Eu faria de bom grado a maior das reverências aos Maias, inventores de uma bebida sagrada que, sem dúvida, segue sendo uma homenagem muito adequada aos deuses. Consta que, na realidade, isso começou ainda antes deles, com a civilização Olmeca, uns 1.500 anos antes de Cristo. Habitavam a área depois ocupada pelos Maias, que propagaram o costume. Esse território vai do México, passa pela América Central e chega até a parte mais tropical existente ao norte da América do Sul. Esse povo cultivava o cacau, que depois era transformado em uma beberagem onde incluíam baunilha e pimenta. Era forte e amarga, mas se tornava muito apreciada. Outra forma de consumo era em solenidades religiosas, torrando o cacau e servindo com mel e algumas especiarias. Hoje em formato de barra, ou quaisquer outras que imaginação e formas adequadas possam permitir, o chocolate deveria ser considerado patrimônio da humanidade, pela ONU.

Quando os espanhóis conquistaram a região, conheceram esses entre outros hábitos dos nativos. E também gostaram muito, tanto que levaram o cacau para a Europa. Sendo um país muito católico, seu uso passou a integrar também alguns dos cultos religiosos dos cristãos, a exemplo do que acontecia nas Américas. Mas apenas sacerdotes, nobres e mulheres poderiam consumir o produto. Sabe-se lá a razão desse preconceito contra o restante da população masculina. Cultivado também na África, o cacau foi ganhando maior popularidade e penetração em outros países europeus. Foi quando os suíços desenvolveram uma nova receita, adicionando leite e iniciando a produção de algo mais parecido com aquilo que consumimos atualmente. O verdadeiro chocolate “moderno” tem apenas como ingredientes cacau, manteiga de cacau e pouco açúcar, podendo ou não ser acrescido leite. Se tem aditivos químicos, perde qualidade.

Hoje em dia a produção do cacau em amêndoas está praticamente concentrada em sete países, que juntos são responsáveis por 90% do total comercializado em todo o mundo. São eles Costa do Marfim (39%), Gana (20%), Indonésia (10%), Nigéria (6%), Brasil (5%), Camarões (5%) e Equador (5%). Mas raros desses produzem chocolates que podem ser chamados de “primeira linha”. Isso permanece aparecendo com destaque maior na Suíça, Bélgica, Holanda, França e EUA, em empresas que primam pela rigorosa escolha da matéria prima. Mas o Brasil já consegue se destacar e receber reconhecimento com algumas marcas relevantes.

Segundo especialistas, o número um do mundo segue sendo o que sai da chocolataria Teuscher, que iniciou sua trajetória em um vilarejo muito pequeno nos Alpes Suíços e hoje está instalada em Zurique, de onde encanta chocólatras. Se algum dos meus leitores achar por bem me permitir experimentar tal preciosidade, não se acanhe em remeter para mim. Sou viciado mesmo e admito, mesmo sem ter tido até hoje essa oportunidade, de conhecer o melhor entre os melhores. O que, na certa, serviria para agravar essa minha doce dependência. Agora, para mostrar que não sou necessariamente tão exigente, informo que também podem ser um Godiva Chocolatier, de Bruxelas; um Vosges Haut-Chocolat, de Chicago; um Richart, de Paris. Ou o delicioso nacional Dengo, que considero não ficar devendo nada aos mais famosos – aliás, eles cultivam o cacau na Bahia, em meio à Mata Atlântica, preservando a natureza. Há ainda outro brasileiro, o Amma, com suas barras orgânicas e biodinâmicas. E paro por aqui, para não me afogar em saliva e sonho.

Brincadeiras à parte, além de delicioso, o chocolate é um alimento que contém nutrientes bastante importantes. Os flavonóides, por exemplo, comprovadamente melhoram funções cerebrais. Desenvolvido pelo Instituto Nacional de Agronomia da França, o trabalho examinou ainda os efeitos dos esteróis, fosfolipídios, alcalóides, polifenóis e antioxidantes. Há ainda vitaminas. O conjunto das substâncias proporciona grande sensação de bem estar, quando do consumo. E elas contribuem para a melhora do fluxo arterial, para a redução do estresse e até para o alívio de algumas dores. Uma dieta rica em cacau ajuda a evitar perda de memória e reduz risco de demência em idosos, agindo ainda sobre domínios cognitivos, favorecendo o raciocínio abstrato.

Aqui entre nós, nem precisaria fazer tanto bem. Bastaria afirmarem que não faz mal e eu continuaria confortável para seguir com minha dose diária, junto com o cafezinho, após o almoço. E outras extras, quando possível. A vantagem de saber isso tudo é apenas psicológica, para um consumo sem culpa, em todas as épocas do ano.

22.04.2021

No bônus musical de hoje, Tim Maia e sua composição Chocolate.

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