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ESTRELAS NO CHÃO, SENTIMENTOS NO CÉU

Juro para vocês que se eu tivesse escrito isso seria um homem realizado, pelo menos no suposto quesito “produção intelectual”. Na minha modesta opinião é muito improvável que alguém consiga ser mais preciso numa demonstração do que seja o amor por uma mulher, mantido intacto mesmo quando ela já foi embora – “foste a sonoridade que acabou”. O sentimento superando as adversidades e uma vida precária em termos materiais. O morador do morro do Salgueiro que teve a sorte de conviver com a amada e registra isso, em pura poesia, não como um lamento pelo término, mas como uma exaltação pelo tempo compartilhado. Sílvio Caldas foi mesmo um grande mestre, com intenso brilho próprio, apesar de ser muito mais intérprete do que compositor. A perfeição chamada Chão de Estrelas resultou de parceria sua com Orestes Barbosa – esse um jornalista nascido na classe média, que chegou a ser menino de rua por circunstâncias posteriores -, se tornando um dos maiores sucessos nas carreiras destes dois cariocas.

Entre as grandes interpretações de Silvio Caldas estão obras-primas de gente como Noel Rosa, Herivelton Martins e Ari Barroso, o que não é pouca coisa. Mesmo sendo produção de gerações anteriores à minha, muito anteriores à de boa parte dos meus leitores, provavelmente todos nós já pelo menos ouvimos falar de As Pastorinhas, Na Baixa do Sapateiro ou de A Deusa da Minha Rua, que integrou a trilha sonora da recente regravação da novela Éramos Seis, na Rede Globo. E Orestes Barbosa, além de ter escrito 13 livros, assinou 117 canções sozinho e com diversas parcerias a maioria delas sambas e sambas-canção, mas também valsas, fox-trot, marchas e até tango.

A seresta Chão de Estrelas é de 1937. Evidente que a visão da favela além de interna é diferente, porque os tempos eram outros. É glamourosa, em quase nada tendo semelhança com a realidade dos últimos anos, com a presença do tráfico de drogas e das milícias, enlouquecendo a vida de moradores comuns, que lá estão porque este é o pedaço de chão que lhes restou. Ou alguém duvida que estas pessoas prefeririam estar na Avenida Viera Souto, de frente para o mar e de costas para os problemas da vida? Naquela época os morros eram muito mais locais onde nascia o samba, onde se cultivava a capoeira, de onde se observava a vida do alto. “/Nossas roupas comuns dependuradas /Na corda, qual bandeiras agitadas /Pareciam um estranho festival /Festa dos nossos trapos coloridos /A mostrar que nos morros mal vestidos /É sempre feriado nacional.” O morro da vida que segue, da felicidade possível. O feriado não é o descanso, mas o desemprego que, mesmo doloroso, não pode matar a alegria.

Um dos principais grupos de rock do Brasil, Os Mutantes, incluiu Chão de Estrelas no terceiro LP que lançou: A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (Polydor – 1970), que foi produzido por Arnaldo Sacomani – ocupava a terceira faixa do Lado B. O mesmo trabalho foi reproduzido em 1992, em formato CD. Era uma interpretação jocosa mas não desrespeitosa – no final acrescentam dois ou três versos. Com a irreverência sendo sua marca, no mesmo LP/CD estão músicas como Meu Refrigerador Não Funciona e Ave, Lúcifer. Esse grupo paulista surgiu em 1966, sendo originalmente um trio formado por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Reis. Dinho Leme e Liminha também viriam a fazer parte, depois. Curioso é que seu nome de batismo era Os Bruxos, mas foi alterado por sugestão de Ronnie Von, cantor e apresentador do programa de TV onde se apresentaram pela primeira vez. Influenciados pelo movimento Tropicália, lançaram um total de nove álbuns até seu final, 12 anos depois, em 1978.

O apaixonado agora platônico da canção não era um alienado. Ele tinha noção da realidade e de que os olhos fixados na paixão não precisam necessariamente deixar de perceber o que acontece ao seu redor. “/Palhaço das perdidas ilusões /Cheio dos guizos falsos da alegria /Andei cantando a minha fantasia /Entre as palmas febris dos corações”. Ele não se ilude, mas também não se revolta. Ao contrário, entende as circunstâncias da vida. Percebe que a inconstância da felicidade não deve nos afastar da doce ilusão de vivê-la. E também que a pobreza material não precisa ser parceira da pobreza de espírito.

“/A porta do barraco era sem trinco /Mas a lua, furando o nosso zinco /Salpicava de estrelas nosso chão /Tu pisavas nos astros, distraída /Sem saber que a ventura desta vida /É a cabrocha, o luar e o violão.” Seria tão mais fácil dizer que não tinham sequer privacidade. Seria tão óbvio relatar que as goteiras eram inevitáveis diante de qualquer chuva. Mas daí viria sobre seus ombros o peso da materialidade da vida e não a suave presença da luz do luar, que certamente iluminou muitas noites de amor. Noites nas quais ele, com sua sensibilidade de violeiro, via em alguns momentos os pés provavelmente descalços da amada deslizando no palco em que mereciam desfilar. Uma imagem poética aos seus olhos, celestial como a própria mulher. Sem dúvida, isso é puro sentimento.

26.04.2020

Abaixo, um “link bônus”, com dueto improvável: Maria Bethânia interpretando e Zeca Pagodinho tentando cantar Chão de Estrelas.

ESQUECIDOS E INSEPULTOS

Uma voz autêntica e que destoa da mesmice que às vezes parece assolar os lançamentos literários. Uma autora jovem, que se mostra consistente ao seguir caminhos que fogem ao lugar comum, ao modismo. Essa é Ana Paula Maia, uma carioca de 42 anos que conseguiu a proeza de vencer o concorrido Prêmio São Paulo de Literatura duas vezes seguidas, nos últimos dois anos. Com obras que, como se fossem premonições, têm uma relação umbilical em seu conteúdo com o momento que estamos vivendo no mundo e, em especial, no nosso país – porque aqui à pandemia soma-se um tipo de caos social, um desconforto que sempre esteve presente e a circunstância traz à tona, como dejetos que retornam aflorando à superfície de um canal por onde escoa esgoto.

O livro vitorioso em 2018 é Assim na terra como embaixo da terra, que fala de homens confinados num lugar no meio do nada. Uma penitenciária que está por ser desativada e que, como se tivesse sido esquecida pelo sistema, permite que o encarregado pelos presos estabeleça ele mesmo normas e limites. Algumas vezes, para se ocupar e combater o próprio tédio, libera um dos presos para que fuja e seja caçado por ele. A morte do detento abatido a tiros não será notada, o cadáver não será reclamado. A terra vai comer o seu corpo, assim como o tempo já havia devorado suas esperanças. Todos estão sempre esperando algum comunicado oficial, sobre o presídio e sobre eles próprios, mas o governo nunca responde, nunca se manifesta.

Essa é a reprodução ao extremo da máxima direitista que afirma ser bom o bandido morto. Seu sangue não vale nada, mas ferve no calor insuportável do lugar. A jaula só abriga conflitos e a total insanidade só termina com o abate. A ironia maior é que a construção fora erguida no local de uma antiga sede de fazenda. O chão já estava repleto de escravizados que tombaram vitimados por excessos no passado. E continua sendo regado com o mesmo sangue negro. Nunca houve tentativa de recuperar ninguém e a distância, o total isolamento social, apenas confirma a destinação ao esquecimento. A história é kafkaniana e curta: tem apenas 144 páginas e foi publicada pela Editora Record.

O segundo livro premiado é Enterre Seus Mortos. Conta a história de dois homens que trabalham recolhendo corpos de animais, vítimas de atropelamentos nas estradas – um deles, por sinal, ex-padre que fora excomungado. As carcaças são removidas com a raspagem do asfalto, jogadas na carroceria de sua caminhonete e levadas para um galpão onde são trituradas. O problema aparece quando eles descobrem que também existem corpos humanos jogados às margens das rodovias. O que fazer com eles? Para quem informar e o que dizer? Ninguém parece transitar pelas redondezas, exceto eles próprios. Sua companhia é o céu e o silêncio, esse idêntico ao da sociedade perante o sumiço de indesejados.

A maior dúvida dos dois homens é sobre o que pretendiam os mortos. Para onde eles iriam, se nada existe ao redor, se não há destino provável por perto? Mesmo sendo pessoas brutalizadas pela vida, ambos entendem que não é possível deixar os corpos à disposição de animais que os devorem. Buscam então dar destino melhor aos esquecidos, sendo a religião assunto tangenciado no texto, também de forma crítica, com o peso que a culpa coloca nos ombros das pessoas. A questão do batismo é abordada, com a percepção do paradoxo da pureza ser alcançada com o mergulho nas águas de um rio imundo. Outra história curta, com 136 páginas, esta publicada pela Companhia das Letras.

São dois livros pesados, que demandam estômago para que sejam lidos. Mas nada muito mais do que é exigido para que se digira os noticiosos que a televisão joga dentro das nossas salas, todos os dias. Por isso merecem mesmo a recomendação. Agora, me caíram todos os butiás do bolso quando eu descobri o nome do livro que ela havia escrito antes destes dois citados, em 2013: De Gado e de Homens. A mulher só pode ser a reencarnação de uma pitonisa grega, talvez a original Pythía (Serpente), reconhecida pelas profecias certeiras que fazia, ao ser inspirada diretamente pelo poderoso Apolo, uma vez que era a sacerdotisa do templo a ele dedicado, em Delfos. Um dia ainda visito o local, situado nas costas do monte Parnaso.

24.04.2020