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A FAB E OS DISCOS VOADORES

No dia 25 de abril de 1977, uma segunda-feira, quatro homens foram até a Ilha dos Caranguejos, que fica na baía de São Marcos, próxima de São Luiz, capital do Maranhão, fazer coleta de madeira. O local não é habitado e costuma ser inundado pelas marés. Assim, depois do trabalho ser realizado, foram dormir em redes por volta das 20 horas, porque só seria possível navegar depois da meia-noite. Mas três deles acordaram apenas às cinco da manhã seguinte, todos com várias queimaduras de segundo grau pelo corpo. O outro estava morto. Exames médicos feitos por peritos não conseguiram concluir o que teria causado os ferimentos e a morte. Um dos sobreviventes, sob hipnose, afirmou que tinham sido atingidos por feixes de luz vindas do céu, desmaiando após fazer o relato. Noticiários da TV local registraram que naquela mesma noite e nos dias seguintes teriam havido avistamentos de objetos luminosos em várias localidades da região. Logo depois foi a vez do conceituado jornal O Liberal, de Belém, publicar matéria sobre outra sequência de aparecimentos, com luzes vindas de “um objeto que parecia pesado e volumoso”, nos céus paraenses. Uma embarcação teria sido atingida por elas e os ocupantes passaram por uma amnésia coletiva.

Ao longo do restante daquele ano e também no seguinte, muitos relatos semelhantes seguiram acontecendo, com uma frequência e similaridades assustadoras. Hospitais da região continuaram recebendo pessoas com queimaduras inexplicáveis. E foram tantos casos que, para apurar o que de fato estaria acontecendo e evitar o pânico que já estava prestes a se alastrar, a Força Aérea Brasileira, através do Comando Aéreo Regional de Belém, realizou uma investigação. Ela foi denominada de “Operação Prato”, em virtude de ser o formato da maioria dos objetos avistados, segundo afirmaram as testemunhas. Foi liderada pelo capitão Uyrangê Bolívar Soares de Hollanda Lima – nome comprido como esperança de pobre –, que comandava o Para-Sar, um esquadrão de elite da FAB. Essa terminou sendo a mais importante ação documentada sobre esses fenômenos, em nosso país.

O trabalho foi minucioso. Foram 20 os militares envolvidos, tendo sido utilizados binóculos, câmeras fotográficas e filmadoras na tentativa de registrar novas aparições que viessem a ocorrer. Durante quatro meses houve vigília e o recolhimento de um grande número de depoimentos de moradores. Os registros foram minuciosos e o monitoramento era feito nas 24 horas de cada dia. Os relatórios gerados foram mantidos em absoluto segredo e, reuniões da cúpula aeronáutica decidiram, ao final desse prazo, dar o caso por encerrado, oficialmente sem conclusões. Mas nunca foi permitido acesso público à documentação elaborada. Mas, passados 20 anos, uma entrevista concedida por Hollanda Lima mudou o rumo dessa história.

Foi no ano de 1997 que o então já coronel falou abertamente sobre o caso. E admitiu que chegou a acontecer um avistamento feito por ele mesmo, com alguns dos comandados, durante vigília noturna. Teriam visto objeto em forma de disco, em local denominado Baía do Sol, que fica na Ilha do Mosqueiro, em Belém. Sua parte posterior teria a cor preta, mas com uma luz âmbar no centro. Dele teria saído um raio amarelo, que chegou a atingir os pesquisadores, mas não impediu que a ação fosse filmada e fotografada. O fato, segundo ele, foi relatado ao seu superior, Protásio Lopes de Oliveira. Mas este não apenas ficou reticente com a descoberta como decidiu, logo após, dar por encerrados os trabalhos.

Dois meses depois de suas declarações conflitantes com o relatório da época, Hollanda Lima foi encontrado morto em sua casa. Investigações concluíram que ele havia retirado a própria vida, tendo se enforcado com a corda de um roupão. O fato foi tão estranho e o resultado da perícia tão rápido, que terminaram por permitir o surgimento de pelo menos duas teorias de conspirações. Ufólogos acreditam que ele tenha sido assassinado, justamente por ter revelado informações que deveriam permanecer sigilosas. Outras pessoas preferem assegurar que ele sequer morreu, tendo essa situação sido forjada, com ele saindo do Brasil com nova identidade. Mas nada nunca foi comprovado.

O material recolhido no Maranhão e no Pará, naqueles dois anos, em 2008 começou a ser liberado ao público. Mas sem a certeza de que a totalidade realmente tenha sido disponibilizada. A comunidade internacional de pesquisadores de fenômenos ufológicos, no entanto, tem certeza de que algo muito sério e significativo teria ocorrido. Sem acesso confiável ao que foi produzido pela FAB, baseia conclusões nos depoimentos que também seus representantes colheram dos moradores da região. Como no seriado Arquivo X, por enquanto a verdade continuará lá fora.

21.10.2020

Algumas imagens feitas durante investigações da Operação Prato

Bônus musical: Raul Seixas e a música SOS Disco Voador.

NÃO DEIXE QUE QUEIMEM LIVROS

Existem duas escalas diferentes de marcação da temperatura. Uma das medidas é feita em graus Celsius e a outra em graus Fahrenheit. A maior parte dos países do mundo faz uso da primeira, que se originou a partir de modelo proposto pelo astrônomo sueco Anders Celsius, em 1742. A segunda, que é menos usada, na verdade foi criada antes, pelo físico, engenheiro e soprador de vidro polonês Daniel Gabriel Fahrenheit, no ano de 1724 – o final invertido fica como sugestão para o jogo do bicho. Em termos de comparação, cada grau Celsius equivale a 1,8 Fahrenheit.

Um livro escrito em 1953 usou essa segunda escala em seu título, o que pode soar bem estranho se o leitor não souber a razão disso. Me refiro a Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. Nele o autor conta a história de um tempo no qual os livros são proibidos, devendo ser queimados quando descobertos, sendo considerados criminosos os proprietários que os mantivessem escondidos. Essa obra é a versão ampliada de um conto que o escritor e roteirista norte-americano havia produzido antes, com o título de The Fire Man (O Bombeiro), na sala de datilografia existente no porão da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Ele alugava para tanto uma máquina de escrever, pagando dez centavos de dólar. O nome dado ao trabalho ampliado refere à temperatura na qual o papel entra em combustão e é destruído.

Na sociedade distópica que é descrita, as pessoas passam boa parte de suas vidas consumindo doses maciças de comprimidos tranquilizantes e sentadas em frente à televisão. A soma destes dois recursos garante que a sociedade permaneça alienada, com ambos cumprindo o fundamental papel da “pacificação”, do estímulo ao não pensar. E para garantir que ninguém saia dessa situação e busque a centelha desafiadora que os livros propiciam, existem os “bombeiros”, um grupo de agentes responsáveis pela “higiene pública”. É sua a responsabilidade de queimar todos os livros que sejam encontrados a partir de denúncias.

A reação das pessoas se dá através de grupos que se organizam para memorizar as obras, como forma de resistência. Mas o ponto central da narrativa está no momento em que o personagem Guy Montag, que é um dos bombeiros, se depara com uma mulher que se recusa a abandonar seus livros localizados pela censura, optando por ser incinerada junto com eles. Ele percebe que deve haver algo muito importante naqueles objetos de papel, pois só isso explicaria alguém preferir sua própria morte do que passar a viver sem eles. Mas essa sua nova postura questionadora se torna um desafio ao sistema, passando ele próprio a ser vítima, precisando ser reeducado sob pena de prisão.

Ray Bradbury era apaixonado pela leitura desde criança. Consumidor contumaz de todas as obras de Júlio Verne, Edgar Allan Poe e H.G. Wells, ele frequentava quatro vezes por semana as bibliotecas de sua cidade. Como autor, escreveu mais de 400 contos e publicou perto de 50 livros, com ensaios, poesias, peças de teatro, roteiros para filmes e toda a sorte de narrativas ficcionais, com ênfase para ficção-científica, fantasia e horror. Recebeu merecido reconhecimento profissional ainda em vida, sendo agraciado com várias premiações, a última delas o Pulitzer Prize Special Citation, no ano de 2007. Outras de suas obras marcantes são Os Frutos Dourados do Sol e Crônicas Marcianas, ambas de literatura fantástica, além de O Homem Ilustrado. Faleceu em 2012.

Na vida real, a queima de livros já aconteceu – e ainda acontece – em inúmeras ocasiões. Em quase todas foram rituais que pretendiam apagar a história e silenciar aspectos da cultura ou de ideologias opostas aos detentores do poder. Em 1258 destruíram a Biblioteca de Bagdá. O mesmo foi feito na China, durante a dinastia Qin. As fogueiras públicas organizadas pelos nazistas na Alemanha são dos registros mais tristes daquele regime. Nos Estados Unidos, ainda nos anos 1950, houve determinação do governo para destruição de milhares de obras que consideravam “contrárias aos bons costumes”. Algo semelhante foi feito no Chile, no período da ditadura de Pinochet. E aqui no Brasil, poucos dias atrás, bolsonaristas promoveram queima de livros de Paulo Coelho por ele ter criticado o atual presidente. Ao mesmo tempo está sendo anunciada taxação que tornará os livros ainda mais caros e distantes da maioria da população brasileira, talvez buscando acabar com o “problema” na sua origem. Se isso não resolver, o próximo passo provavelmente seja eliminar os escritores. Por segurança, não convém duvidar.

19.10.2020

Na foto, uma das muitas “cerimônias” de queimas de livros promovidas pelos nazistas

No bônus de hoje não teremos música. Nele o ator Antônio Abujamra declama o poema “Vou-me embora pra Pasárgada”, de Manuel Bandeira. Foi publicado no livro Libertinagem, em 1930, com características modernistas. Retrata a ideia de uma fuga imaginária, para um local que é muito melhor do que a realidade.