Moisés Vidal, de 34 anos, quase o dobro da idade dela, portanto. Logo após eles começaram um relacionamento íntimo, contrariando os desejos da família da jovem, que alegava desníveis perigosos na idade e na classe social. Isso não impediu que o casal estabelecesse encontros secretos e continuasse sua história. Logo após ela esteve no Texas, em outros concursos de beleza, onde também recebeu ofertas de emprego, todas recusadas. Preferiu voltar para a Cidade do México, onde se casou com Vidal em 24 de setembro.

Depois de um ano de relacionamento, repórteres do mesmo jornal que havia destacado a jovem miss em sua capa, nela estamparam uma outra história que a envolvia. Descobriram que o general era bígamo, uma vez que antes de Maria Teresa já havia desposado outra mulher, com quem tinha tido dois filhos, na cidade de Veracruz. Esse primeiro matrimônio ocorrera em 1923 e, por coincidência, a primeira esposa também se chamava Maria Teresa. Diante da notícia, a Miss México confrontou seu marido, pedindo explicações. Em meio à discussão que se seguiu, ela apanhou a pistola Smith & Wesson, de calibre 44, que pertencia a Vidal, e disparou seis vezes contra ele. Quatro tiros o atingiram no tórax e no abdômen, os outros dois no rosto.

Presa logo após o assassinato, se recusou a falar sem a presença de um juiz federal e de seu advogado. No julgamento, foi defendida por José Maria Lozano, um ex-ministro com excelente capacidade oratória, que baseou sua argumentação no fato dela ter sido vítima de abusos, por parte do marido e da própria sociedade. A promotoria seguiu linha oposta, afirmando que ela era uma “assassina imoral e sem vergonha”, trazendo ao tribunal fotos nas quais ela aparecia usando roupas íntimas. Lozano foi mais feliz ao defender que a desonra não era um direito exclusivamente masculino. E ao final conseguiu algo quase impensável para a época, num país de costumes conservadores: a Miss México foi declarada inocente.

No Brasil, a tese da legítima defesa da honra prevaleceu por décadas, mas no geral aplicável em favor dos homens. Era como se essa fosse uma prerrogativa masculina, nenhum sendo preso pelo crime. Tivemos inclusive alguns casos emblemáticos, que ganharam notoriedade apenas por envolverem personalidades conhecidas. É um absurdo, mas isso se tornou relevante para chamar a atenção da mídia e da sociedade como um todo, quanto à necessidade de tal situação ser revista. Como sempre, a morte das mulheres anônimas não teria força para tanto. Mesmo se entendendo que a legítima defesa é um instituto técnico-jurídico que, no direito brasileiro, está amplamente amparado, o acréscimo “da hora” o torna uma aberração. Sua aplicação é aceitável quando se trata de garantir a vida do envolvido ou de terceiros, fora isso será apenas um recurso argumentativo, uma retórica odiosa e desumana. Uma forma perversa de imputar às vítimas a responsabilidade pela agressão sofrida.

No caso da defesa da Miss do México, esse recurso foi usado com muito sucesso, apesar das surpresas não apenas do “onde e quando”, como também do “a favor de que gênero”. Então, merece igual dúvida quanto à honestidade da argumentação. Entretanto, se tratou de um caso raro, uma vez que a naturalização e a perpetuação de tal ignomínia ter sido quase que na totalidade das vezes contra as mulheres. A reputação do homem era vista, referindo outra vez a realidade brasileira – é provável que a mexicana não fosse muito diferente –, como algo diverso da reputação da mulher. Uma espécie de afirmação tácita da justiça sobre uma suposta superioridade masculina. O que veio abaixo quando a Constituição de 1988 reafirmou os direitos à vida e à igualdade entre homens e mulheres (art. 5º, caput e inciso I), como sendo um dos seus pilares. Mas esse também pode ser um tema que desagrade muito os conservadores que agora têm defendido que já estaria na hora de se rever o texto constitucional de apenas 33 anos atrás. Por enquanto essa proposta – de nova Constituição – ainda é um sussurro, mas não se iludam quanto ao risco real de se tornar, muito em breve, um discurso mais contundente. Porque a lista dos direitos que desejam derrubar pode incluir esse, mas vai muito além dele.

24.05.2021

O bônus de hoje é a música Amor e Sexo, de Rita Lee. A letra é um verdadeiro show, mostrando domínio perfeito das palavras. Faz poesia ao falar sobre o tema.