QUANDO A VIDA CAI DO CÉU

Uma adolescente peruana chamada Juliane, um dia após ter recebido seu diploma de conclusão do ensino médio, embarcou no voo 508 da empresa aérea LANSA. Ele partiu do Aeroporto Internacional Jorge Chávez, em Lima, com destino à Iquitos, a capital amazônica daquele país, tendo antes uma parada programada em Pucallpa. Era véspera do Natal, no ano de 1971. Com ela estava sua mãe, a ornitóloga Maria Koepcke. Ambas iam ao encontro do biólogo Hans-Wilhelm Koepcke, pai de Juliane e marido de Maria. O casal era alemão, mas residia no Peru. Quando a filha única tinha 14 anos eles fundaram Panguana, uma estação de pesquisa na floresta. Elas estavam indo ao encontro de Hans.

Juliane ocupava a poltrona 19F, ao lado de sua mãe. O voo começou tranquilo, mas isso durou pouco. Cerca de 40 minutos depois da sua decolagem, nuvens escuras se formaram rápido demais, na frente do Lockheed L-188 Electra. Mais do que uma turbulência severa, passou a ocorrer uma série de relâmpagos e um raio terminou por atingir em cheio um dos tanques de combustíveis da asa direita do avião, que explodiu. Com isso, a asa desprendeu-se da fuselagem e toda a estrutura foi se desintegrando. Estavam voando a pouco mais de 3.200 metros de altitude, naquele momento.

A adolescente foi arremessada para fora, ainda presa pelo cinto de segurança ao seu assento. Segundo contou depois, escutou som de motores e os gritos das pessoas por poucos segundos. Seguiu-se um silêncio quebrado apenas pelo barulho do vento. Viu o manto verde se aproximando, mas desmaiou instantes antes do impacto. De maneira surpreendente, acordou em plena selva. No entender de técnicos em aviação, a estrutura de sustentação dos assentos, que veio junto com ela, funcionou como um paraquedas. E teria ainda tido a sorte de ventos ascendentes terem soprado naquele momento, reduzindo a velocidade da queda, amortecida depois pela densidade da floresta. Sua única lesão relativamente séria foi uma fratura na clavícula. Mesmo assim, levou mais de 12 horas para conseguir se levantar por completo.

Ela conhecia técnicas de sobrevivência, mas o seu estado físico não era favorável. Achando parte dos destroços do avião, conseguiu alguns pacotes de balas, que se tornaram seu único alimento. Mesmo debilitada, seguiu vagando pela mata fechada, buscando algum auxílio, por nove dias seguidos. Nesse tempo, conviveu com uma infestação de larvas no seu braço ferido e com centenas de picadas de insetos. Foi então que conseguiu localizar um acampamento aparentemente abandonado e encontrou recipiente com gasolina, que usou para encharcar sua ferida e afastar as larvas.

Ficou descansando no local por um dia inteiro, quando para sua sorte os ocupantes, que eram madeireiros, apareceram. Finalmente teria socorro. Foi levada para uma área habitada, onde tiveram como providenciar a vinda de um helicóptero que a levou para um hospital. Tão logo ela pode sentir-se melhor, voltou com as equipes de busca, orientando para que o local exato do acidente fosse localizado e o rescaldo da área pudesse ser feito. Apenas em 12 de janeiro de 1972 o corpo de sua mãe foi encontrado.

A recuperação final da jovem foi feita na Alemanha, onde ela estudou biologia da Universidade de Kiel, seguindo até um doutorado alcançado em Munique. Depois retornou ao Peru para fazer estudos e pesquisas, sendo especialista em morcegos. No ano de 2000 assumiu a direção de Panguana, devido à morte do seu pai. Atualmente está casada e mora outra vez na Bavária. A dupla sobrevivência de Juliane, à queda e à selva, terminou rendendo livros e filmes, além de um documentário na televisão. Em 2019 recebeu do governo peruano a Ordem do Mérito por Serviços Distintos, no grau de Grande-Oficial. Mas nada jamais será mais importante do que a permissão que sua vida continuasse, dada pela providência, 51 anos atrás.

26.11.2021

Lockheed L-188 Electra da LANSA, semelhante ao que sofreu o acidente

O bônus musical de hoje é duplo. Primeiro temos o áudio de Medo de Avião, de Belchior. A letra nos oferece um momento adolescente, quando um jovem que tem medo de voar ao mesmo tempo tem a coragem de pegar na mão da aeromoça, que acha sexy e bonita. Há citações, como aos Beatles, através de I Wanna Hold Your Hand (Eu Queria Segurar Sua Mão).

Depois temos Learn to Fly, da banda norte-americana Foo Fighters, com vídeo trazendo legendas em português e inglês. A gravação foi feita no Madson Square Garden, em 2021.

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