Ao longo das últimas semanas, vi todos os 40 episódios já lançados de The Crown (A Coroa), uma bela série produzida pela Netflix. Com um orçamento milionário – US$ 130 milhões investidos apenas na primeira das temporadas de dez capítulos cada –, ela deve ser concluída ainda em 2021, com o quinto e último ano, que está sendo produzido. A história basicamente se divide em três fases, três épocas diferentes da vida e do reinado de Elizabeth II, cada uma delas com atores distintos vivendo os mesmos personagens. O esmero em reconstituições de ambientes, o requinte nas tomadas internas e externas, assim como o figurino, que é impecável, são comprovações de que tudo foi levado muito a sério. O objetivo de criar algo que se destacasse é realmente óbvio e foi atingido. Incrível é que isso não ocorreu de imediato: no seu lançamento, a série teve a terceira pior estreia em termos de audiência, entre todas as da plataforma de streaming. Mas, posteriormente, mais e mais pessoas passaram a ver o trabalho.

O roteirista Peter Morgan veio trazendo a história, partindo do casamento de Elizabeth com Philip Mountbatten, em 1947, ocorrido antes dela herdar a coroa com a morte de seu pai, George VI. Depois da coroação, a série segue não sendo apenas histórica, mas abordando outros temas com possibilidades provocativas e mais complexas. O que até consegue fazer, em muitos momentos, apesar do núcleo ser evidentemente a família real, que no fundo é rasa e nada além de pedante. A narrativa é praticamente linear, mas conta com eventuais voltas no tempo, para mostrar, por exemplo, situações da infância da protagonista ou revisar informações que são importantes para o entendimento do enredo. E, mesmo sendo uma construção ficcional, com diálogos que não têm um compromisso maior com o que de fato tenha ocorrido, vemos questões reais e personalidades históricas participando ou sendo citadas.

Elisabeth, embora demonstre relativa empatia em vários momentos, se mostra uma mulher contraditória. É também uma mãe que sempre se relacionou melhor com os cavalos que criava do que com os quatro filhos que teve. Quando buscou, tardiamente, conversar com cada um deles, em jantares separados, precisou que seu assistente fornecesse informações sobre a vida e os gostos pessoais de todos eles. Nas duas primeiras temporadas o papel foi de Claire Foy; nas duas seguintes, de Olivia Colman, que ganhou um Oscar de Melhor Atriz, inclusive interpretando outra rainha do Reino Unido, pelo filme A Favorita, em 2019. Aliás, Olívia também está concorrendo em 2021, como atriz coadjuvante em Meu Pai, trabalho de estreia do escritor e dramaturgo francês, Florian Zeller. Na última temporada de The Crown será a vez de Imelda Staunton viver a protagonista da série. Essa já concorreu ao Oscar de melhor atriz pelo filme O Segredo de Vera Drake, em 2005. E o público jovem a conhece por ter vivido a ardilosa professora Dolores Umbridge, na série de Harry Potter. John Lithgow esteve perfeito no papel de Winston Churchill; Gillian Anderson entrega uma Margaret Thatcher que consegue convencer; e Emma Corrin tem grande semelhança com a Diana jovem que vive. 

Na questão comportamental, embora em várias passagens a própria rainha, sua irmã Margaret e outros membros da família real façam algumas críticas às tradições, todos fazem questão de seguir à risca seus papéis dentro de um teatro absurdo. Nenhum é quem gostaria de ser, todos são o que precisam ser ou o que esperam que eles sejam. Demonstram um imenso tédio, que acentua a inutilidade de todos; mostram uma postura arrogante, confirmando que a realeza não pode continuar existindo no mundo como o temos hoje. E a decadência não consegue ser escondida, nem mesmo pelo luxo. Assim, vivem uma espécie de farsa oficial que tem que ser mantida, como todos os seus privilégios: esses sim, assumidos sem nenhum constrangimento. É emblemático o momento em que todos colocam luvas, para cumprimentar pessoas do povo. E é insuportável ver que precisavam de ajuda para vestir suas roupas e calçar seus calçados.

Enfim, o que posso fazer é recomendar que vejam a série. Vale muito a pena mesmo. Apenas, por questões de preservação pessoal, tratem de fazer isso apenas com os olhos, tapando o nariz e deixando o senso crítico, no que se refere à estruturação da sociedade, um pouquinho de lado. Convêm também preservar o estômago, talvez com um chá, bebida tão ao gosto dos ingleses.

20.04.2021

À esquerda, a atriz Claire Foy, nas cenas do casamento real. À direita, a verdadeira Elizabeth quando da cerimônia

O bônus musical de hoje oferece uma versão de Candle In The Wind (Vela ao Vento), que originalmente havia sido composta em 1973, por Elton John e Bernie Taupin, para homenagear Marilyn Monroe. Em 1997, com a morte da Princesa Diana, E.J. fez uma pequena alteração na letra para homenagear a figura que a realeza britânica perdia e que era sua amiga pessoal. No original a canção começava com “Adeus, Norma Jean/ Por mais que eu nunca tenha conhecido você de fato” (esse era o nome verdadeiro de Marilyn). No remake ele escreveu “Adeus, rosa da Inglaterra/ Que você possa sempre crescer em nossos corações”.

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