VIAGEM DE CARONA, ADONIRAN E O CORINTHIANS

Eu conheci São Paulo no dia 10 de fevereiro de 1980, exatos 42 anos atrás, quando cheguei na cidade sozinho e de carona. Era uma manhã de domingo e eu não tinha nenhuma referência para nada, exceto um papel no bolso onde estava o endereço de um irmão do marido de uma tia minha – Rua Adelina 17. Eu nunca tinha visto essa pessoa na vida e ele não sabia da minha existência. Iria procurar, na cara e na coragem, me apresentando e pedindo estadia. Coisa de adolescente. Precisei usar um “orelhão” – os mais moços que estejam me lendo talvez nem saibam desse apelido dos telefones públicos daquela época, instalados nas ruas de todas as cidades – para perguntar para a Polícia Militar ao menos o bairro onde aquela rua ficava. Era no Tucuruvi. Depois, fui tratando de me informar com outras pessoas, sobre que ônibus deveria pegar para chegar lá. E foram pelo menos três. Um deles eu jamais esqueci o nome, porque era uma linha que levava até Jaçanã. E eu conhecia a música de Adoniran Barbosa (1912-1982) que citava o distrito, que fica na zona norte, circundado pela Serra da Cantareira e pela cidade de Guarulhos.

Trem das Onze foi composta em 1961, sendo gravada apenas três anos depois, pelos Demônios da Garoa. Teve sucesso instantâneo, passando a ser tocada em emissoras de rádio de todo o país. A letra, que trazia de propósito erros de português – usou esse mesmo recurso em outras composições suas –, viria a se tornar o maior sucesso do autor. Rendeu dinheiro suficiente para que ele comprasse o sítio dos seus sonhos e nele morasse até o final da vida. Mas o talento e a criatividade deste compositor foram muito além disso. João Rubinato, seu verdadeiro nome, foi também cantor, humorista e ator. Um dos seus hábitos era criar vários personagens, que apresentava em programas de rádio. Um deles levava o nome que depois ele adotou artisticamente, quando criador e criatura passaram a se confundir, pela grande popularidade.

Como compositor, lançou ao longo da vida 12 discos próprios, além de ter participado de coletâneas. Várias outras músicas suas alcançaram grande destaque, entre elas Saudosa Maloca, Samba do Arnesto e Tiro ao Álvaro. Como ator, esteve em 15 longas e em nove trabalhos feitos para a televisão. Filho de um casal de italianos que veio de Cavarzere, cidade da província de Veneza, João/Adoniran tinha sete irmãos e teve que trabalhar desde os 12 anos, iniciando como entregador de marmitas. Foi quando aprendeu a enfrentar a fome comendo um que outro bolinho de arroz, antes de fazer a entrega. Um pouco maior, tenta um lugar nos palcos, mas sem indicação de nenhum “padrinho”, sempre é rejeitado. Termina indo para o rádio, onde começa carreira no samba por acidente, enquanto esperava uma oportunidade como ator. As portas se abrem quando interpreta o samba Filosofia, de Noel Rosa. Depois é que foi se arriscar com composições próprias. Conhecedor da condição humana, se dá conta de que o público quer mais do que drama e acrescenta aquilo que se tornou característica sua: uma boa dose de humor, seguindo uma nova estética, de um samba bem paulistano.

Adoniran casou duas vezes: com a primeira esposa ficou um ano; com a segunda, Matilde De Lutiis, o restante da vida. Ela assumiu papel importante também para a carreira do marido, a quem incentivava sempre. Para tanto, trabalha fora e o ajuda em momentos difíceis. Ele, por sua vez, divide seu tempo entre o rádio, a boemia e a companheira. Numa das suas noitadas exagerou e perdeu a chave de casa. Teve que acordar a mulher e isso resultou numa demorada discussão. Mas também em um outro samba de qualidade, que levou o nome de Joga a Chave. Nos Anos 1970 ele foi o “garoto propaganda” em anúncios da Cervejaria Antarctica, para os quais foi criado o bordão “Nós viemos aqui pra beber ou pra conversar?” E no Carnaval de 2022 a Dragões da Real, escola de samba paulistana do Grupo Especial, irá homenageá-lo com o tema do desfile, ficando o desenvolvimento a cargo do carnavalesco Jorge Silveira. Devido ao recrudescimento da pandemia, isso deve ocorrer no mês de abril.

Na tarde daquele mesmo dia em que conheci a capital paulista, tinha a final do campeonato estadual de futebol do ano anterior. Coisas do calendário brasileiro, que hoje em dia não é lá essas coisas, mas então era simplesmente o caos. Fui para o Morumbi, levado por dois membros da família que me acolheu (Augusto e Luiz Gonzaga) e por dois funcionários da USP amigos deles (Luizão e Hamilton), usando todo orgulhoso uma camiseta do Grêmio, além de portar uma bandeira do tricolor gaúcho. Não enfrentei problema algum por isso e vi a vitória do Corinthians por 2×0 sobre a Ponte Preta, gols de Sócrates e Palhinha. O público foi de incríveis 90.578 espectadores. Adoniran Barbosa era um corintiano fervoroso e estava vivo na época – veio a falecer dois anos depois, em 23 de novembro –, mas não sei se compareceu ao estádio.

10.02.2022

João Rubinato, o Adoniran Barbosa

O bônus de hoje é a faixa dez do álbum Ao Vivo Convida, do Grupo Fundo de Quintal. Foi gravado com uma série de convidados especiais, como Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho, Leci Brandão, Jorge Aragão, Dudu Nobre e muitos outros. Neste clipe estão juntos com os Demônios da Garoa, cantando o clássico Trem das Onze, de Adoniran Barbosa.

Hoje trago três sugestões distintas para os leitores: um álbum com 21 sucessos de Adoniran Barbosa; uma biografia do sambista; e um guia prático para quem quer curtir o melhor da cidade de São Paulo. Como sempre, basta clicar sobre qualquer uma das imagens acima para ser redirecionado. Se um ou mais dois itens forem adquiridos usando esses links para acesso, o blog será comissionado.

  1. O álbum dá uma ampla visão sobre o talento e a obra do sambista paulista, trazendo sucessos de sua carreira. Estão nele, por exemplo, Abrigo de Vagabundo; As Mariposa; Bom Dia Tristeza; Iracema; Luz da Light; Mulher, Patrão e Cachaça; No Morro da Casa Verde; Samba do Arnesto; Torresmo à Milanesa; Saudosa Maloca; Um Samba no Bixiga; Tiro ao Álvaro; Vila Esperança; Trem das Onze; Viaduto Santa Efigênia; e Apaga o Fogo, Mané.
  2. Ninguém expressou melhor a confluência de caipiras, italianos e malandros suburbanos em São Paulo do que João Rubinato, o genial Adoniran Barbosa. Esta biografia – agora em nova edição, revista e ampliada – narra a trajetória desse ícone da cultura paulistana: os incontáveis biscates na adolescência, a iniciação no rádio durante os anos 1930, a criação de algumas de suas canções mais conhecidas e inúmeros “causos” deste inesquecível compositor. O volume traz ainda 130 imagens e a sua mais completa discografia.
  3. Um guia prático para você curtir o melhor da cidade: museus, centros culturais, parques, atrações históricas, passeios com crianças, principais endereços para compras e as atrações dos mais famosos bairros típicos, como a Liberdade, o Bixiga e a Vila Madalena. E ainda: uma seleção dos restaurantes mais consagrados da cidade e os hotéis de luxo que oferecem opções de day use e de brunch de domingo. A publicação é de 2021.

AMOR FORA DE SÉRIE

Vez por outra ouço alguém dizendo “isso é só futebol”, em geral quando o resultado de algum jogo não foi o que se esperava. Isso vale como uma espécie de consolo, para a própria pessoa ou para terceiros. Sem dúvida, a afirmação é verdadeira. Mas também não é. Ou seja, trata-se de uma verdade relativa. Isso porque a racionalidade, por um lado, nos lembra que se trata de um esporte, de um jogo. De algo que foi criado para ser diversão, lazer. Por outro, entretanto, existe todo um apelo fortemente emocional, uma ligação afetiva que se estabelece e passa a importar sim. E a importar muito. O torcedor verdadeiro sempre será um apaixonado. Há uma profunda ligação, identidade e pertencimento. Assim, derrotas não são apenas derrotas e vitórias valem muito além do que o placar conquistado.  

Estou publicando essa crônica na manhã da quarta-feira, 8 de dezembro de 2021. Ainda não sei, portanto, o que acontecerá amanhã à noite, quando estarão sendo disputados os jogos que compõem a última rodada do Brasileirão deste ano. Todos sabem que sou um apaixonado pelo Grêmio e que meu clube poderá ser rebaixado para a Série B, se não houver uma combinação muito favorável de resultados. Não nos basta derrotar o Atlético Mineiro, campeão por antecipação e melhor time da temporada. Precisamos que outros dois competidores percam seus jogos, para que possamos ultrapassá-los na tabela de pontos. Do ponto de vista probabilístico, estamos em séria desvantagem. E a lógica, não sendo contrariada, nos remete para o pior cenário. Mas eu irei até a Arena, carregando a mais sincera das esperanças. Não fosse assim e não seria digno de vestir essa camisa e ser chamado de torcedor.

Não haverá vergonha alguma em acompanhar o Grêmio contra Guarani e Ponte Preta, de Campinas; Náutico e Sport, de Recife; os paranaenses Londrina e Operário; Vasco da Gama, do Rio de Janeiro; Cruzeiro, de Belo Horizonte; Criciúma, CRB, CSA e mais alguns outros clubes que hoje habitam o segundo degrau, no próximo ano, se isso se tornar necessário. Já estivemos onde muitos consideram ser um inferno e voltamos de lá. Isso ocorrendo, temos que ter a grandeza de admitir nossas falhas e dignidade para buscar o retorno, dentro do campo.  Aliás, as falhas nem precisam ser admitidas: elas estão todas totalmente escancaradas na falta de critérios em contratações e dispensas, na falta de comando adequado no vestiário. Todo o sofrimento foi mais do que merecido e a queda, se vier a ocorrer, terá sido justa. O que não significa que a gente a deseje. Nesta quinta-feira não irá ocorrer resignação ao longo dos 90 minutos e dos eventuais acréscimos. Perder é do jogo, não lutar sempre é inaceitável. Apenas se lamenta que nosso futuro não esteja sendo decidido exclusivamente nas quatro linhas que teremos diante dos nossos olhos. Em outros endereços estaremos sendo representados por terceiros, que terão que fazer o que nós mesmos não fomos capazes de fazer. Mas, se até Deus escreve certo por linhas tortas, por que não acreditar numa conquista indireta?

Não se abandona quem se ama, quando esse alguém está doente. Não se desiste da vida, enquanto existe a mais tênue esperança. Exageros comparativos à parte, vamos nos permitir continuar sonhando, até que o juiz dê o apito final. Afinal, não é só futebol, mas muito mais do que isso. É um amor incondicional. Um amor fora de série. Fora mesmo: pode ser na A ou na B que seguiremos “com o Grêmio onde o Grêmio estiver”, como está no hino composto por Lupicínio Rodrigues. A Arena nos espera amanhã – conclamo todos os gremistas – e o futuro haverá de nos reservar muitas e muitas glórias ainda.

08.12.2021

No bônus de hoje, Maria Bethânia. Primeiro ela interpreta o poema Apesar das Ruínas e da Morte, de Sophia de Mello Breyner Andresen. Depois, prossegue com a música Sonho Impossível, uma versão feita por Chico Buarque de Holanda e Ruy Guerra, da canção norte-americana The Impossible Dream, de Joe Darion e Mitch Leigh. Sophia (1919-2004) foi uma das mais importantes poetisas do Século XX, tendo sido a primeira mulher portuguesa a receber o maior galardão literário do nosso idioma: o Prêmio Camões, em 1999.

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