Em um conto célebre, Jorge Luis Borges criou um conceito literário ao qual deu o nome de Aleph. Este argentino, seguramente um dos maiores escritores do Século XX e talvez o autor que mais influenciou a literatura contemporânea quando o assunto é a relação entre ficção, memória, filosofia e infinito, foi muito feliz naquela narrativa curta. Isso porque descreve no texto em questão o Aleph como sendo um pequeno ponto no espaço que contém, simultaneamente, todos os outros pontos do Universo.
Borges o retrata de maneira inesquecível: uma esfera diminuta, de poucos centímetros, mas na qual cabem todos os lugares do mundo vistos de todos os ângulos possíveis. O narrador vê oceanos, desertos, cidades, pessoas, estrelas, objetos microscópicos e galáxias, tudo de forma simultânea. O desafio do conto é justamente este: como colocar em palavras uma experiência que ultrapassa absurdamente toda a capacidade da linguagem?
E o que é mais desafiador ainda: quem o contempla consegue ver tudo o que existe, existiu e existirá. Ou seja, ele simplesmente destrói a noção de tempo, ao mesmo tempo em que contrai o espaço. É o todo, sendo o resultado do tudo com o sempre, sem qualquer sobreposição ou perda de detalhes. Esta é uma visão muito própria do que seria o “absoluto”. Uma abstração de fato genial. Uma espécie de olho de Deus.
Agora, Borges não foi o inventor da palavra Aleph. Ele apenas usou sua liberdade criativa, apropriando-se de um símbolo que é antiquíssimo e carregado de significados, transformando-o literariamente. Esta é, por exemplo, a primeira letra do alfabeto hebraico, tanto no bíblico quanto no moderno. Curiosamente, ela não corresponde propriamente a uma vogal ou consoante como entendemos no idioma português. Representa uma parada glotal, que muitas vezes é silenciosa. Agora, temos que lembrar que o hebraico bíblico favoreceu uma tradição na qual letras não são apenas sinais gráficos: possuem valor simbólico. Isso permite associar aleph à ideia de que o universo começa quando aquilo que não tinha nome passa a ser nomeado. E na sua tradição mística, particularmente na Cabala, as letras hebraicas possuem valores numéricos, simbólicos e cosmológicos.
Lembremos ainda que o matemático Georg Cantor (1845-1918), nascido em São Petersburgo, no Império Russo, e radicado na Alemanha, usou a letra aleph para representar diferentes tamanhos do infinito. Apresentou o ℵ₀ como sendo a cardinalidade dos números naturais: 1, 2, 3, 4… Uma sequência que nunca termina. E ele foi além, usando ℵ₁, ℵ₂ etc. para representar cardinalidades infinitas maiores. Ou seja, essa ainda é provavelmente a associação mais poderosa para dialogar com Borges: o infinito transformado em símbolo. A matemática e a literatura se encontrando diante de um mesmo mistério. O inexplicável sendo visto de um modo totalmente inexplicável. Para ser o mais didático possível, a letra tenta nomear o princípio, a mística busca alcançar a unidade, a matemática tenta medir o infinito e Borges busca vê-lo.
Aleph – o conto – continua nos fascinando porque, no fundo, todos nós procuramos um ponto qualquer de onde seja possível enxergar o que fomos, o que somos e aquilo que ainda seremos. Um lugar impossível onde caibam, ao mesmo tempo, nossas perdas e nossos encontros, as pessoas que ficaram e as que partiram, o primeiro dia e o último de tudo, o instante e a eternidade. O escritor argentino “encontrou” esse ponto no porão de uma casa na rua Garay, em Buenos Aires. Cantor, por sua vez, o achou entre os infinitos. Os antigos o desenharam como a primeira letra. Nós, menos sábios e talvez mais pretensiosos, passamos a vida inteira procurando o nosso. Eu, ainda sem sucesso.
29.08.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é O Silêncio das Estrelas, de Lenine. Uma canção que olha para a imensidão e o mistério, como se também procurasse, em algum lugar do infinito, o seu próprio Aleph.
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