Ailton Krenak é brasileiro e indígena. Seu primeiro nome tem origem inglesa, com dois possíveis significados. Um aponta para a junção de Hill (Colina) com Town (Cidade) – seria, portanto, o habitante de uma localidade alta. Outro indica ser variação de Hilton, designando os nascidos em local que tinha esse nome. Mas esse nosso Ailton nasceu em 1953, no Vale do Rio Doce, em Minas Gerais, região do povo Krenak – de onde seu sobrenome. Com 17 anos de idade mudou-se para o Paraná, onde foi alfabetizado em português, vindo a ser produtor gráfico e também jornalista. Ficou conhecido em todo o país em 1987, quando subiu à tribuna durante a Assembleia Constituinte, com o rosto pintado de preto, seguindo costume de sua gente, para protestar contra os rumos que estavam sendo dados à questão dos índios. Foi fundador da União dos Povos Indígenas e hoje é líder de um movimento de despertar das comunidades ribeirinhas. Agora em 2020 foi responsável por ministrar a aula de abertura na Universidade de Brasília (UnB). Sua palestra foi seguida por outra, do neurocientista Sidarta Ribeiro, no dia seguinte.

Uma análise fria e racional sobre o que aconteceu nas Américas, ao longo de seus pouco mais de cinco séculos de existência, mostrará uma sucessão interminável de práticas genocidas e etnocidas. Os milhões de indígenas foram sendo reduzidos e silenciados. As vozes destes povos ancestrais são caladas e seu conhecimento e sabedoria, que muito poderiam enriquecer a existência e a cultura, mesmo dos invasores de suas terras, acabam esquecidos. E já teriam mesmo desaparecido por completo, não fosse o trabalho persistente de pesquisadores e das lideranças indígenas remanescentes. No Brasil, muito além dos tupiniquins, guaranis, krenaks, tupinambás, kaingangs, pataxós e yanomamis, originalmente eram pelo menos mil povos diferentes, somando mais de cinco milhões de indivíduos, quando aqui aportaram as caravelas comandadas por Cabral. Hoje são 256 povos, divididos entre reservas e áreas urbanas, não havendo nem 12% da sua população do ano de 1500. E representam apenas algo em torno de 0,3% dos brasileiros.

Aculturados, vitimados pelo descaso, desassistidos – mesmo com o esforço verdadeiro em sentido contrário, de algumas ONGs e de parte da estrutura estatal -, ainda há uma contribuição significativa que oferecem, inclusive no âmbito de propostas para uma nova visão de vida e de mundo. Exemplo é o pensamento de Ailton Krenak exposto na sua primeira obra impressa, Ideias Para Adiar o Fim do Mundo. Mesmo já havendo uma outra publicada depois (O Amanhã Não Está à Venda), para melhor entendimento daquilo que ele defende, convém começar pela anterior. O livro tem formato pequeno e poucas páginas – apenas 85. Mas é grande em relevância. Foi lançado pela Companhia das Letras, em 2019. Está dividido em três partes, sendo a primeira aquela que lhe deu o título. Traz o conteúdo de palestra que ele proferiu no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, no início do ano passado. A segunda parte, Do Sonho e Da Terra, é outra palestra também feita na capital portuguesa, dois meses depois da anterior, no Teatro Municipal Maria Mattos. Ela integrava o ciclo Questões Indígenas – Ecologia, Terra e Saberes Ameríndios. A terceira, A Humanidade Que Pensamos Ser, é uma transcrição editada de entrevista por ele concedida em 2017.

Basicamente, a crítica indígena recai sobre uma sociedade humana antropocentrista, que insiste em colocar o homem acima da natureza e não como uma parte dela. Essa premissa estaria nos encaminhando para um desastre socioambiental absoluto e inevitável. Por não reconhecermos um rio como nosso antepassado, o entulhamos com detritos. Por não entendermos os animais como irmãos e parceiros de uma mesma jornada, os condenamos à extinção. Por não interpretarmos o simbolismo da necessidade de termos raízes e, a exemplo das árvores, retirarmos do solo os nutrientes dos quais necessitamos, permitimos sua derrubada. E são os rios, os animais, as plantas e a terra que referenciam nossa própria vida. Relatar o que acontece com eles é entender e relatar o que acontece conosco.

“Minha provocação sobre adiar o fim do mundo é exatamente sempre poder contar mais uma história”, explica Aílton, ao melhor estilo Sherazade, personagem de Mil e Uma Noites. Ela adiava todos os dias o seu próprio fim, interrompendo narrativas e deixando o sultão Chahriar – que pretendia matá-la – ansioso se não por uma nova história, ao menos para ouvir o próximo capítulo da mesma. A humanidade, hoje em dia, precisa dar ouvidos aos insistentes alertas que tem recebido. Sob pena de não ter em breve mais nenhuma história para relatar ou ouvir.

04.05.2020

2 Comentários

  1. Quando voltar oara a sala de aula gostaria de trabalhar o texto com os meus alunos. Muito bom, como sempre. Vivemos momentos derradeiros, “nada mais será como antes”, assisto pessoas ansiosas por voltar à normalidade, até me comovo, não entenderam a situação. Citando o amigo, “Massacre ou bom senso? A massa crê no bom senso”…me dou conta, que nunca precisamos tanto acreditar que ainda existe bom senso, e que o mesmo irá prevalecer em breve. Grande abraço!

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