Chamar ele assim, com seu nome no diminutivo, só se explica sendo uma forma carinhosa de tratamento. Fosse pelo seu modo de agir, sua dimensão como ser humano, não seria Betinho, mas Betão. Como zagueiro que se preza, da várzea, no barro. Mas ele atuava em outros campos e num jogo bem mais complicado de vencer: combatia a desigualdade social. Foi ele, Herbert José de Sousa, o idealizador da Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida, movimento criado para lutar em favor dos pobres e excluídos do nosso país.

Mineiro de Bocaiúva, Betinho tinha dois irmãos que também ganharam notoriedade ao longo da vida: o cartunista Henfil e o músico Chico Mário. De corpo debilitado pela hemofilia herdada geneticamente da mãe, mas também devido a outros problemas de saúde enfrentados, como uma complicada tuberculose, ele ainda conviveu durante a infância com um ambiente que o fazia presenciar cotidianamente a morte, pois seu pai tinha uma funerária. Pacato, observador e estudioso, durante a década de 1950 teve contato e influência dos padres dominicanos. Fez parte da Juventude Estudantil Católica (JEC) e da Juventude Universitária Católica (JUC), essa última enquanto estudava Sociologia, na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, da Universidade Federal de Minas Gerais. Graduou-se em 1962 e, durante o governo de João Goulart, foi assessor do Ministério da Educação e Cultura, trabalhando com o ministro Paulo de Tarso Santos. Nesse tempo, defendia a necessidade da implantação de reformas de base, para o desenvolvimento do Brasil.

Quando do golpe militar de 1964, mobilizou-se contra a ditadura sem esquecer da prioridade que sempre deu a causas sociais. Com isso, precisou exilar-se no Chile, onde assessorou Salvador Allende. Em 1973, com o assassinato do presidente chileno, em nova ação liderada por forças armadas, outra vez com idealização e apoio dos EUA, esteve refugiado na embaixada panamenha e depois morou no Canadá e no México. De volta ao Brasil, fundou em 1981 o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), junto com os economistas Marcos Arruda e Carlos Afonso. Cinco anos depois, contraiu o vírus da AIDS devido às transfusões de sangue às quais se submetia, em função da hemofilia. Ocorreu o mesmo com seus dois irmãos, que enfrentavam idêntico problema de saúde.

Ações governamentais, muitas das quais inspiradas nele, haviam retirado o Brasil do mapa mundial da fome crônica, segundo a FAO – Food and Agriculture Organization of the United Nations. O Fome Zero, criado por Lula no ano de 2003, foi a ampliação e aprimoramento do Comunidade Solidária, que era presidido pela primeira-dama dos governos anteriores aos do PT, Ruth Cardoso. Esse trio – Betinho, Ruth e Lula – conseguira tornar nosso país mais generoso e humano, conquista que o retrocesso atual está destruindo. A fome voltou às ruas e periferias, sendo essa uma constatação oficial do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Ele assegura que de 2016 para cá aumentou em cerca de três milhões o número de pessoas sem acesso regular à alimentação básica. Isso que foram considerados apenas quem mora em domicílios ditos permanentes, sem acrescentar os moradores de rua.

Betinho faleceu em agosto de 1997, no Rio. Agora, sonharmos com “a volta do irmão do Henfil, de tanta gente que partiu”, como cantou Chico Buarque, não é o suficiente. Até porque ninguém reencarna já adulto e, além disso, ideias e ocasiões não seriam as mesmas, as necessidades pessoais poderiam ser outras. Aquela volta citada na música era a física, do exílio a que tantos que pensavam de fato no bem do país foram submetidos. Temos é – nós que ainda estamos aqui – agir no sentido de dar continuidade àquilo que ele começou. Não é possível que o mundo, no estágio evolutivo já alcançado, ainda conviva com fome e miséria. Existem recursos disponíveis para todos, mas alguns não permitem a sua distribuição. A falta de justiça social é vergonhosa. E isso não se resolve apenas com assistencialismo e preces, por mais que isso seja importante. Ações urgentes são muito necessárias, como as que Betinho jamais se furtou de protagonizar.

29.10.2020

Herbert José de Sousa, o Betinho

29.10.2020

No bônus musical de hoje, João Ricardo canta Tem Gente Com Fome, que fez sobre parte da letra de poema de Solano Trindade, que tinha o mesmo nome.

1 Comentário

  1. Sempre admirei muito o trabalho do Betinho. Esse realmente lutou de corpo e alma pela causa dos pobres e excluídos. E não era político. Lamentável é saber que além de hemofílico, o cara contraiu o HIV devido às transfusões de sangue. Que absurdo! Aliás, ele, seus irmãos e provavelmente, muitas outras pessoas! Este vai deixar saudades, sempre! Foi um grande cidadão, que deixou um belo exemplo a ser seguido! Abraços, Solon!

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