EU AMO NEOLOGISMOS
Não existe nada mais bonito, em nenhum idioma, do que sua capacidade de não apenas se reproduzir, mas se modificar. Nem tanto em sua estrutura básica, mas na criatividade das expressões que se multiplicam. Palavras que surgem para explicar, em geral com uma simplicidade assustadora, que não se sabe porque não nos ocorreu antes, algo que parecia muito mais complexo. Algo que precisava de várias outras palavras sequenciais para dizer antes a mesma coisa. Crianças pequenas são pródigas em fazer isso, uma vez que ainda não estão “domesticadas” pela gramática impositiva que a escola vai lhes apresentando com o tempo.
Tivemos no Brasil inclusive um médico pediatra que, ao se dar conta das preciosidades com as quais era presenteado, tanto pessoalmente no seu consultório quanto por relatos de pais, passou a sistematizar isso. Seu nome era Pedro Bloch, sendo importante acrescentar que além de se dedicar à medicina, ele também era dramaturgo e escritor. Ou seja, tinha tino e treino para se dar conta do valor daquilo que ouvia. Ficaram muito famosos, entre os anos 1960 e 1990, os livros que ele publicou, não apenas sobre esse tema. Na verdade, foram dezenas, somados os de temática infantil com outros sobre comportamento humano, peças de teatro e linguagem. As tiradas das crianças, antes de publicadas como antologias, eram crônicas que saíam em colunas nas revistas Pais & Filhos e Manchete.
Na dramaturgia, talvez sua melhor obra tenha sido a peça “As Mãos de Eurídice”, que se tornou um fenômeno histórico do teatro brasileiro. Os icônicos atores Procópio Ferreira e Grande Otelo interpretaram o texto por décadas, em milhares de apresentações, transformando o espetáculo numa espécie de instituição cultural nacional. Ele gira em torno da história de um homem abandonado pela mulher, Eurídice. Sozinho, ele rememora o casamento, afetos, frustrações, pequenos gestos cotidianos e, acima de tudo, as mãos da mulher, que são o símbolo afetivo e emocional central na narrativa. Seu Walter, meu pai, era apaixonado por esse texto que é nostálgico e sentimental, sustentado por grande habilidade oral. A peça conversa com o público. Hoje ela pode ser considerada sentimental demais e datada, mas jamais perderá sua força e sentido histórico.
Mas, voltando às crianças, a coleção de seus “erros vivos” engrandece quem as lê. Ainda existem exemplares dos diversos livros, que podem ser encontrados em sebos. Neles estão coisas como desconsegui (não conseguiu fazer algo), pirilampejar (verbo ligado à luminosidade dos pirilampos), apagador de escuro (interruptor da lâmpada), pensatório (lugar imaginário onde pensar), machucância (uma dor persistente), molhadeira (referindo-se a uma chuva forte), dorminhocoza (mistura de sonolenta e preguiçosa), risadeira (crise de riso), enxugância (secar algo), esfriador (ventilador), grudentice (coisa pegajosa), olhador (quem observa tudo), escondimento (lugar secreto para ocultar coisas), roncância (barulho persistente do ronco) e a fenomenal desobedecível (aquilo que implora por desobediência). Esses são alguns poucos exemplos, para ilustrar o seu longo trabalho. Multiplicam-se às centenas, nos originais.
O interessante é perceber como as crianças têm enorme facilidade para enxergar padrões morfológicos, criam sufixos intuitivamente, combinam palavras por sonoridade e produzem termos que frequentemente seriam compreensíveis mesmo sem explicação. Isso talvez explique por que tais palavras encantam tanto: elas parecem erradas e corretas ao mesmo tempo. E há um detalhe literariamente fortíssimo no fato de que muitos neologismos infantis são mais expressivos do que os termos oficiais. Ou no mínimo muito mais poéticos. Ou alguém duvida que “machucância”, por exemplo, transmite muito mais sensação física do que simplesmente “dor”. Ou que “apagador de escuro” seja até mais bonito e filosófico do que “interruptor”. A criança frequentemente nomeia o mundo a partir de funções simbólicas, não pela convenção técnica. O que disparadamente é muito mais precioso. Sejamos um pouco mais infantis no modo de ver e de nomear o mundo ao nosso redor.
22.05.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é trecho de Misturando os Bichos, de Adriel Sampaio, músico e baterista que atua e provavelmente reside em Mafra, Santa Catarina. Ele frequentemente cria letras surreais, como essa aqui utilizada, que apresenta híbridos de animais em uma proposta humorística e muito interessante.