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SATCHITA, UM MANTRA PELA PAZ

Uma jornada musical, unindo Brasil e Índia, foi um dos tantos “presentes” que recebemos do movimento multimídia Playing for Change, nos últimos anos. Satchita – a pronúncia é algo como sét-ka – é um poderoso mantra hindu, que se ergue como uma oração pedindo paz para o mundo. E também intercedendo aos deuses para que curem a humanidade. Num momento em que a doença está sendo o estímulo maior para uma melhor percepção dos nossos aspectos humanos, ganha espaço e força esse apelo.

Mantra é o nome dado, na cultura indiana, para o som de uma palavra, um verso – muitas vezes para apenas uma sílaba – que segue prescrições determinadas, para uma finalidade mágica. É uma música, um canto que pode visar também contribuir para que se alcance um estado contemplativo, de reequilíbrio ou de cura. Ele tem repercussões espirituais e físicas, sendo recurso amplamente utilizado em rituais hinduístas e budistas. Nestas filosofias pode simbolizar ou evocar um livro sagrado ou um deus. Também é instrumento nas práticas da ioga. Em todos esses aspectos, tem também reconhecimento e uso no ocidente.

Playing for Change é um projeto global que foi criado para inspirar e conectar pessoas do mundo todo, através da música. No entender dos seus organizadores, a música, em função do seu poder inigualável de romper fronteiras e reduzir distâncias, pode aproximar quem está distante. Seja essa distância a geográfica ou a de condições de vida, com desigualdades econômicas, políticas e ideológicas. Enfim, eles têm a convicção absoluta de que a música tem o poder de transcender, ser universal de fato, unindo a todos como sendo um só povo. A sua estrutura administrativa é baseada numa fundação, uma organização não-governamental que tem também construído escolas de música em dezenas de comunidades carentes, em especial na África e na Ásia.

Satchita seria a junção das expressões SAT, sem forma, o vazio que permeia todo o Universo; com CHIT, espírito supremo ou consciência pura. A letra final é a inicial de Ananda, a alegria e felicidade eternas. Após os versos, que podem ser cantados em português, espanhol, francês ou qualquer outro idioma, segue-se uma sequência de exaltações que são originais da Índia. Uma tradução simplificada seria que Parabrahma é o supremo criador; Purushotamah a energia da encarnação; Paramathma a energia interior presente em cada um de nós; e Om o som primordial, a vibração do infinito.

Acreditar nesse poder não significa abrir mão da religião que se tenha ou da filosofia que se adote para nossas vidas: é simplesmente estar aberto a experiências outras e admitir que as coisas são mais complexas e, paradoxalmente, mais simples do que podemos compreender. É dar um voto de confiança na humanidade, por mais que se pareça não merecer isso. E o canal que nos aproxima agora dessa oportunidade é o Songs Around the Word, um dos braços do projeto, que grava com cada participante atuando em seu ambiente natural, combinando talentos e culturas. Além de brasileiros e indianos, desta vez músicos e cantores de Cabo Verde, Argentina, Jamaica, EUA, Cuba e Espanha se unem para que se multiplique a súplica levada aos céus. Pela paz que todos nós buscamos.

18.06.2020

O link abaixo conduz à integra da gravação do Playing for Change. Nos resta abrir o coração para receber Satchita, nutrindo nosso espírito com alegria e alta vibração.

O FETICHE DA FARDA

Um dos tantos absurdos cotidianos que se tem observado nos últimos tempos no Brasil é a mobilização de grupos de pessoas que pedem, nas ruas, a intervenção militar. Primeiro, isso é ilegal. Segundo, revela um total desconhecimento histórico. Assim, a explicação mais racional – se é que alguma racionalidade existe nisso – é creditar a atitude a uma compulsão psicológica: pedem algo que não entendem exatamente o que seja, para aplacar desejos inconscientes, destes que não convêm revelar. Uma idealização, um fetiche – algo que vai além da fantasia, pois atribui ao externo o poder de conceder ou negar o seu prazer. Um prato cheio para profissionais que lidam com saúde mental.

O fetiche pelo fardado vem da associação da imagem com o poder, a autoridade, a potência. Mas ela também é inconteste com a submissão e, em alguns casos, com a dor – tudo muito passível de ser associado à sexualidade. No caso da política, seria como pressupor que o simples uso da farda tornasse o militar mais capaz e competente para tudo. O protetor, o herói, o que conduz para a solução dos problemas reais ou imaginários. A mocinha e o machão manifestantes estão é sequiosos por um colo protetor. Ou por algo mais intenso. Acontece que é muito perigosa a dissociação entre a imagem que têm dos militares e os seus atos reais. Ver todos eles como “reserva moral” da nação, independente do que fizeram ou fazem, é um equívoco que inclusive pela imprensa vem sendo cometido. Cada vez que o presidente cria uma crise – e isso é quase que diário –, em geral por verborragia inconsequente, seja ela proposital ou não, correm repórteres a buscar informações sobre como tal desinteria foi recebida pela “ala” militar. E com isso a mídia realimenta uma confusão de sentimentos na população. No mínimo de medo, entre os que não comungam com essa visão e temem retrocesso; e de reforço na admiração, entre os que suspiram por eles.

Convém lembrar aqui que as sex shop vendem muita roupinha de enfermeira e professora, mas as mais sofisticadas também oferecem fardas estilizadas. E existe boa saída de algemas e chicotinhos. Não foi à toa que a Tiazinha fez tanto sucesso anos atrás, aparecendo na televisão de roupa de couro preta e justa, máscara e com um deles nas mãos. Nos EUA algumas produtoras de filmes pornô são especializadas em sadomasoquismo. Entre quatro paredes o “me bate, me bate” é muito mais comum do que se imagina. Talvez hoje calcinhas verde-amarelas estejam no agrado mais do que as tradicionais vermelhas. E não sei se algum fabricante já está produzindo consolos e plugins com o nome do Mito gravado, mas se ninguém está fazendo estão perdendo dinheiro.

Neném Prancha (1906-1976), que começou como roupeiro e chegou a técnico de futebol – apelidado carinhosamente de filósofo pelo jornalista Armando Nogueira – imortalizou a frase “Se macumba desse certo o campeonato baiano terminaria sempre empatado”. Se o uso da farda desse automático saber, astúcia, inteligência e capacidade estratégica para todos, as guerras também terminariam 0x0, sem vencedores e vencidos. Mas tem quem prefira seguir no pensamento mágico. Entope o Ministério da Saúde de milicos e todos eles, por osmose, se tornam experts em saúde pública, medicina, enfermagem e epidemiologia. As doenças batem em retirada do campo de batalha e o combate é vencido sem baixas. Deste modo, com fardados em todos os cargos importantes do governo, automaticamente o Brasil deixa a relação de países subdesenvolvidos e se torna líder no chamado Primeiro Mundo – foi por isso, essa competência toda, que durante o período da ditadura militar a nossa dívida externa cresceu quase 32 vezes, pulando de US$ 3,294 bilhões para US$ 105,171 bilhões, o que em valores de hoje equivalem a estratosféricos US$ 1,2 trilhão.

Segundo informações de novembro de 2019, apenas outros dez países em todo o mundo aplicam mais recursos nas Forças Armadas do que o Brasil. O orçamento é de US$ 29,3 bilhões – cerca de R$ 123 bilhões. Em comparação com a Argentina, temos quatro vezes mais pessoal, três vezes mais aeronaves, o dobro de veículos terrestres e quase o triplo de embarcações. Isso que eles são os nossos vizinhos melhor armados. Assim, essa estrutura toda tem muito mais razões internas do que externas. Para comparação, também no ano passado foram investidos R$ 122,6 bilhões no SUS. Com nossas fronteiras bem defendidas, podemos morrer felizes aqui dentro. Sem o atendimento necessário na área da saúde, mas emocionados com o verde-oliva das fardas sendo outra vez a cor da moda. E dos sonhos nem mais secretos de alguns.

16.06.2020