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O JINGLE DA VARIG

A Coca-Cola que me perdoe, mas o esforço de marketing que a empresa faz todo ano, na época do Natal, com caravana de caminhões iluminados e com a figura do Papai Noel consumido o refrigerante, ursos brancos e muita gente feliz e sorridente, nada disso jamais vai conseguir alcançar o que um simples jingle fez no Brasil, em 1960 – não que a publicidade da multinacional seja ruim: ao contrário, é excelente. Entretanto, sem custar os milhões de dólares que a fabricante de bebidas investe anualmente, aquela “musiquinha” colou na memória de quem a ouviu na época. E também atingiu gerações posteriores, uma vez que foi repetida por muitos anos. Falo do institucional de final de ano da VARIG, a inesquecível Viação Aérea Rio-Grandense.

Estrela matutina num céu azul/ Iluminando de Norte a Sul/ Mensagem de amor e paz/ Nasceu Jesus, chegou o Natal/ Papai Noel voando a jato pelo céu/ Trazendo um Natal de felicidade/ E um Ano Novo cheio de prosperidade/ Varig, Varig, Varig.” O autor dessa letra, absolutamente simples e quase singela, foi o paulistano Caetano Zamma. Ao lado de Agostinho dos Santos, Maysa e Johnny Alf, ele formava um dos grupos mais importantes da Bossa Nova em São Paulo, tendo também sido autor de pelo menos 150 músicas. Na sua primeira versão, o jingle da Varig foi gravado por Clélia Simone. Em 1992 contrataram a Xuxa para cantar. E ele ressurgiu em 2005, na voz de Jorge Benjor. A campanha inicial tinha a assinatura de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que mais tarde se tornaria o todo-poderoso da Rede Globo. Consta não ter sido fácil convencer o presidente da empresa, Rubem Berta, que entendia não ser boa ideia uma companhia aérea fazer anúncios musicados. Felizmente, ele cedeu às argumentações.

A Viação Aérea Rio-Grandense foi a maior e mais conhecida companhia aérea do Brasil. Fundada em Porto Alegre pelo alemão Otto Ernst Meyer, em 1927, cerca de 35 anos depois e por duas décadas, foi considerada uma das maiores e mais conhecidas de todo o mundo, entre as privadas. Operava rotas internacionais em quatro continentes – América, Europa, África e Ásia –, tendo voado inicialmente com os conhecidos Lockheed Constellation e Douglas DC-6. Depois passou a utilizar Boeing 707, Caravelle, Douglas DC-10 e Boeing 747, entre outros aviões. Seu serviço de bordo era um diferencial que nenhuma outra companhia conseguia rivalizar. Serviam refeições quentes, em pratos de porcelana com talheres de prata, com bons vinhos e até mesmo champagne, na primeira classe. Problemas financeiros sérios, surgidos a partir de 2001, com o atentado às Torres Gêmeas gerando crise mundial no setor, somados à concorrência forte que surgiu nas rotas internas, a levaram a entrar em recuperação judicial no ano de 2006. Sem obter sucesso, sua falência foi decretada em 2010.

Até algum tempo atrás, comerciais de final de ano tinham muito maior relevância do que atualmente. As pessoas esperavam para conhecer, se emocionavam com o conteúdo, comentavam. Outro jingle que “estourou” foi o institucional de Natal do Banco Nacional. O Bamerindus era mais um que se destacava. Em comum com a Varig é que esses dois também não existem mais. Tinha a Bauducco, que mostrava seus panetones com muito bom gosto – mas esses seguem adoçando nossos natais. Sem nos alongarmos numa lista, podemos ainda relembrar Sadia e Perdigão, com suas aves; a Embratel, que colocou um coral de macacos cantando; ou o menino que colava bilhetes em tudo e todos, pedindo sua Caloi; entre tantos outros. Todos marcantes, como são agora os comerciais do grupo Zaffari, por exemplo. E do Boticário, com produções que sempre inovam. Antigos ou recentes, há comerciais que nos fazem voar alto, em sonho e fantasia. Como voavam os aviões da nossa Varig.

22.12.2020

Boeing 727 da Varig, prefixo PP-VLD, sobrevoando o estado de Washington-EUA

Bogdan Plech canta o jingle Estrela Brasileira, o mais popular jingle da Varig, mostrando diferentes épocas da empresa, em sequência de slides.

No ano de 2007, lutando para sobreviver e com a recuperação judicial em andamento, a Varig colocou no ar, na virada do ano, um comercial diferente. Era tentativa de recuperar também o bom nome da empresa, que estava extremamente abalado.

A SOLIDÃO AMPLIADA

Numa história curta, brilhante como sempre foram os textos do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), publicada em O Livro dos Abraços, ele nos apresenta um relato que escancara o que é a solidão. O diretor de um hospital em Manágua, capital da Nicarágua, está terminando bem tarde o seu turno de trabalho, na véspera de Natal. Decide ir embora quando os foguetes estão espocando e os fogos de artifício iluminando o céu. Sua família o espera em casa. Na última verificação que faz, para ter certeza de que tudo está bem, sente que passos o seguem pelos corredores. “Passos de algodão”, conforme o relato. Ao virar-se, o médico reconhece um pequeno paciente, “sua cara marcada pela morte e aqueles olhos que pediam desculpas ou talvez pedissem licença”. O garoto estava internado sem acompanhante. Quando o médico se aproxima, recebe um roçar leve com a mão e o comovente pedido: “Diga para… Diga para alguém que eu estou aqui.”

Eu conheci o que é a solidão hospitalar. Mesmo diante do vai e vem de gente amiga e de gente estranha, ela está presente. A UTI sem janelas, o tempo que perde a referência, o relógio que se torna desnecessário, as refeições que não lembramos ter feito… Eu também vi uma criança, um bebê que enfrentou isso sozinho, perto de onde o nosso estava acompanhado. Ouvia o ruído da sua respiração difícil. Me sentia nessas horas duas vezes inútil, mil vezes impotente. Todos nós estávamos sós.

Não existe nada pior do que estar só. Talvez apenas estar só no Natal. A festa comemora o nascimento de Jesus, mas o solitário vive como se fosse a Páscoa, como se estivesse crucificado pela solidão. Nem os dois ladrões estão ao seu lado, dividindo sofrimento. Não é por acaso que esta data pode ser uma das mais perigosas do ano para quem está propenso a cometer o maior dos desatinos. A solidão, quando voluntária e temporária, não é algo ruim. Pode ser oportunidade para autoconhecimento, para revisão de posturas e rumos na vida. Mas o vazio que vem quando se dá o afastamento social involuntário e muitas vezes permanente, esse deixa marcas profundas. Fere a alma e o corpo, desumaniza.

Ninguém nasce só. No mínimo a mãe está lá, na mais profunda interação que pode existir. Pensando bem, o nascimento tem esse estar junto, mas o nascer não. O nascer é solitário. O morrer também pode ter esse estar junto, se alguém está por perto, na hora da despedida. Mas a morte é solitária. O entrar e o sair da vida física são momentos nos quais só conta o protagonista. Ninguém leva Oscar de coadjuvante nessas horas. No máximo a mãe, como já citei antes, pode ser lembrada por sua participação especial na cena de entrada. Equipe médica, essa é a retaguarda necessária, apenas isso, nada mais do que isso.

Mas é sobre o Natal que desejo falar. Sobre essa oportunidade que temos de dividir presenças, algo muito mais importante do que trocarmos presentes. As luzes, a música, as cores e a comida preparada com carinho… Isso tudo cria clima, mas a preponderância precisa ser dos sentimentos, o que independe dessas belas manifestações materiais. Temos que abraçar as pessoas, mesmo que simbolicamente, pelos cuidados necessários devido à pandemia. Temos que dizer “eu estou aqui”, “nós estamos aqui”, “estamos todos juntos”, manifestar sincero interesse no convívio. Não pode ser pessoalmente? Que seja por telefone, por mensagem de texto, acenando da janela ou da sacada, desenhando um cartaz, colocando bilhete por baixo da porta. O que não pode é um momento de congraçamento por excelência, se tornar de solidão ampliada. O que não se pode fazer é esperar pelo toque de um menino hospitalizado em nosso braço, para então reagir.

20.12.2020

No bônus musical de hoje, algo inédito aqui no blog, mas muito oportuno: a publicidade da ação Natal Sem Fome. Porque ainda dá tempo de se fazer algo por quem tanto necessita. Para doar, acesse o site através do link https://www.natalsemfome.org.br/. Ainda sobre o anúncio, importante lembrar que todos os artistas envolvidos no projeto atuaram sem cachê, em função da causa ser muito nobre.