O FRIO, O TÁXI E A ESCOLA
Amanheceu muito frio, muito frio mesmo, naquela manhã de inverno. E os invernos costumam ser bastante rigorosos em Bom Jesus, minha cidade natal. É impossível eu dizer hoje quanto os termômetros estavam marcando, mas é provável que estivessem bem abaixo de zero. Mesmo assim, me mandaram para a escola, contra a minha vontade.
Seria tão melhor ficar no quentinho da cozinha, perto do fogão à lenha. Eu estava no primeiro ano do Curso Primário, como se chamava naquela época. Entrei praticamente alfabetizado quando as aulas iniciaram. Deste modo, em pleno mês de agosto os atrativos da escola já não deveriam ser iguais aos de março. Ou ao menos não me estimulavam a superar os obstáculos para chegar até o Grupo Escolar Conde de Afonso Celso.
Morávamos em uma das pontas da Av. Manoel Silveira de Azevedo, uma das principais vias da cidade. O prédio amarelo, aquela estrutura padrão de todos os grupos escolares de então, ficava também nela, mas bem distante, rigorosamente no lado oposto. E havia um agravante: o vento soprava no sentido contrário àquele que eu precisava seguir, pegando no rosto, gelando até os ossos. Como todas as demais crianças, de todos os pontos da cidade, eu também ia caminhando, sozinho. Não havia risco algum naquela comunidade onde todos se conheciam. Hoje, segundo o site da prefeitura, são 11.519 habitantes: pelo Censo de 1960 eram 9.436 almas. Mais de 65 anos e o crescimento é mínimo, porque o êxodo é imenso.
Resmungando, saí de casa com agasalho, cadernos e inconformidade. Não conseguia nem respirar, as bochechas vermelhas, o nariz congelado e apenas a raiva sendo algo quente. Isso não poderia ficar assim. Dobrei na primeira esquina à direita, rumando para o centro. Fui até o ponto onde ficavam os “carros de praça”, como se chamavam os táxis. Entrei no primeiro e pedi que me levasse para o colégio. Sem ter dinheiro, é evidente. No destino, a segunda ordem: agora o senhor vai até o cartório e cobra do meu pai. O motorista foi, sem discutir. Ele sabia de quem eu era filho. Na cidade, “mandavam” o juiz, o delegado, o padre, o prefeito e meu pai. Talvez pouca gente mais. E eu, sem saber, estava fazendo uso de um privilégio social, como poucas vezes mais pude fazer na minha vida adulta.
Quando de volta à casa nos encontramos, eu e Seu Walter, a pergunta inevitável: por que eu havia feito aquilo? Mas feita sem nenhuma crítica, nenhuma cobrança e até com um sorriso indisfarçável. Imagino que ele tenha gostado de saber que o filho, diante de uma dificuldade, tratou de buscar solução possível, com determinação e sem temer consequências. Décadas depois, sei que aquela alternativa só foi possível porque eu era filho de quem era. Naquele tempo, porém, eu não entendia nada sobre privilégios, diferenças sociais ou relações de poder. Sabia apenas que fazia um frio dos diabos e que, se havia um táxi disponível, não existia razão para chegar congelado à escola.
23.08.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Cota Não é Esmola, de Bia Ferreira.